domingo, março 27, 2011

Londres - Manif. contra os "cortes": 66 feridos e mais de 200 detidos


Ah, grande democracia britânica que dá sempre cartas a toda a gente! Na manif. de sábado, em Londres (anti-cuts rally), 250.000 pessoas (tantas como a dos à rascas em Portugal), que se saldou por 66 feridos e 214 detenções, foi interessante ver o "civismo" dos soberbos ingleses. Gostei de observar aquelas investidas contra os bancos e as companhias de seguros em que tudo se partia à paulada e à pedrada. Gostei de ver a passividade da polícia. Assim é que é, não há cães, nem cassetetes, nem carros de água, nem nada disso, é fartar vilanagem. Querem quebrar a loiça, pois que quebrem que o contribuinte paga!
Aqui, neste país periférico, pobre, endividado e desgraçadinho foi - e é - uma sensaboria: a manif. dos rascas e dos à rasca, com jovens, criancinhas de colo e velhinhos, não deu nada, apesar de ter estado para lá uma salada monumental (extrema-esquerda e extrema-direita, gajos que queriam a legalização da marijuana, maricada q.b., feministas, reformados à beira de um ataque de nervos, enfim de tudo um pouco...); depois a dos professores no mesmo dia (não se passou nada!); na semana a seguir, a da CGTP (nada houve!); tem havido greves numa base diária (nada a registar, excepto atrasos e outros pequenos inconvenientes). Somos, de facto, uns tristes, uns fadistas pindéricos. Devíamos era aprender com os ingleses. Que diabo, não temos tomates ou o que é isto? Então,  ninguém, mas mesmo ninguém partiu uma montrazinha sequer? Não há montras para escavacar? É por estas e por outras que não temos o verdadeiro espírito europeu. Os ingleses foi o que agora se viu. Os gregos estão fartos de fazer das suas e outro dia até iam queimando polícias vivos. Os franceses pintam a manta à menor coisinha. Não, os tugas são mesmo uns terceiro-mundistas. Não sabem fazer as coisas à europeia.
Dizia-me um inglês, meu amigo, a propósito da manif. de Londres: "That was an un-english atitude". Ao que lhe respondi: "No my friend,  correct me if I am wrong, it was very, very English-like".    
Marcelo Caetano 

Afinal não houve desmarcelização, nem des-salarização do regime  ou serão apenas legítimas saudades do antigamente? Mão amiga fez-me chegar esta foto de uma rua, nos arredores de Lisboa, com o nome do falecido professor Marcelo Caetano, último Presidente do Conselho (Primeiro-ministro) do regime deposto em 25 de Abril de 1974. Só que não sei onde fica, porque me omitiram o nome da povoação onde se encontra. Um doce a quem adivinhar...E já agora, haverão mais exemplos?
Um pequeno comentário: agora que tanto se fala na necessidade de mudança de regime querem reeditar ou recauchutar  o Estado Novo?

quinta-feira, março 24, 2011

God save Europe's gracious Queen! Viva a sereníssima  rainha da Europa!



Manifestando-se "grata" ao primeiro-ministro português pelo trabalho feito na consolidação das contas públicas, Angela Merkel  lamentou que as novas medidas de austeridade não tenham sido viabilizadas pelo Parlamento, criticando implicitamente os partidos da Oposição lusitana
Segundo os relatos dos media, a chanceler alemã em declarações à agência de informação financeira Bloomberg, disse estar "grata a Sócrates" por tomar a responsabilidade das contas públicas do seu país.  A líder alemã lembrou que as novas medidas tomadas pelo Governo português para reduzir o défice orçamental foram de "longo alcance" e apoiadas pelo Banco Central Europeu (BCE) e pela União Europeia.
Ora bem, o PEC 4 foi chumbado por 5 dos 6 partidos com assento parlamentar, que vão da direita à esquerda, com todos os matizes de permeio. Quem não percebeu isto, não percebeu mesmo nada e de democracia sabe ainda menos. Está-se perante uma rejeição quase unânime de uma austeridade imposta por erros deste governo e dos que o precederam e o Povão tem de pagar uma pesadíssima factura verdadeiramente insuportável e de injustiça flagrante. Mais. Temos diante de nós um Primeiro-Ministro que necessitava de apoios como do pão para boca  e que tudo fez para os não ter, ou seja e sejamos claros: consciente, deliberada e malevolamente Sócrates provocou a crise, para não ter que assumir as suas culpas nesta situação, que é em larga medida uma criação sua. Não se trata de uma birra ou de um amuo dos partidos da Oposição, mas de uma posição séria. É todo um país que quer mandar Sócrates e o seus grupo de cafagestes, como por aqui se diz, you know where.
É claro - e perdoe-se-me o aparte - temos de mudar de sistema. Temos de mudar tudo. Temos de ir para a rua e fazer a revolução, mas até lá - e ainda falta percorrer the extra mile - pelo menos temos que dar um chuto nesta cambada. É um primeiro passo, muito insuficiente, é certo, mas necessário.
Voltando à vaca fria:
A Europa é composta por 27 países  e que se saiba não é uma quinta alemã da Baviera ou do Bad-Wuertemberg. Os países da zona Euro não adoptaram o marco como sua moeda, muito embora o Euro, seja uma sua reencarnação, o último avatar germânico. Quem é Merkel para dar recadinhos na Tugalândia? Já sabemos que vivemos num regime de soberania limitada, mas isto vai muito claramente para além das marcas.
Para a chanceler, tudo estava a correr bem e Sócrates obedecia fielmente às suas ordens, complementando-as com o arranjinho estabelecido com a Comissão Europeia e com o Banco Central Europeu, portanto, eis senão quando  somos, subitamente, confrontados com uma atitude de total  irresponsabilidade por parte dos parlamentares lusos, uns rústicos e uns tótós.
Será que o embaixador alemão em Lisboa não informou Berlim do que se estava a passar? Então está aqui a fazer o quê?
É preciso que Merkel e outros se convençam que Sócrates não é o Conde D. Henrique, que Portugal não é o Condado Portucalense, ou um qualquer feudo no sudoeste da Europa e que não  deve vassalagem à Sacra-Imperatriz Romano-Germânica.     
Deixem-se de merdas!

Dilma Rousseff  à SIC – “Mas o presidente não vai poder me receber?”

Numa entrevista concedida, ontem, a Miguel Sousa Tavares da emissora de televisão portuguesa SIC, Dilma mostrou-se surpresa com a informação dada pelo entrevistador, de que o Primeiro-ministro José Sócrates poderia renunciar, depois de o parlamento ter rejeitado novas medidas de austeridade. “Mas o presidente não vai poder me receber?”, perguntou ingenuamente Dilma. Apesar de surpresa, a “Presidenta” confirmou a sua viagem a Coimbra e Lisboa, e demonstrou que não estava informada de que Sócrates estava prestes a deixar o governo, noticiou, hoje, o  “Estadão” (jornal “Estado de São Paulo”).
Depois de Miguel Sousa Tavares ter esclarecido que o Presidente Cavaco Silva a receberia e que o Primeiro-ministro demissionário também, Dilma sossegou um pouco, mas confessou: "Eu não tinha conhecimento do que estava acontecendo. Foi, agora, n'é?" 
Ao inteirar-se da situação de Sócrates, a “Presidenta” afirmou: "Seja quem for o primeiro-ministro, ele vai me receber", segundo o relato publicado pelo jornal Folha de São Paulo.
A Chefe de Estado brasileira disse à SIC que iria obter informações adicionais junto do seu Ministro de Relações Exteriores.
Dilma visitará Portugal, entre 29 e 31 de Março, para prestigiar o ex-Presidente Lula da Silva que receberá o título de doutor honoris causa da Universidade de Coimbra. Trata-se da primeira viagem internacional da Presidente brasileira, em funções desde o início de Janeiro, a um país europeu.

Como se sabe, o primeiro-ministro, José Sócrates, apresentou quarta-feira a demissão ao Presidente da República por considerar que ficou sem condições para governar, depois de o Parlamento ter aprovado resoluções de rejeição de toda a Oposição ao chamado PEC 4 proposto pelo Governo.
O pedido de demissão de José Sócrates foi anunciado pela Presidência da República que, contudo, salienta que o Governo se mantém "na plenitude de funções até à aceitação daquele pedido". Cavaco Silva irá promover sexta-feira audiências com os partidos com assento parlamentar.


Três ou quatro comentários muito curtos:
  1.  Então a “Presidenta” vem a Portugal é entrevistada para um canal de televisão português e  não está minimamente informada do que passa no país que vai visitar, designadamente da crise iminente? Bom, das duas uma: ou é completamente ignorante ou é burra.
  2. A "ex-terrorista" não tem assessores diplomáticos, não conferencia com o seu Ministro dos Exteriores, não lê a mídia? O que é isto? O quê? Vai se informar depois e diz isso em público?
  3. E o que é que faz a Universidade de Coimbra? Vai atribuir um doutoramento honoris causa a um quase analfabeto funcional, que não dispõe dos mínimos rudimentos de educação básica? E amanhã vai doutorar quem? O Chávez, o Khadaffi ou o Ahmeddinejad?
  4. Mas é com gente deste calibre que o Brasil se quer impor como grande economia emergente e como país líder, à escala planetária? E nós damos cobertura  a isso, com esses pseudo-doutoramentos? O Povo brasileiro não merece essa gente, nem nós merecemos esses académicos de Coimbra ..Haja um mínimo de senso comum!


Bueno, como dicen en Latino-América, no pasa nada, no pasa nada.

segunda-feira, março 21, 2011

Wikileaks faz estragos: o embaixador americano no México demite-se devido à divulgação de telegramas diplomáticos


De acordo com declarações proferidas, no passado fim de semana, pela Secretária de Estado, Hillary Clinton,  a divulgação de uma série de telegramas diplomáticos confidenciais, oriundos da rede Wikileaks, foi objecto de queixas acrimoniosas por parte do Presidente Calderón do México o que levou a que o embaixador americano naquele país  tivesse apresentado a respectiva demissão.
O embaixador, Carlos Pascual, de origem cubana, era um perito nos chamados “Estados falhados”. Parece que numa fase inicial, terá, de algum modo, conseguido moderar o criticismo de Felipe Calderón. Todavia, a  crispação aumentou  quando a Wikileaks divulgou um telegrama de Dezembro último que citava directamente as interrogações do embaixador Pascual  relativamente à relutância manifestada pelo Exército mexicano em agir com base em informações da intelligence americana acerca do capo de um cartel da droga. Este líder do narcotráfico terá sido posteriormente capturado pela Marinha mexicana. Nesse telegrama, o embaixador consideoru que as forças armadas e a polícia mexicana eram "corruptas, lentas, avessas ao risco e dependentes dos EUA para lutarem contra o tráfico de droga." Num outro telegrama, Pascual terá  posto em causa a capacidade do México em lidar com o problema brutal da droga que terá feito mais de 35.000 mortos nos últimos 4 anos.

O Presidente Calderón manifestou-se particularmente perturbado pelos comentários de Pascual admitindo implicitamente que os “soldados mexicanos não seriam suficientemente corajosos” para levarem a cabo determinadas tarefas no âmbito da luta anti-droga. Todavia, recentemente, o embaixador Pascual foi visto em visita a Ciudad Juárez, no Norte (junto à fronteira com o Texas), louvando os vínculos que existem entre as autoridades americanas e mexicanas.

Sem embargo, Hillary Clinton declarou que Carlos Pascual terá chegado à conclusão que devia abandonar as suas funções “para assegurar a forte relação entre os nossos dois países e para evitar envolver-se em temas suscitados pelos Presidente Calderón que poderiam desviar-se da questão de fundo que é a excelência das relações bilaterais”.
De qualquer das formas, as relações tensas entre Pascual e o Presidente mexicano já tinham em si mesmo consistido numa distracção. O gabinete de F. Calderón, que não comentou as declarações da Secretária de Estado, já tinha dado a entender claramente, há várias semanas, que Pascual devia ser chamado para consultas sem regresso ao posto (por outras palavras, demitido).
O jornal pró-governamental “El Universal”, na sua edição de 22 de Fevereiro, referia que os telegramas divulgados pela rede Wikileaks revelavam que a embaixada americana  patenteava “ignorância” sobre a aplicação da lei no México.
O Chefe de Estado reiterou a sua frustração durante uma viagem a Washington que teve lugar este mês para se avistar com Barack Obama e os media mexicanos têm glosado o tema em permanência.
Alguns analistas políticos afirmam que os telegramas divulgados, da autoria do embaixador Pascual e dos seus colaboradores, descrevem o que consideram ser obstáculos burocráticos inesperados e receios quanto ao controlo por parte dos cartéis de Ciudad Juárez que mais não são que o reflexo do que se pode ler  na própria comunicação social mexicana. .
Outros, tal como o historiador Lorenzo Meyer, salientaram que os presidentes mexicanos atacam muitas vezes o embaixador americano quando se sentem pressionados pelos EUA. De acordo com fontes quer americanas, quer mexicanas, a  tensão aumentou quando pistoleiros abateram a tiro um agente nos arrabaldes da Cidade do México. De registar que Carlos Pascual é um dos funcionários mais graduados a ser transferido na sequência dos escândalos provocados pelas fugas de informação da Wikileaks. O embaixador americano na Líbia foi retirado em Janeiro quando os telegramas da sua autoria foram publicamente divulgados, nos quais o representante diplomático dos EUA entrava em pormenores sobre as idiossincrasias e manias do líder  líbio Muamar al-Gaddafi.
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sexta-feira, março 18, 2011

Líbia – Europa claramente dividida quanto à“No-flight Zone”. Brasil abstém-se.

Foi aprovada ontem em Nova Iorque uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas estabelecendo a Zona de Exclusão Aérea (“No-flight Zone”) na Líbia, autorizando "todas as medidas necessárias" para a protecção de civis e áreas civis povoadas sob ameaça, referindo explicitamente a cidade de Bengazi. Leia-se, para impedir o massacre de civis pelas tropas do ditador Muamar Kadhaffi.O texto exclui explicitamente "qualquer tipo de ocupação estrangeira em qualquer parte do território líbio".
A resolução, em que a França e o Reino Unido (com o decidido apoio do lado árabe por parte do Líbano) foram instrumentais para as respectivas negociação e aprovação, obteve os votos favoráveis de 10 países (os três referenciados, mais os EUA, África do Sul, Nigéria, Portugal, Líbano, Bósnia e Herzegovina, Colômbia e Gabão) e cinco abstenções (curiosamente os BRICs – Brasil, China, Rússia Índia e – pasmem-se, oh! Gentes!  - a Alemanha!!!).
Tropas americanas, francesas, britânicas e de dois países árabes devem participar da ação militar. 
A abstenção do Brasil
O Brasil da ex-revolucionária e agora “presidenta” Dilma Rousseff, ao arrepio do sentimento generalizado dos ocidentais, africanos e árabes, ao justificar a abstenção, afirmou que a posição brasileira "não significa uma aceitação do comportamento do governo líbio". De acordo com a embaixadora Maria Luiza Viotti, "o problema está no texto da resolução" (o Brasil está de acordo quanto ao fundo e em descaordo quanto à forma? Fraca desculpa…). Para a diplomata brasileira, "as medidas adotadas podem gerar mais danos do que benefícios" (Quais? Menos gente no paraíso de Alá?). Além disso, segundo a representante brasileira junto à ONU, os movimentos no mundo árabe "têm crescido internamente. Uma intervenção externa alteraria esta narrativa, tendo repercussões na Líbia e em outros países" (mas como, se os próprios árabes vão participar na força de interdição aérea?). O império da  asneira encontra múltiplas justificações, em especial no Brasil de Dilma.

A Alemanha manda a Europa ir dar uma curva.
É o fim claro e sem ambiguidades da Política Externa e de Segurança Comum, agora que a Alemanha, como anunciámos repetidamente neste blogue, começa a namorar a Rússia e já está a entrar na fase da paixoneta, que evoluirá para paixão. A ligação a Leste é, pois, um dado incontornável, muito embora tudo se justifique, mesmo o injustificável. A Alemanha não queria participar em operações militares, dizem eles, mas a tal ninguém os obrigou…. Portugal votou a favor e não se vai envolver em operações militares. O que é que quer Angela Merkel?
E, já agora, o que é  que faz Catherine Ashton no meio de tudo isto?  É só blá-blá? Fim definitivo da PESC ou será possível repescá-la?
Para terminar, 
Quando é que Luis Amado vai comer mais umas tâmaras à tenda do beduíno?

terça-feira, março 15, 2011

Diplomatas e equiparados (2º da série)

É interessante o despacho do Professor Diogo Freitas do Amaral (o modestíssimoo autor de "15 meses ao serviço do Ministério dos Negócios Estrangeiros" - Meu Deus! O que seria se ainda lá estivesse!), tal como transcrito no livro de Luís Mascarenhas Gaivão ("Um Adido Cultural no Luxemburgo"):


“...decidi hoje a extinção da comissão de serviço de V. Exa. como Conselheiro Cultural nessa Embaixada. [...] a decisão acima referida de extinção da sua comissão de serviço foi tomada sem necessidade da formalidade da "audiência prévia ao interessado” por ter sido declarada “urgente” [...].”

MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS

É má língua dizer que o Diogo é o vira-casacas do regime ou o expoente máximo do  cataventismo político. Vocês é que têm inveja. Olhem bem para o currículo deste senhor, sim, um verdadeiro senhor da vida lusitana. 




Sócrates criou deliberadamente a crise

Valerá a pena governar, na actual conjuntura? Talvez não. O Poder pelo Poder já não será apetecível. Com efeito as circunstâncias não ajudam nada, mesmo nada. Vai daí e sem dar cavaco a ninguém, nem ao próprio Cavaco e lança-se o PEC 4. Vamos lá ver como reagem, sabendo-se, de antemão, que vão reagir mal. What did you expect? O dever de informar urbi et orbi passou a segundo plano, quando é uma questão essencial, em democracia e muito especialmente para um Governo minoritário, como é o caso. José Sócrates pode ter obtido uma licenciatura por caminhos ínvios, mas não é tonto: sabia exactamente o que ia acontecer. E aconteceu. Assim sendo, a crise é artificial. Foi provocada, para mais uma vez, num golpe de teatro duvidoso e reles, Sócrates dramatizar tudo e armar-se em vítima, no estilo eu-bem-queria-mas-estes-senhores-é-que-apostaram-no-caos, então vão à vida que eu vou à minha.
Nesta matéria, tanto quanto em apercebo, existem 3 teses:
(i)             a crise foi intencional e provocada pelo PM;
(ii)            a crise foi involuntária, mas deve-se à inabilidade do Chefe do Governo e, em parte, às suas mudanças de humor;
(iii)          a crise resulta de uma “combine” entre PR e Passos Coelho, em que o primeiro provoca e o segundo pega na “deixa”.
Para mim é evidente que a primeira tese é a que corresponde à verdade. A sociedade portuguesa chegou já ao ponto de ruptura. Muitos (entre os quais este vosso criado) anseiam não por um mudança de governantes, mas por um verdadeiro câmbio de regime, uma vez que este decididamente se esgotou e, por conseguinte não serve. A mega-manif. de Sábado ilustra isto mesmo e Sócrates sabe-o (aliás, já o sabia). Não informar PR, parceiros sociais, parlamento, os próprios Governo e partido. É deliberado ou involuntário? É involuntário quando pelo alínea c) do nr. 1 do artigo 201.º da Constituição da República
“(Competência dos membros do Governo)
1. Compete ao Primeiro-Ministro:
 c) Informar o Presidente da República acerca dos assuntos respeitantes à condução da política interna e externa do país»?
É involuntário quando a Oposição unanimemente condenou nos termos mais veementes o procedimento e o PM disse que submeteria o pacote ao Parlamento, sabendo antecipadamente e de fonte mais do que limpa que será chumbado?
Sócrates terá feito apenas um telefonema informativo para Passos Coelho, mas matéria desta importância e gravidade não teria de ser discutida e negociada antes?

A tese da inabilidade e das mudanças de humor (“amuos”) de Sócrates, bem como as suas vontadezinhas de pretenso régulo ibérico,  te-lo-ão levado involuntariamente a criar a crise, tese que é defendida por alguns, em especial por Marcelo Rebelo de Sousa, mas que, a meu ver, não pega. Este está, no fundo, a menorizar Sócrates fazendo-o mais burro do que realmente é. Ou seja, chega às seguintes conclusões: isto está tudo feito. Eu já combinei com o Barroso, com o Trichet e com a Merkel. Quem manda sou eu. Não tenho que dar satisfações a ninguém e muito menos a esse gajo que andou para aí a chatear-me. Eu não quero criar crises nenhumas, mas, porra, sou o PM da Tugalândia. Coelho que vá para a toca. Digam-me se isto tem alguma consistência ou se Sócrates é, de facto, estúpido?
A terceira tese é a do maquiavelismo político, de um pretenso “complot” à direita entre o PR e o Presidente do PSD. Cavaco desencadeia as hostilidades com o seu discurso de posse com uma mensagem subliminar bastante clara para toda a gente: tem a faca e o queijo na mão. Tudo isto vai mal. O Governo pode ir para a casa na primeira curva do caminho. Logo, atenção, muita atenção, ao que se segue. Passos Coelho aproveita a deixa,  é informado em cima da hora. Nada disto foi acertado, nem sequer falado. Bom, eis o pretexto: mata aí que eu esfolo depois. A tese é demasiado rebuscada para ser crível e os personagens são demasiado florentinos para serem verídicos.
Bom, resumindo e concluindo, a crise está criada, mas a solução não está à vista. Os velhos e obsoletos partidos políticos  vão movimentar-se, mas a sociedade civil, se estiver atenta, não deve perder esta oportunidade única. Isto agora tem de mudar a sério, chegou a hora. Yes, we can! Yes, we can! Yes, we can

domingo, março 13, 2011

Protesto da "geração à rasca" num país rasca


Pelas notícias a que tive acesso, a mega-manif. terá sido um sucesso. Rima e aparentemente é verdade. Não terão estado 300.000 pessoas em todas as cidades do país, como afirmam os organizadores/motivadores/animadores, mas, sem dúvida alguma, muitas dezenas de milhares de manifestantes, sobretudo em Lisboa e Porto – a este respeito, as fotos e os vídeos são eloquentes. Pelos relatos que me chegaram, terão estado umas 60 a 70.000 pessoas em Lisboa e umas 30 a 40.000 no Porto, o que bem feitas as contas, sem exageros, é muito bom, excedendo largamente as expectativas inicias, mesmo as mais optimistas.
De acordo com as notícias que me chegam, a  manif. possuiu duas outras características importantes e que contrariam algumas das minhas teses anteriormente expostas (reconheço-o, sem complexos, não me chamo José Sócrates Pinto de Sousa, nem sou político): (i) foi intergeneracional; (ii) a temida “colagem” dos partidos e das forças politicas não terá resultado inteiramente (mas há que acautelar o futuro e, nesta matéria, os perigos são mais que muitos).
Com efeito disse, aqui, mesmo, neste blogue, que se tratava “de uma manifestação de uma geração, portanto de um grupo social identificado e específico, e não da sociedade portuguesa no seu todo – por conseguinte, era uma manifestação circunscrita”. Não bem foi assim, na medida em que a participação se revelou mais abrangente do que se pensava, todavia o grosso da coluna foi constituído pelos jovens da dita “geração à rasca.” Essa participação inclusiva de outros sectores da nossa sociedade explica-se, creio eu, principalmente pelo cansaço, pelo desencanto e pela irritação e pelo sentimento revolta permanente em que vivemos todos. Como escrevi em post anterior e esta asserção afigura-se-me bem verdadeira: Vivemos num país rasca e em que quase todos vivem à rasca. Esta é que é a verdade dos factos e todos nós sabemos disso.”
Foi, pois, esta a razão primordial para várias gerações se terem congregado  nas praças das nossas principais cidades numa rejeição unânime da situação em que vivemos e da classe política que a tal nos conduziu.
Outros factores terão contribuído para essa participação expressiva de vários sectores e gerações da sociedade portuguesa: antes do mais, o desastrado e surpreendente anúncio de mais medidas de austeridade na véspera, i.e. na 6ª feira de manhã, o que terá induzido uma dinâmica de mobilização acrescida sobretudo por parte das geralções menos jovens; a solidariedade com os jovens, a curiosidade e a novidade do fenómeno, a ânsia de mudança e a divulgação enorme que a manif. beneficiou nos meios de comunicação electrónicos e convencionais (no fundo factores que, de um modo ou de outro, acabam por estar inscritos na razão principal  ou que dela derivam).
Pena foi que os organizadores/motivadores/animadores tivessem definido a manif. como o fizeram. Se a tivessem aberto, à partida, irrestritamente, à participação de toda a sociedade, não teriam surgido as dúvidas que surgiram e que o Facebook e outros meios deram eco, porque eram as dúvidas de muito boa gente, incluindo o autor destas linhas. É certo que a “geração à rasca” era o sector-alvo, mas, repito-o, mais uma vez, é todo um pais rasca que está e continua a estar à rasca.
Por outro lado, a “colagem” dos partidos e de certas figuras e forças politicas foi tentada. Foi, de certo modo, detectável (ou seja, visível e audível, ma non troppo), sem embargo houve o bom senso (excepto no pequeno grupo da extrema-direita), de não aparecerem com as bandeiras e as palavras de ordem dos mandatários da partidocracia. Ainda bem. Também aqui me enganei. Dou a mão à palmatória. Resta saber qual será o aproveitamento político posterior deste imenso descontentamento popular, sabendo-se que PCP, BE, extrema-direita, Presidente da República e mesmo alguns sectores dos principais partidos, directa ou indirectamente,  apoiaram o comício.

Resta adivinhar-se o que se segue. Em post anterior referimos, com a devida ênfase o seguinte: “Atingimos uma encruzilhada a que o Poder político (leia-se, toda a classe política conhecida, sem excepções), que dispõe de pouca (ou nenhuma) credibilidade, é incapaz de responder. A questão principal é o próprio regime. É este que está em causa e sem qualquer possibilidade de redenção.”
Se o movimento se esgotou em 12 de Março, para pouco ou nada serviu e daqui a meia-dúzia de dias ninguém se lembrará do que se passou (aliás, o próprio Governo está muito mais preocupado com a greve das empresas de camionagem do que com a “geração à rasca”). Se, pelo contrário, o movimento pretende avançar por novas vias e por novas formas de luta, tem de organizar-se e preparar-se para o combate no terreno (protestar por protestar, já se ouviu, mas não chega). Ora, como o dissemos, isto pode ser o fervilhar, o cozinhar em lume brando de uma nova situação, mas por esta via atabalhoada e meio-anárquica não se chega lá. Alem disso, os oportunistas de meia-tijela vão tentar tirar o maior proveito possível da situação. Existem riscos sérios se nos armamos em aprendizes de feiticeiros.
Quanto aos Sábios governantes que temos, o  aviso à navegação está dado. Desconhece-se em rigor o que é que o poder político conta fazer. Provavelmente coisa alguma. Como já é habitual, espera que a tempestade passe e depois logo se vê. Mas também as coisas podem evoluir de modo diverso. 
Os passos seguintes podem consistir (o elenco de acções é meramente indicativo):
num movimento estruturado de contestação ao regime 
-    na moralização da vida política;
-       no combate à corrupção, ao nepotismo, ao clientelismo, ao poder dos lóbis;
-       no fim do despesismo do Estado, no seu emagrecimento consequente e na sua gestão rigorosa;
-       na redução drástica do sector empresarial do Estado
-       no termo definitivo dos políticos-gestores
-       na participação dos movimentos cívicos e das organizações de base no processo político
-       no fim da partidocracia, como a conhecemos;
-       na responsabilização dos deputados e de todos os corpos eleitos perante o eleitorado nacional e local (p. ex., ninguém poderá representar Viana do Castelo no parlamento e não ser responsável perante os vianenses);
-       na meritocracia, provida de regras transparentes e consequentes;
-       na criação de um grande movimento popular que congregue todas estas acções e outras tidas por adequadas, visando implantar a III República.

sábado, março 12, 2011


Diplomatas e equiparados



Do recente livro de Luís Mascarenhas Gaivão (“Um Adido Cultural no Luxemburgo”), que mão amiga acaba de mo fazer chegar, transcrevo, sem comentários, as seguintes passagens:

“Amigos, inimigos e amigos da onça
Ninguém tem apenas amigos, ninguém cultiva só inimigos, mas quando se é “equiparado a diplomata” – versão soft do conceito depreciativo, vulgarmente conhecido por DDM,  diplomata de merda -  que grande número dos diplomatas “genuínos” e encartados por autenticidade comprovada, made in Ministério dos Negócios Estrangeiros, alimentam em relação aos conselheiros e adidos das embaixadas,  há que proceder-se e tomarem-se atitudes revestidas do mais elegante trato, da mais apolínea educação, da mais requintada fineza, sempre e constantemente utilizando pinças de apurada diplomacia.
Estes procedimentos são obrigatórios para aqueles DDM serem minimamente tolerados no meio.
 Um verdadeiro e puro “equiparado a diplomata” deve chamar a si todos os requisitos supramencionados, procedendo em conformidade com os tão esmerados e elevados padrões de relacionamento da escola de educação e bom gosto, tendo o cuidado de nunca deixar em mãos alheias créditos pessoais porventura já alcançados junta das figuras e figurões do MNE.
O esquecimento desta obrigatoriedade de comportamentos que inclui o prestar vassalagem à fina-flor da diplomacia, as visitas ao MNE para se deixar ver e conhecer, o espírito serviçal (oposto ao espírito de serviço, pois este não interessa a quase ninguém) aos políticos, tudo isso entra em linha de conta  para que alguma tolerância seja displicentemente dispensada e ele lá possa continuar em funções.”

Luís Mascarenhas Gaivão “Um Adido no Luxemburgo”, Ed. Autor e Guerra e Paz, Editores, S.A., Lisboa, 2011.



Wikileaks e o "Expresso"



Vale a pena ler e reflectir um pouco sobre o que refere o blog “Do Portugal Profundo” sobre o assunto em epígrafe.
  
Ora, bem:
Num alegado contexto de total liberdade de acesso à informação, porque é que certas passagens dos textos dos cables (telegramas diplomáticos) da embaixada americana em Lisboa aparecem com tinta negra, omitindo nomes de personalidades, lugares, factos, comentários, etc.? Quem é que o “Expresso” quer proteger, para além da habitual nomenklatura do regime lusitano, que se adivinha mas que não é revelada? Então que liberdade é essa? Ou será que o Costa do “Expresso” está mais uma vez a fazer um favorzinho a este bando de cafajestes que se intitula governo?

O “Expresso” agora é receptador de mercadoria roubada, mas está a utilizar produtos furtados já em segunda mão , na medida em que  os comprou aos jornais dinamarqueses “Morgenpost” e “Aftenpost” e não directamente à “Wikileaks”. Haverá algum mérito em fazer uso de mercadoria roubada? Não existem padrões deontológicos? Mandamos às malvas os princípios? Já agora, ao abrigo da transparência e do direito à informação, que o jornal do Balsemeco nos revele quanto é que pagou
Ninguém denuncia Julian Assange nos seus termos exactos e justos, ou seja que roubou e que ganhou (muito) dinheiro com isso. Quanto? Por ora, poucos sabem, mas deverá andar na casa dos muitos milhões, atendendo à dimensão desta operação marcadamente comercial. Todavia, quando o dito senhor foi “de cana”, muitos choraram as habituais lágrimas de crocodilo e propuseram-se fazer uma pequena colecta para ajudar o pobrezinho, que não tinha cheta...Gimme a break, please!
Ninguém denunciou os órgãos de comunicação social ditos de referência (originariamente, “The New York Times”, “El Pais”, “Guardian”, “Le Monde” e “Der Spiegel”) por terem deliberadamente participado – e beneficiado – com este furto.

Não há moralidade, nem comem todos!  

quarta-feira, março 09, 2011


Chocolates de sangue 2/2


Em 2001, as plantações africanas de cacau foram acusadas de utilizarem trabalho infantil e tráfico de crianças, um processo em que estava implicada a multinacional Nestlé. Esta empresa estava mais uma vez no centro da controvérsia ao comprar cacau que teria sido produzido utilizando crianças-escravas da Costa do Marfim e do Gana. Na época, um programa da BBC mostrava que milhares de crianças em vários países da África Ocidental, incluindo o Mali, o Burkina Faso e o Togo eram compradas às respectivas famílias e e enviadas para a Costa do Marfim para serem vendidas como escravas nas roças de cacau.
"Estas crianças, de idades que variavam entre os 12 e os 14 anos (e por vezes, mesmo, mais jovens) eram forçadas a trabalhos manuais árduos 80 a 100 horas por semana, não percebendo qualquer salário, sendo subalimentadas e regularmente espancadas. No escândalo que foi suscitado pelas revelações da BBC, a Nestlé manifestou as suas “preocupações” pela utilização de mão de obra infantil, mas não estava em posição para confirmar que o seu chocolate derivava de fontes de trabalho escravo.
 Em 2005, uma ONG que se dedica aos direitos humanos intentou um processo contra as companhias Nestlé, Archer Daniels Midland e Cargill no Tribunal Federal de Los Angeles por envolvimento em tráfico, tortura e trabalho forçado de crianças que cultivam e recolhem sementes de cacau que aquelas empresas importavam de África. A acção judicial foi interposta com base em dois regulamentos federais: a Lei de Protecção contra a Tortura e a Lei de Reclamações contra a Tortura a Estrangeiros.
O Fundo Internacional para os Direitos Laborais (International Labor Rights Fund – ILRF) com sede em Washington, bem como uma firma de advogados do Alabama especializada em direitos civis, interpuseram uma acção em nome de um grupo de crianças malianas que foram objecto de tráfico do Mali para a Costa do Marfim e obrigadas a trabalhar 12 a 14 horas por dia, sem receberem qualquer salário, pouca alimentação, privadas de descanso e objecto de sevícias. As 3 crianças que testemunharam foram forçadas a fazê-lo de forma anónima por medo de represálias, nos locais onde trabalhavam.

Em 2009, a IRIN News do Bureau da Coordenação dos Assuntos Humanitários da ONU denunciava esta situação, adiantando que o aumento drástico da pobreza estava na razão directa do aumento do trabalho escravo infantil na Costa do Marfim. De acordo com fontes governamentais, calcula-se que um quarto de todas as crianças na Costa do Marfim trabalhem e 8 em cada 10 são exploradas. Desde “trabalho sexual” (sic), abate de árvores, queimadas, subida a árvores para a colecta do óleo de palma, transporte de grandes pesos, trabalho doméstico não remunerado. A nível nacional, o número de pessoas que subsiste com menos de 1,25 dólares por dia passou de 10% em 1985 para 49% em 2008, de acordo com os dados do Banco Mundial.

Conclusões:
  • O trabalho infantil, pelo menos da forma brutal em que é praticado nalgumas partes do mundo (ou seja, um regime efectivo e tangível de escravatura), designadamente na África Ocidental é por definição condenável.
  • Finalmente, a Nestlé, sem embargo da sua dimensão e da sua pujança, é uma empresa que tem de respeitar as leis e a ordem internacional. Não está, nunca esteve, nem estará, acima da Lei. O que nos quer justificar é pura música celestial. Interessa saber se somos ou não capazes de a pôr - e a muitas outras empresas - nos carris.




Ana Paula Zacarias em Brasília 


Parabéns à Embaixadora Ana Paula Zacarias nomeada para a chefia da Delegação da União Europeia no Brasil pela Alta Representante para as Relações Externas, Catherine Ashton, após – note-se bem – concurso público, o que e revelador da capacidade e qualidades da referenciada, que possui um currículo expressivo (Embaixadora na Estónia, nr. 2 na REPER, Vice-Presidente do Instituto Camões, Conselheira na Missão Portuguesa junto da UNESCO, assessora da Presidência da República)
Segundo os media, Ana Paula Zacarias é a primeira diplomata portuguesa a chefiar uma Delegação da União Europeia no quadro do novo Serviço Europeu para a Acção Externa. Mais cinco funcionários portugueses (que não diplomatas) chefiam outras tantas delegações europeias no mundo: Estados Unidos (esta por nomeação do Presidente da Comissão, Durão Barroso), Ucrânia, Venezuela, Camarões e Gabão (que também cobre S.Tomé e Príncipe).
A delegação em Washington  - um dos lugares mais importantes das representações externas da Comissão - é chefiada pelo antigo Chefe de Gabinete de Durão Barroso, João Vale de Almeida.
Comentando a nomeação, Pedro Lourtie, secretário de Estado dos Assuntos Europeus, disse ao “Expresso” de Lisboa que "o Brasil era uma das prioridades que Portugal tinha fixado neste arranque do Serviço Externo", pelo que "estamos mais do que satisfeitos". Para este lugar, o país concorreu diretamente com a Alemanha e, depois, com a Holanda e a Áustria.
Lourtie considerou que a nomeação de Ana Zacarias constituía uma “vitória da diplomacia portuguesa”, quando, no fundo, se trata de um sucesso pessoal, muito embora honre a carreira diplomática e o país.
No caso de Ana Paula Zacarias, afigura-se-nos que também  o lóbi lusitano terá funcionado, o que não aconteceu há uns meses atrás com Luísa Margarida Bastos de Almeida (actual embaixadora em Ankara), que, apesar dos seus vinte e muitos anos em Bruxelas e a sua senioridade, não conseguiu o almejado lugar, por não ser “adequada” para o lugar.
Portugal pretenderia para os seus diplomatas da sede (ou seja, das Necessidades) 3 possíveis postos: Brasília, Luanda e a Direcção de África, em Bruxelas. Angola constituiria, pois, a segunda prioridade, neste momento inalcançável, uma vez que a nomeação da referenciada e também de José Pedro Costa Pereira para a dita Direcção esgotou, por assim dizer, a quota “disponível” para Portugal. 
Recorde-se que foi durante a presidência portuguesa da União, em 2007, que a UE estabeleceu uma parceria estratégica com o Brasil, tendo organizado a primeira cimeira UE-Brasil.
A nosso ver, não houve neste caso feminismo (ou, se se quiser muito pouco) mas apenas mérito. Todavia, não se tratou de uma mera coincidência o facto de Catherine Ashton querer divulgar a nomeação da supracitada e também de Mariangela Zappia, como representante da Comissão Europeia na ONU em Genebra, no dia internacional da mulher 
Chocolates de sangue - 1/2



Sabia que mais da metade do cacau que se consome no mundo vem de África? Sabia que existem ali roças (quintas) onde trabalham cerca de 300.000 crianças dominadas pela influência das multinacionais e fora dos parâmetros do comércio justo? Provavelmente já ouviu de tudo isto, mas com alguma descrença.

A árvore Theobroma cacao, cacau, ou" Alimento dos Deuses "é uma planta originária da América do Sul que é"nativa” ao continente  americano e “estrangeira” em África. Esta última variedade, pelos seus componentes taninos e  preço mais acessível tornou-se no produto mais solicitado pela indústria alimentar ocidental, transformando a Costa do Marfim (38% do mercado mundial), Gana (19%), Nigéria (5%) e Camarões (5%) nos maiores produtores mundiais de cacau.

Em nossa opinião, os chocolates e bombons Nestlé são feitos de verdadeiro sangue negro. Com efeito o sabor doce do chocolate faz-nos esquecer o gosto amargo do seu fabrico. Todavia se você manifesta um mínimo de preocupação pela Justiça e pela Dignidade Humana, se estes conceitos ainda não estão ultrapassados, não passe adiante e leia o que se segue.
Como se sabe, o chocolate é um produto alimentar doce fabricado à base de uma matéria-prima: o cacau. O continente africano produz 80% do cacau que, de imediato, se distribui pelo mundo inteiro sob a forma de bombons, tabletes ou em pó de chocolate para apaladar o leite das crianças.
Para nos inteirarmos do processo de fabrico temos que ir a uma pequena esquadra de policia de uma qualquer aldeola do Mali, na África Ocidental. Aí, os arquivos sobre crianças desaparecidas amontoam-se interminavelmente sobre as mesas e as estantes. O chefe da policia local não tem quaisquer dúvidas sobre o o local onde foram parar as crianças. “Efectivamente, lá existe escravatura”, disse referindo-se ao país vizinho, a Costa do Marfim. “Os meninos tem de trabalhar duramente de tal forma que muitos adoecem ou morrem.” 
As crianças pertencem às regiões mais pobres do Mali. São filhos e filhas de vendedores ambulantes ou habitantes de favelas, cujos país os vendem por 30 dólares.
As crianças trabalham cerca de 12 hora diárias, utilizam ferramentas perigosas e estão expostas à manipulação de pesticidas


Algumas crianças têm menos de 11 anos de idade. São consideradas, para todos os efeitos, como prisioneiras nas plantações e são espancadas se tentam escapar. À maioria faltam-lhes dedos porque são obrigadas a a trabalhar jornadas de 14 horas com ferramentas perigosas e manuseando produtos altamente tóxicos como pesticidas. Após cada dia de trabalho devem arrastar sacos de 70 quilos de sementes de cacau até aos armazéns das plantações (este peso tem incidências no respectivo crescimento e produz deformações na coluna vertebral;  na adolescência  estas crianças serão irremediavelmente aleijadas). Se se atrasam no labor diário são agredidas. É melhor não fazer perguntas sobre as meninas.
Pensa-se que pelo menos 15.000 crianças trabalham nestas condições  na Costa de Marfim, produzindo o cacau que abastece pelo menos metade da procura de chocolate a nível mundial. A maior empresa neste ramo agro-alimentar é a Nestlé.

A organização "Save the children" estabeleceu um centro de acolhimento na fronteira para aquelas crianças que podem escapar das plantações. Até à data permanece vazio. O seu director, Salia Kante, tem uma mensagem para os consumidores:
"As pessoas que tomam esse chocolate estão bebendo sangue. O sangue de crianças que têm de carregar sacos de cacau tão pesados que lhes laceram os ombros"
Será por essa razão que as embalagens dos produtos Nestlé são vermelhas?”

Segundo o ex-primeiro-ministro marfinense, Pascal Affi N'Guessan, as grandes empresas fabricantes de chocolate só estão interessadas nos seus próprios lucros. A Associação para a defesa dos Direitos Humanos ILRF está convencida de que a Nestlé conhece o fenómeno, porque periodicamente visita as plantações para averiguar a qualidade do produto

Mas não acabam aqui as canalhadas. Em 2002, a Nestlé exigiu à  Etiópia, um país esgotado pela fome, seis milhões de dólares (uma migalha para a  Nestlé, visto que representa apenas 0.0007% dos  seus dividendos) para compensar a nacionalização em 1975 de uma sua empresa pelo regime pró-marxista daquele país, dessa época.

Além disso, a multinacional suíça foi muito criticada, por promover o consumo de leite em pó  em detrimento do leite materno para alimentação dos bebés, especialmente nos países do Sul, onde a água potável acaba por ser um luxo e o leite em pó mistura-se amiúde com água contaminada.

E na América Latina?

O Departamento Administrativo de Segurança (DAS) colombiano interditou no passado dia 22 de Novembro no departamento de Quindío 8.094 pacotes de 25 quilos de leite em pó "caducados desde há muito" que estavam a ser reembalados e rotulados com datas de produção falsas.

O leite em referência destinava-se à Venezuela. A este respeito, assim se pronunciou  o senado venezuelano:
...[manifesta]
el más enfático repudio a esta maniobra tramposa  de la transnacional Nestlé, felonía que empieza por importar leche del extranjero a Colombia, a pesar de que ésta empobrece y empuja hacia la ruina a los ganaderos colombianos, sigue por hacerle fraude a un país en donde lleva décadas sacando multimillonarias utilidades y concluye atentando de manera gravísima contra la salud de nuestras gentes, y especialmente de los niños.

Seguindo na Colômbia, a organização SINTRAINAL denuncia que a Nestlé se apoia se  em grupos paramilitares para intimidar e atentar contra os trabalhadores e os sindicalistas que protestam contra as degradantes situações de trabalho.

segunda-feira, março 07, 2011


Importações chinesas são dilema para Dilma

Relativamente ao título supra, do “Diário de Notícias” de Lisboa, de hoje, transcrevemos a seguinte notícia:
A invasão dos produtos chineses é, segundo o Financial Times, um dos maiores dilemas políticos da Presidente do Brasil, Dilma Rousseff.

As fantasias de carnaval que os foliões usam nesta época no Brasil são, na sua maior parte, feitas com materiais oriundos da China. Uma situação que não se verificava, por exemplo, há dez ou 15 anos.
Os produtos chineses, mais baratos 40% do que os brasileiros, estão a inundar cada vez mais o mercado para consternação dos produtores nacionais.
Dilma Rousseff, empenhada em melhorar a situação dos empresários e produtores brasileiros, não consegue para já ter uma resposta política para a situação sem melindrar o grande gigante asiático.

Portugal na encruzilhada (Adenda)


O facto do PCP ir oportunisticamente juntar-se à manifestação de 12 de Março, numa tentativa grosseira e desonesta de aproveitamento politico, a lembrar Maio de 68 em França, em que tentaram ingloriamente fazer o mesmo, seria mais uma razão para eu não ir, se acaso estivesse em Portugal na data em questão.
Entendo que não devemos ir por 3 razões de fundo:
a)    Porque o quadro não está ainda suficientemente maduro para garantir uma mudança de regime ou nem sequer apresenta quaisquer sinais ténues nesse sentido;
b)    Porque se trata de uma manifestação de uma geração, portanto de um grupo social identificado e específico, e não da sociedade portuguesa no seu todo – por conseguinte, é uma manifestação circunscrita;
c)    Porque existem forças politicas que, contrariando a espontaneidade e genuinidade da manifestação, estão a ir “à boleia” do protesto popular, procurando capitalizar em proveito próprio o descontentamento do Povão 

Fico(amos) à espera de melhores dias, que, certamente, virão.

domingo, março 06, 2011

Portugal na Encruzilhada (4/4)



Vi o último, o derradeiro, creio eu, “Plano Inclinado”(quem não o viu, pode vê-lo no “You Tube” - http://www.youtube.com/watch?v=bC1jp3wjmt0&feature=player_embedded - ou na página própria da Sic – http://sic.sapo.pt/programasInformacao/scripts/videoplayer.aspx?ch=plano-inclinado&videoId={BCA83B97-92CF-49E2-8E1B-EB51B7928B09}

 Algumas conclusões e ensinamentos podem-se extrair deste programa e que serão guia seguro para as nossas análises e para o futuro. Assim:

 a)  Tem de haver um grau mínimo de honestidade na política, ou seja certas verdades têm de ser ditas doa a quem doer. É no fundo o discurso Churchilliano do “sangue, suor e lágrimas” – não ganha  votos, mas é imprescindível num momento de crise grave. Nesta encruzilhada, o povo chegou a um ponto tal, em que está farto de mentiras e aceita as verdades, por mais duras que elas sejam. Mentir é pior. Revela-se totalmente contraproducente. Resta convencer Sócrates desta evidência.
b) O sistema pode e deve ser alterado. É difícil, mas é possível. Esta classe política tem de ser erradicada de vez. À direita, ao centro e à esquerda, é uma gente gasta, irreciclável e sem possibilidade de recuperação.
c) Os actuais partidos políticos não servem (nenhum deles).
d) Os partidos mais à esquerda (comunista e bloco de esquerda) utilizam um discurso anacrónico e ultrapassado, típico do século XIX. Se os partidos da alternância(PS, PSD, CDS) não servem, os da esquerda servem ainda menos.
e) O conceito marxista do centralismo democrático curiosamente é, hoje, apanágio dos partidos ditos de direita.
f) A maçonaria está em toda a parte e domina a vida política lusitana (à maçonaria poderíamos acrescentar os lóbis que são uma realidade incontornável e perigosíssima, desde o lóbi gay, à Opus Dei e aos lóbis económico-financeiros).
g) Os períodos de ordem nas contas públicas, de gestão eficiente e honesta foram os períodos ditos ditatoriais (o que confirma as teses já expendidas, neste mesmo blogue).

Conclusão:
Atingimos uma encruzilhada a que o Poder político (leia-se, toda a classe política conhecida, sem excepções), que dispõe de pouca (ou nenhuma) credibilidade, é incapaz de responder. A questão principal é o próprio regime. É este que está em causa e sem qualquer possibilidade de redenção. Podemos afirmar que o ciclo se esgotou.

A situação económico-financeira do país é gravíssima. Ninguém quer que nos venham ditar ordens na nossa própria casa, mas ao mostrarmo-nos incapazes de nos governarmos, de que outra sorte estamos à espera? Se a vinda do FMI é inevitável, porque é que estamos continuamente a encanar a perna à rã? Se não é, porque é que não o assumem de uma forma clara e sem ambiguidades? Este tem-te-não-caias é que não interessa a ninguém.
 A situação social atingiu os limites do suportável e está perigosamente a descarrilar em todos os sentidos. O empobrecimento galopante da população é um facto indesmentível. Estão à espera de quê? Que os descamisados desçam à rua? Que se assalte as Tulherias?

Estes miseráveis tiraram-nos tudo, inclusive a esperança. 

O sentimento de revolta é grande e assume dimensões perigosas. Que tremam os que estão no poleiro e os que pensam em para lá ir!

Mas, pergunto eu e a propósito da Mega-manif:

Vamos desfilar a 12 de Março, à rasca com os rascas e excluindo os que não são nem uma coisa, nem outra? Porque diabo é que fazem disto uma cruzada de um grupo, de uma geração? Vamos para a rua, como pretendem alguns para, de uma forma inorgânica e anárquica protestar, por protestar; protestar, porque estamos fartos e já não aguentamos mais?

E qual é o resultado prático?
Pode redundar tudo em águas de bacalhau e de nada serviu andar a desfilar para as câmaras  da RTP, SIC e TVI, o que, bem feitas as contas, é o cenário mais provável. Passadas duas semanas, ninguém sequer se lembra do que se passou, se é que se vai passar algo de relevante.
Pode, porem, começar a fervilhar alguma coisa, mas que, ninguém se iluda, será rapidamente aproveitada por todos os oportunistas de meia-tijela de que o nosso país é pródigo.

Maio de 68 serviu para alguma coisa? Que eu saiba para nada.
Na Rússia de 1917 aí, sim, serviu, mas foram os bolsheviks organizados que  se aproveitaram a seu favor do descontentamento popular russo.

O que é que queremos outra vez um Conselho da Revolução fardado ou os anarcas ao Poder?
Enquanto as coisas não estiverem maduras; enquanto não se vislumbrar pelo menos um embrião de organização e enquanto não se debaterem, com um mínimo de consistência, algumas ideias, não vale a pena ir em futebóis, pelo contrário saem-nos as contas completamente furadas.

 Temos de o fazer. É bom que as consciências despertem. Mas a hora ainda não chegou. É preciso que esta merda apodreça ainda mais e que emirjam verdadeiras alternativas.
Infelizmente, ainda não estamos lá...