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terça-feira, março 29, 2011

Geração à Rasca (Mia Couto)

O escritor moçambicano Mia Couto, escreveu o texto que se segue que está a ter larga difusão na Net e que me chegou às mãos recentemente, faço-o acompanhar de um breve comentário anónimo, mas certeiro, creio que já publicado num blogue da Tugalândia que igualmente recebi.
Passo a transcrever:
“Um dia, isto tinha de acontecer.Existe uma geração à rasca?Existe mais do que uma! Certamente!Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numaabastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhesas agruras da vida.Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidarcom frustrações.A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e tambémestão) à rasca são os que mais tiveram tudo.Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infânciae na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seusjovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos. 

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, aminha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos)vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiramnos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem delesa geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhesderam uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais dediversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustívelcheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando asexpectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuoupresente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer omelhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantasvezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual nãohavia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenadocom que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes. 

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... Avaquinha emagreceu, feneceu, secou. 

Foi então que os pais ficaram à rasca.Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchemPavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas ondenão se entra à borla nem se consome fiado.Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuara pagar restaurante aos filhos, num país onde  uma festa deaniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada apais.São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água eda luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para queos filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade,nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração. 

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a terde dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, eque por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têmdireitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas,porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem,querem o que já ninguém lhes pode dar! 

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelomenos duas décadas. 

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito porescolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe naproporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com queo país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, poiscorrespondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidadeoperacional.Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar emsítio nenhum. Uma geração que tem acesso a  informação sem que issosignifique que é informada; uma geração dotada de trôpegascompetências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada pornão poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geraçãoque deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade quequeimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal adiferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do queeste, num tempo em que nem um nem outro abundam.Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundocomo mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como asfoi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco nãolhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir demontada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre odesespero alheio. 


Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade einteligência nesta geração?
Claro que há.
Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam noretrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, enem  são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, comotodos nós).Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamadospudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalhambem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultadosacadémicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromosque só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e,oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e asubir na vida. 

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dosnossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugaresa que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar noque ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecidae indevidamente?!!! 

Novos e velhos, todos estamos à rasca.Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firmeconvicção de que a culpa não é deles.A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nemfazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, ea sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.Haverá mais triste prova do nosso falhanço?Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, deuma generalização injusta.Pode ser que nada/ninguém seja assim.
 Mia Couto”


Comentários:

"Será que isto é assim?
NÃO, NÃO É ISTO MESMO!
Não estou minimamente de acordo. Não me parece que minimizar ou, mesmo, escamotear um problema real e pungente da nossa sociedade conduza aonde quer que seja. Haverá, certamente, muitos jovens da chamada geração à rasca, da qual não faço parte, diga-se de passagem (estou à rasca, como a maioria dos portugueses,  mas por outras razões), que se inscrevem no segmento dos privilegiados e que beneficiaram de todas as benesses e de todas as mordomias, mas a esmagadora maioria não. Todos sabemos que isso é verdade.
Quando mais de um quarto de milhão de pessoas de todas as idades e condições sociais vem para a rua berrar em incomensuráveis decibéis que está farta desta trampa e que está à rasca, bem pode meter Mia Couto o dedo da escrita no cú e chupá-lo para ver a que sabem as suas ideias e pregações de merda.
Mas porque carga de água é que um moçambicano nos vem pregar lições de moral? Ele que se preocupe com os problemas que tem na sua terra e que não são poucos do que vir hipocritamente com a sua croniqueta presunçosa  dar-nos conselhos, que dispensamos, como eles, moçambicanos, independentes que são, dispensam, certamente, os nossos.
O que a geração à rasca e todos os enrascados deste país - quase 10 milhões  de lusitanos de boa cêpa - querem é uma verdadeira mudança, mudar de sistema e de regime político, fazer a verdadeira revolução que ainda não chegou, pôr termo à corrupção, ao compadrio e ao nepotismo, acabar com a minha geração e com a seguinte que irresponsavelmente, isso, sim - reconheço-o, sem complexos -, conduziram o país ao poço sem fundo em que se encontra.
Queremos de facto outra coisa, queremos que a voz da cidadania se faça ouvir, que os sentimentos genuínos dos que sofrem se façam sentir, mas para tal não precisamos de lições de moral dos estrangeiros, ainda se tivessem algum dinheiro para acudir às nossas depauperadas bolsas, mas, como bem sabemos, no caso vertente, nem isso.     Então, calem-se, de vez. "

 Com uma ou outra ressalva, subscrevo quase na íntegra o comentário supra. 
Se o país está à rasca quem é que não está à rasca?

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domingo, março 27, 2011

Londres - Manif. contra os "cortes": 66 feridos e mais de 200 detidos


Ah, grande democracia britânica que dá sempre cartas a toda a gente! Na manif. de sábado, em Londres (anti-cuts rally), 250.000 pessoas (tantas como a dos à rascas em Portugal), que se saldou por 66 feridos e 214 detenções, foi interessante ver o "civismo" dos soberbos ingleses. Gostei de observar aquelas investidas contra os bancos e as companhias de seguros em que tudo se partia à paulada e à pedrada. Gostei de ver a passividade da polícia. Assim é que é, não há cães, nem cassetetes, nem carros de água, nem nada disso, é fartar vilanagem. Querem quebrar a loiça, pois que quebrem que o contribuinte paga!
Aqui, neste país periférico, pobre, endividado e desgraçadinho foi - e é - uma sensaboria: a manif. dos rascas e dos à rasca, com jovens, criancinhas de colo e velhinhos, não deu nada, apesar de ter estado para lá uma salada monumental (extrema-esquerda e extrema-direita, gajos que queriam a legalização da marijuana, maricada q.b., feministas, reformados à beira de um ataque de nervos, enfim de tudo um pouco...); depois a dos professores no mesmo dia (não se passou nada!); na semana a seguir, a da CGTP (nada houve!); tem havido greves numa base diária (nada a registar, excepto atrasos e outros pequenos inconvenientes). Somos, de facto, uns tristes, uns fadistas pindéricos. Devíamos era aprender com os ingleses. Que diabo, não temos tomates ou o que é isto? Então,  ninguém, mas mesmo ninguém partiu uma montrazinha sequer? Não há montras para escavacar? É por estas e por outras que não temos o verdadeiro espírito europeu. Os ingleses foi o que agora se viu. Os gregos estão fartos de fazer das suas e outro dia até iam queimando polícias vivos. Os franceses pintam a manta à menor coisinha. Não, os tugas são mesmo uns terceiro-mundistas. Não sabem fazer as coisas à europeia.
Dizia-me um inglês, meu amigo, a propósito da manif. de Londres: "That was an un-english atitude". Ao que lhe respondi: "No my friend,  correct me if I am wrong, it was very, very English-like".    

domingo, março 13, 2011

Protesto da "geração à rasca" num país rasca


Pelas notícias a que tive acesso, a mega-manif. terá sido um sucesso. Rima e aparentemente é verdade. Não terão estado 300.000 pessoas em todas as cidades do país, como afirmam os organizadores/motivadores/animadores, mas, sem dúvida alguma, muitas dezenas de milhares de manifestantes, sobretudo em Lisboa e Porto – a este respeito, as fotos e os vídeos são eloquentes. Pelos relatos que me chegaram, terão estado umas 60 a 70.000 pessoas em Lisboa e umas 30 a 40.000 no Porto, o que bem feitas as contas, sem exageros, é muito bom, excedendo largamente as expectativas inicias, mesmo as mais optimistas.
De acordo com as notícias que me chegam, a  manif. possuiu duas outras características importantes e que contrariam algumas das minhas teses anteriormente expostas (reconheço-o, sem complexos, não me chamo José Sócrates Pinto de Sousa, nem sou político): (i) foi intergeneracional; (ii) a temida “colagem” dos partidos e das forças politicas não terá resultado inteiramente (mas há que acautelar o futuro e, nesta matéria, os perigos são mais que muitos).
Com efeito disse, aqui, mesmo, neste blogue, que se tratava “de uma manifestação de uma geração, portanto de um grupo social identificado e específico, e não da sociedade portuguesa no seu todo – por conseguinte, era uma manifestação circunscrita”. Não bem foi assim, na medida em que a participação se revelou mais abrangente do que se pensava, todavia o grosso da coluna foi constituído pelos jovens da dita “geração à rasca.” Essa participação inclusiva de outros sectores da nossa sociedade explica-se, creio eu, principalmente pelo cansaço, pelo desencanto e pela irritação e pelo sentimento revolta permanente em que vivemos todos. Como escrevi em post anterior e esta asserção afigura-se-me bem verdadeira: Vivemos num país rasca e em que quase todos vivem à rasca. Esta é que é a verdade dos factos e todos nós sabemos disso.”
Foi, pois, esta a razão primordial para várias gerações se terem congregado  nas praças das nossas principais cidades numa rejeição unânime da situação em que vivemos e da classe política que a tal nos conduziu.
Outros factores terão contribuído para essa participação expressiva de vários sectores e gerações da sociedade portuguesa: antes do mais, o desastrado e surpreendente anúncio de mais medidas de austeridade na véspera, i.e. na 6ª feira de manhã, o que terá induzido uma dinâmica de mobilização acrescida sobretudo por parte das geralções menos jovens; a solidariedade com os jovens, a curiosidade e a novidade do fenómeno, a ânsia de mudança e a divulgação enorme que a manif. beneficiou nos meios de comunicação electrónicos e convencionais (no fundo factores que, de um modo ou de outro, acabam por estar inscritos na razão principal  ou que dela derivam).
Pena foi que os organizadores/motivadores/animadores tivessem definido a manif. como o fizeram. Se a tivessem aberto, à partida, irrestritamente, à participação de toda a sociedade, não teriam surgido as dúvidas que surgiram e que o Facebook e outros meios deram eco, porque eram as dúvidas de muito boa gente, incluindo o autor destas linhas. É certo que a “geração à rasca” era o sector-alvo, mas, repito-o, mais uma vez, é todo um pais rasca que está e continua a estar à rasca.
Por outro lado, a “colagem” dos partidos e de certas figuras e forças politicas foi tentada. Foi, de certo modo, detectável (ou seja, visível e audível, ma non troppo), sem embargo houve o bom senso (excepto no pequeno grupo da extrema-direita), de não aparecerem com as bandeiras e as palavras de ordem dos mandatários da partidocracia. Ainda bem. Também aqui me enganei. Dou a mão à palmatória. Resta saber qual será o aproveitamento político posterior deste imenso descontentamento popular, sabendo-se que PCP, BE, extrema-direita, Presidente da República e mesmo alguns sectores dos principais partidos, directa ou indirectamente,  apoiaram o comício.

Resta adivinhar-se o que se segue. Em post anterior referimos, com a devida ênfase o seguinte: “Atingimos uma encruzilhada a que o Poder político (leia-se, toda a classe política conhecida, sem excepções), que dispõe de pouca (ou nenhuma) credibilidade, é incapaz de responder. A questão principal é o próprio regime. É este que está em causa e sem qualquer possibilidade de redenção.”
Se o movimento se esgotou em 12 de Março, para pouco ou nada serviu e daqui a meia-dúzia de dias ninguém se lembrará do que se passou (aliás, o próprio Governo está muito mais preocupado com a greve das empresas de camionagem do que com a “geração à rasca”). Se, pelo contrário, o movimento pretende avançar por novas vias e por novas formas de luta, tem de organizar-se e preparar-se para o combate no terreno (protestar por protestar, já se ouviu, mas não chega). Ora, como o dissemos, isto pode ser o fervilhar, o cozinhar em lume brando de uma nova situação, mas por esta via atabalhoada e meio-anárquica não se chega lá. Alem disso, os oportunistas de meia-tijela vão tentar tirar o maior proveito possível da situação. Existem riscos sérios se nos armamos em aprendizes de feiticeiros.
Quanto aos Sábios governantes que temos, o  aviso à navegação está dado. Desconhece-se em rigor o que é que o poder político conta fazer. Provavelmente coisa alguma. Como já é habitual, espera que a tempestade passe e depois logo se vê. Mas também as coisas podem evoluir de modo diverso. 
Os passos seguintes podem consistir (o elenco de acções é meramente indicativo):
num movimento estruturado de contestação ao regime 
-    na moralização da vida política;
-       no combate à corrupção, ao nepotismo, ao clientelismo, ao poder dos lóbis;
-       no fim do despesismo do Estado, no seu emagrecimento consequente e na sua gestão rigorosa;
-       na redução drástica do sector empresarial do Estado
-       no termo definitivo dos políticos-gestores
-       na participação dos movimentos cívicos e das organizações de base no processo político
-       no fim da partidocracia, como a conhecemos;
-       na responsabilização dos deputados e de todos os corpos eleitos perante o eleitorado nacional e local (p. ex., ninguém poderá representar Viana do Castelo no parlamento e não ser responsável perante os vianenses);
-       na meritocracia, provida de regras transparentes e consequentes;
-       na criação de um grande movimento popular que congregue todas estas acções e outras tidas por adequadas, visando implantar a III República.

segunda-feira, março 07, 2011


Portugal na encruzilhada (Adenda)


O facto do PCP ir oportunisticamente juntar-se à manifestação de 12 de Março, numa tentativa grosseira e desonesta de aproveitamento politico, a lembrar Maio de 68 em França, em que tentaram ingloriamente fazer o mesmo, seria mais uma razão para eu não ir, se acaso estivesse em Portugal na data em questão.
Entendo que não devemos ir por 3 razões de fundo:
a)    Porque o quadro não está ainda suficientemente maduro para garantir uma mudança de regime ou nem sequer apresenta quaisquer sinais ténues nesse sentido;
b)    Porque se trata de uma manifestação de uma geração, portanto de um grupo social identificado e específico, e não da sociedade portuguesa no seu todo – por conseguinte, é uma manifestação circunscrita;
c)    Porque existem forças politicas que, contrariando a espontaneidade e genuinidade da manifestação, estão a ir “à boleia” do protesto popular, procurando capitalizar em proveito próprio o descontentamento do Povão 

Fico(amos) à espera de melhores dias, que, certamente, virão.

domingo, março 06, 2011

Portugal na Encruzilhada (4/4)



Vi o último, o derradeiro, creio eu, “Plano Inclinado”(quem não o viu, pode vê-lo no “You Tube” - http://www.youtube.com/watch?v=bC1jp3wjmt0&feature=player_embedded - ou na página própria da Sic – http://sic.sapo.pt/programasInformacao/scripts/videoplayer.aspx?ch=plano-inclinado&videoId={BCA83B97-92CF-49E2-8E1B-EB51B7928B09}

 Algumas conclusões e ensinamentos podem-se extrair deste programa e que serão guia seguro para as nossas análises e para o futuro. Assim:

 a)  Tem de haver um grau mínimo de honestidade na política, ou seja certas verdades têm de ser ditas doa a quem doer. É no fundo o discurso Churchilliano do “sangue, suor e lágrimas” – não ganha  votos, mas é imprescindível num momento de crise grave. Nesta encruzilhada, o povo chegou a um ponto tal, em que está farto de mentiras e aceita as verdades, por mais duras que elas sejam. Mentir é pior. Revela-se totalmente contraproducente. Resta convencer Sócrates desta evidência.
b) O sistema pode e deve ser alterado. É difícil, mas é possível. Esta classe política tem de ser erradicada de vez. À direita, ao centro e à esquerda, é uma gente gasta, irreciclável e sem possibilidade de recuperação.
c) Os actuais partidos políticos não servem (nenhum deles).
d) Os partidos mais à esquerda (comunista e bloco de esquerda) utilizam um discurso anacrónico e ultrapassado, típico do século XIX. Se os partidos da alternância(PS, PSD, CDS) não servem, os da esquerda servem ainda menos.
e) O conceito marxista do centralismo democrático curiosamente é, hoje, apanágio dos partidos ditos de direita.
f) A maçonaria está em toda a parte e domina a vida política lusitana (à maçonaria poderíamos acrescentar os lóbis que são uma realidade incontornável e perigosíssima, desde o lóbi gay, à Opus Dei e aos lóbis económico-financeiros).
g) Os períodos de ordem nas contas públicas, de gestão eficiente e honesta foram os períodos ditos ditatoriais (o que confirma as teses já expendidas, neste mesmo blogue).

Conclusão:
Atingimos uma encruzilhada a que o Poder político (leia-se, toda a classe política conhecida, sem excepções), que dispõe de pouca (ou nenhuma) credibilidade, é incapaz de responder. A questão principal é o próprio regime. É este que está em causa e sem qualquer possibilidade de redenção. Podemos afirmar que o ciclo se esgotou.

A situação económico-financeira do país é gravíssima. Ninguém quer que nos venham ditar ordens na nossa própria casa, mas ao mostrarmo-nos incapazes de nos governarmos, de que outra sorte estamos à espera? Se a vinda do FMI é inevitável, porque é que estamos continuamente a encanar a perna à rã? Se não é, porque é que não o assumem de uma forma clara e sem ambiguidades? Este tem-te-não-caias é que não interessa a ninguém.
 A situação social atingiu os limites do suportável e está perigosamente a descarrilar em todos os sentidos. O empobrecimento galopante da população é um facto indesmentível. Estão à espera de quê? Que os descamisados desçam à rua? Que se assalte as Tulherias?

Estes miseráveis tiraram-nos tudo, inclusive a esperança. 

O sentimento de revolta é grande e assume dimensões perigosas. Que tremam os que estão no poleiro e os que pensam em para lá ir!

Mas, pergunto eu e a propósito da Mega-manif:

Vamos desfilar a 12 de Março, à rasca com os rascas e excluindo os que não são nem uma coisa, nem outra? Porque diabo é que fazem disto uma cruzada de um grupo, de uma geração? Vamos para a rua, como pretendem alguns para, de uma forma inorgânica e anárquica protestar, por protestar; protestar, porque estamos fartos e já não aguentamos mais?

E qual é o resultado prático?
Pode redundar tudo em águas de bacalhau e de nada serviu andar a desfilar para as câmaras  da RTP, SIC e TVI, o que, bem feitas as contas, é o cenário mais provável. Passadas duas semanas, ninguém sequer se lembra do que se passou, se é que se vai passar algo de relevante.
Pode, porem, começar a fervilhar alguma coisa, mas que, ninguém se iluda, será rapidamente aproveitada por todos os oportunistas de meia-tijela de que o nosso país é pródigo.

Maio de 68 serviu para alguma coisa? Que eu saiba para nada.
Na Rússia de 1917 aí, sim, serviu, mas foram os bolsheviks organizados que  se aproveitaram a seu favor do descontentamento popular russo.

O que é que queremos outra vez um Conselho da Revolução fardado ou os anarcas ao Poder?
Enquanto as coisas não estiverem maduras; enquanto não se vislumbrar pelo menos um embrião de organização e enquanto não se debaterem, com um mínimo de consistência, algumas ideias, não vale a pena ir em futebóis, pelo contrário saem-nos as contas completamente furadas.

 Temos de o fazer. É bom que as consciências despertem. Mas a hora ainda não chegou. É preciso que esta merda apodreça ainda mais e que emirjam verdadeiras alternativas.
Infelizmente, ainda não estamos lá...

sexta-feira, março 04, 2011

Portugal na encruzilhada (2/4)



Durante anos e anos, os nossos dirigentes, a classe política e, no geral, as chamadas elites nacionais, deliberada e acintosamente  escamotearam-nos os factos porque não lhes interessava que a verdade emergisse porquanto contrariava frontalmente as suas teses,  criando-se, então, um conjunto de mitos descabelados, inconsistentes e imbecis, para justificarem o seu pensamento e as suas acções. Em suma, mentiram-nos.
À semelhança de outros, desde os bancos da faculdade e, em especial, no período pós-abrilino, deparei com artigos de jornais e de revistas, já antigos, com dados estatísticos e gráficos que contrariavam o pensamento dominante. Jovens economistas, historiadores e outros estudiosos, em conversa amena, levantaram-me uma ponta do véu, mas à época tudo isto era politicamente incorrecto (leia-se: altamente incorrecto, um verdadeiro anátema em relação ao pensamento assumido do mainstream dominante). Vivia-se, primeiro, a euforia dos 3 D’s (“democratizar, descolonizar, desenvolver”), depois os fundos de pré-adesão e de adesão à então C.E.E., a política do betão, em seguida a Expo-98, a entrada no Euro, os governos alegadamente dialogantes “à la escandinava”  e por aí fora. Era, pois, uma heresia extrair a conclusão óbvia desses dados.
Por outras palavras, em termos de produtividade, riqueza e endividamento assistiu-se:
- a um crescimento ténue mas constante de 1880-1910
- a um caos total, em termos de indicadores de riqueza, que nos fez recuar 30 anos, de 1910-1926 (I República)
- a um maior período de convergência com a Europa nos últimos 200 anos, de 1926 a 1974 (salazarismo-caetanismo)
- finalmente, se tivermos em conta as projecções até 2015, a fase que se avizinha,  consistirá num período de divergência em que estaremos em termos relativos face à U.E. numa situação bem pior que a de 1974.

Para que as coisas se tornem claras, não sou um defensor de ditaduras, e apenas admiro Salazar, como figura histórica, nos exactos termos dos seus êxitos e dos seus malogros, dos seus méritos e dos seus defeitos, num período perfeitamente balizado no tempo e no da nossa memoria colectiva, mas os dados referenciados, fazem-me pensar se, com efeito,  somos uma sociedade suficientemente madura para termos uma democracia nos moldes actuais.

Já agora para que não subsistam dúvidas por parte de quem me lê, consultem-se as seguintes páginas Web:
·      “Infografia: 100 anos de finanças públicas” (http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=447085)
·      “Evolução do PIB per capita na Europa – 1926-1974” (http://pedroarrojagrupofinanceiro.blogspot.com/2009/01/evoluo-do-pib-per-capita-na-europa-1926.html)

·      “Metade dos portugueses acha que o país está pior que antes do 25 de Abril” (http://aeiou.expresso.pt/metade-dos-portugueses-acha-que-o-pais-esta-pior-que-antes-do-25-de-abril=f626638)

·      “Razões para a censura” (http://desmitos.blogspot.com/2011/02/razoes-para-censura.html)
Portugal na encruzilhada (1/4)


Raras vezes menciono a política interna do rectângulo. Hoje é um desses dias e mais se seguirão, porque o tema é obsessivo, omnipresente e angustiante. Sim, fujo deliberadamente aos temas e objectivos anunciados deste blogue, mas não me posso calar. Não sou demagogo e o populismo arrepia-me. Porém, não tenho medo. Nunca tive. Chegámos ao ponto zero da política, ao nadir da esperança, ao fundo do poço sem água da nossa existência. Com esta gente não vamos lá. Com estes governantes não nos safamos. Com este bando de malfeitores o nosso destino é a merda, a merda pura e sem subterfúgios, a merda abrangente, putrefacta e cada vez mais abundante que caracteriza este país.  Produto de exportação que fabricamos facilmente e em quantidade mas que, como é óbvio, ninguém compra.
Fomos iludidos, ludibriados, traídos por este governo e por todos os que o precederam,  desde o 25 de Abril. Todos sabemos disso. Só que poucos se atrevem a dizer o que lhes vai na alma e não se atrevem a aventar soluções para sairmos do atoleiro. À boa maneira lusitana, resmungamos passivamente em voz baixa, de modo desorganizado e tonto, sem objectivos e sem “élan” vital. Nada, mas nada,  nos faz escapar deste estado geral de carneirismo ou de bovinidade em que vegetamos. Dizem que somos sonhadores, pouco realistas e pouco activos. Creio que não. Gostamos é de ser escravos. Vivemos bem com o chicote. Numa palavra, cantamos à meia-luz mais um faduncho da “desgraçadinha”, em que “ilusão” rima com “resignação”. 
Basta olharmos à nossa volta: na Grécia por falcatruas e aldrabices, que levaram o actual governo a apertar a tarracha até aos limites do suportável, o Povo já desceu à rua várias vezes para pintar a manta; em França, ao passar-se a idade da reforma dos 60 para os 62 anos, vai daí e parte-se a loiça. Em Portugal, timidamente não se faz nada ou quase nada e o pouquíssimo, que, às vezes, se chega a fazer, é quase sempre a pedir desculpa, envergonhadinhos e tristonhos – “Bom, tudo isto é uma maçada. Desculpem lá o mau jeito, mas tivemos de dizer alguma coisinha. Nós nem queremos fazer mal a ninguém”.
Temos de preconizar uma ruptura total, definitiva, imediata, já, um imperativo corte com o passado próximo.
Todavia, esse cesura não é seguramente a 12 de Março que a vamos concretizar. É apenas uma geração que se diz à rasca ou um país que vive há décadas à rasca e que não quer viver à rasca? Passámos da geração rasca para a geração à rasca e tudo isto se circunscreve a um problema geracional e de rasquice?
Não. Vivemos num país rasca e em que quase todos vivem à rasca. Esta é que é a verdade dos factos e todos nós sabemos disso. 

sábado, janeiro 22, 2011


Pré-crise, crise e pós-crise

A crise económica e financeira global com que o mundo se confronta de há dois anos a esta parte marca o fim da ordem planetária estabelecida desde 1945. Em 1989, o “pilar soviético” colapsou e agora assistimos à decomposição acelerada do “pilar occidental” com os Estados Unidos bem no núcleo central do processo de desintegração e a Europa já numa fase adiantada do mesmo, condenada que foi à marginalização e à irrelevância, há algum tempo, em grande parte por culpa própria e em parte também por culpa alheia.
Durante duas décadas vivemos o mito do alegado “fim da história”, em que os nossos ideário, cultura e civilização ocidentais seriam impostos à escala universal. Essa quimera, inventada por Francis Fukuyama, foi-nos extremamente prejudicial porque nos levou por caminhos ínvios e, sobretudo, à convicção de que essa fantasia era uma verdade absoluta e irrefutável. Com  efeito, seria quase impossível imaginar  um “mundo pós-crise” cujas tendências não fossem definidas em Washington ou em Wall Street,  que o adjectivo “anglo-americano” não fosse sinónimo de  “moderno” ou  que o dólar não fosse senhor e rei.
Tal como na Europa Oriental, antes de 1989 – a situação actual não difere  da verificada nessa altura e nesse espaço - , nem os nossos meios de comunicação social, nem os nosso líderes políticos foram capazes de nos “fazer imaginar o inimaginável”, porque estão demasiado concentrados no curto prazo, demasiado preocupados em fazer-nos “esquecer o inesquecível”, designadamente as consequências sócio-económicas da crise através do mundo e, antes do mais, dentro das nossas próprias fronteiras. Esta rejeição da futurologia, mesmo a mais evidente, esta falta de antecipação, esta incapacidade real de previsão da nossa débil liderança e das nossas elites decadentes e provincianas, impede-nos lamentavelmente de ver o que nos espera no horizonte não muito longínquo de 2020. A verdade é que ninguém se preocupou com o longo prazo, nem sequer com o médio.
         Que conflitos é que o “mundo pós-crise” nos reserva? Como é que nos devemos preparar para as turbulências monetárias e económicas dos próximos anos? Como é que podemos adaptar-nos à nova situação como europeus ou como norte-americanos? Antes do mais, como vamos interagir com os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) e as demais potências emergentes? Quais serão as novas regras do jogo? Que dificuldades e obstáculos se deparam a esses países na sua ascensão à primeira linha? Como é que os  nossos filhos e netos se vão posicionar para enfrentar os desafios do “mundo pós-crise”, como cidadãos e como profissionais?
Estas são algumas das muitas perguntas que podemos e devemos formular aos nossos dirigentes, intelligentsia e media porque requerem reflexão e, consequentemente, acção, quer a nível individual, quer colectivo. Porque a presente crise económico-financeira, política, cultural  e de valores morais, que estamos a viver, consiste não só no termo definitivo de um “mundo pré-crise”, mas, principalmente, o dealbar da construção de um “mundo pós-crise”, por conseguinte uma baliza histórica, que se situa, grosso modo, entre 2010 e 2014, para dar lugar a uma nova situação, a partir de 2015. Consequentemente, o período de transição em que nos encontramos corresponde a uma fase terminal, na perspectiva do advento da nova era que se lhe seguirá. Temos de ter pistas e orientações para seguir em frente e não podemos cometer demasiados erros, temos igualmente de enfrentar os desafios e de não desperdiçar as oportunidades que se nos apresentam.

terça-feira, novembro 23, 2010


Quo vadis Portugal? (parte V de muitas e  tantas partes que já lhes perdi a conta)




De/acerca da grande crise de globalização do capitalismo 2/2 (Europa e Portugal)
            Para além de ter deixado de ser um centro decisório do poder financeiro e de ter posto fim (ou quase) ao “sonho europeu” (portanto, ao Estado social), a Europa deixou-se dominar pelo ideário dominante alemão em matéria económico-financeira que aliado ao neo-liberalismo introduziu um conjunto de elementos novos e perniciosos com os quais os europeus têm hoje de viver.
            A crise que enfrentamos desde 2007-2008 (com efeito, podemos situá-la antes do meltdown, em que este é apenas uma consequência do que estava já a ser cozinhado a lume brando) é, sem dúvida alguma, uma crise mundial derivada da globalização do capitalismo. Todavia, como já o referimos em post anterior, a crise traduziu-se para a Europa no fim do modelo social, que, a bem dizer, constituiu uma excepção invulgar, uma verdadeira raridade, em toda a História da Humanidade. Registe-se que o modelo foi engendrado num momento anterior, mas depois verdadeiramente criado e aperfeiçoado no decurso das trente glorieuses, ou seja, o Estado Social só foi possível, com base num crescimento consistente da economia a 5% ao ano, como ocorreu no decurso desse período. Esse crescimento, indispensável para a vida do projecto europeu, é posto em causa, essencialmente, pela globalização. A Europa não cresce, ou quando  cresce fá-lo de forma timorata, o resto do mundo (leia-se as grandes e médias economias emergentes) sim. Logo, a Europa tem de se adaptar porque os dados da equação são irreversíveis. Outros factores entrariam em linha de conta, como o demográfico, os fluxos migratórios, a própria cultura, etc.
            A globalização é sempre apresentada acrítica e acefalamente como um bem, muito embora ninguém saiba explicar porquê ou a explicação é claramente insuficiente. Raros põem em causa o fenómeno da globalização. E quem o faz é acusado de conservadorismo, de proteccionismo e de outros “ismos”, menos simpáticos. O que interessa é comércio e mais comércio, fronteiras abertas, sem entraves alfandegários ou de qualquer outra natureza. Isso é que é bom. O desenvolvimento assenta, no essencial, nisto. “Free trade” era - e é - a palavra de ordem, poucos falavam em “fair trade”. O Bangla Desh, por exemplo, precisava de se desenvolver, pouco importava que as criancinhas andassem a dar pontapés nas máquinas 18 horas por dia, que não se respeitassem os direitos humanos, as regras da OIT, as questões basilares de higiene e de saúde pública ou qualquer regra minimalista de protecção social. Free trade? Free trade, my eye! O sentimento geral – que ainda hoje predomina – e que era a chave do progresso da humanidade resumia-se numa só palavra utilizável em todos os contextos imaginávdeis:  desregulamentação. Quem advertia para os riscos de tudo isto era de imediato acusado de “profeta da desgraça” e de “reaccionário” (no sentido que deram ao termo).
            Entretanto, a Europa cria mais um mito que não  resolve nada, nem prova coisa alguma: o Euro. Trata-se de uma moeda baseada no marco alemão e que segue exactamente os mesmos critérios. Logo, a Europa tinha de submeter-se ao diktat germânico, até porque sem a Alemanha não haveria Euro (verdade de La Palice). Todos teriam de seguir os chamados critérios de convergência, através dos Pactos de Estabilidade e Crescimento. Tudo isto cozinhado em Berlim ou em Frankfurt, sem quaisquer temperos de fora, porque podiam ser gastronomicamente incorrectos. Seria o Euro necessário? Mais um mito. Era necessário, ninguém sabia explicar porquê, esgrimindo-se apenas o estafado argumento da unidade e coesão europeias, de utilização, no contexto em apreço, mais do que duvidosa. Misturavam-se alhos com bugalhos. Mas era assim e ninguém contestava. 
            Com a adopção do Euro, voluntariamente, vários países europeus abandonavam uma parcela importante da sua soberania para a entregarem de mão beijada à Alemanha.
            Esta sentiu-se, muito naturalmente, dona e senhora da situação, mas debatendo-se, porém, com dois problemas graves e interligados: (i) uma questão de constitucionalidade (o Tribunal Constitucional germânico levantou, como se sabe fundadas dúvidas quanto à ratificação do Tratado de Lisboa e a uma maior integração europeia, mais o TL traçaria, no fundo, a fronteira em matéria de união europeia, não se podendo avançar nem mais um milímetro) e (ii) uma opinião pública hostil, porque a Alemanha não está para pagar com os seus impostos o alegado regabofe dos outros.
Entretanto, por efeito da crise, por pura irresponsabilidade ou por ambos os factores, alguns governos deixaram derrapar as respectivas contas  públicas atingindo patamares insustentáveis. Resumindo telegraficamente: a Grécia por aldrabice na contabilidade e por endividamento excessivo; a Irlanda por disfunções graves e sistémicas da banca, aliadas a uma “bolha” imobiliária de grandes proporções; a Espanha, por desemprego galopante, crescimento anémico e também “bolha” imobiliária e Portugal por endividamento público incontrolado, crescimento mais do que anémico e todos os outros factores conhecidos que de uma maneira ou de outra acabam por pesar na balança.
Para os investidores e para as agências de “rating”, apesar das diferenças, todos os PIGS estão mal. É igual ao litro. Logo, muito democraticamente tratam-se todos, mais ou menos,  por igual, o que é uma simplificação abusiva e injusta, mas não se pode fugir a isto.
Depois a Alemanha quis assustar o pagode, dizendo que os investidores tinham de ser responsabilizados e tinham de pagar a crise. A ideia, por ora, não vingou, mas fará  o seu caminho, até porque Merkel falou para o eleitorado alemão e não para a plateia mundial.
A machadada final ao Euro não será dada por nenhum dos leitõezinhos, obrigados a sair da pocilga, mas pela própria Alemanha que presumivelmente vai decidir ela própria, a prazo, abandonar o barco. Em termos estratégicos, para Berlim fará mas sentido uma aliança mais a Leste do que esta para o Ocidente e para o Sul.
A ver vamos.
Para Portugal, teríamos ficado melhor fora do Euro? Talvez. Pelo menos podíamos manipular a moeda e ser mais competitivos. Mas na História os “ses” não têm lugar. As coisas são como são, não há volta a dar-lhe.
Muitos temas ficaram por tratar e mais ainda por esclarecer.     
Voltaremos ao assunto. 


sábado, novembro 20, 2010

Quo vadis Portugal? (parte IV de muitas variadas, interessantes e conturbadas partes)



De/acerca da grande crise de globalização do capitalismo 1/2 

J. A. Saraiva não se refere ao meltdown (ou seja, à fusão) de 2008 provocada pela crise do subprime. Presumivelmente, subentende-a por ser tão evidente e notória. Mas convinha que a questão fosse minimamente explicada, quer em termos do que sucedeu imediatamente nos mercados – a “grande turbulência” - , quer, principalmente em termos de futuro, a médio e longo prazos.  Por outro lado, haveria que sopesar o respectivo impacto em Portugal. Um tema de grande relevância  que os analistas, especialmente os “caseiros”, nunca abordaram de uma forma séria e consequente.
Uma das  questões pertinentes que  se levantam é o de saber a duração da crise que, sem prejuízo das medidas tomadas acto contínuo pelos EUA, pela Europa e pelo resto do mundo, parece estar para ficar, ou antes que os seus efeitos são mais duradouros do que parecia à primeira vista. É preciso não  nos esquecermos que quando do “krach” de 1929, a recuperação total só se deu em 1954 (25 anos depois de ter eclodido e  9 anos após o termo da II Guerra Mundial).
No combate ao meltdown uns são salvos e outros não, sem se atinarem com as razões para uma tal discriminação. Não se podia acudir a todos os focos de incêndio? Com certeza que não. Mas porque deixaram afundar a Lehman Brothers? Por ser um banco de investimento? Porque vendia produtos  financeiros tóxicos? Então os outros não o faziam? Porque foram vendidos ao desbarato o Bear Stearns e o Merrill Lynch? Porque é que  bancos de investimento como o Goldman Sachs e o Morgan Stanley (friso bem de investimento) passaram a bancos comerciais? E Fannie Mae e Freddie Mac que não estouram com o rebentar da bolha imobiliária (bom, se estourassem, a América entraria em colapso) e são salvos in extremis pelo Governo Federal (até porque dependiam de Washington)?
Depois, bom, depois surge o magno problema da previsibilidade da crise ou sua imprevisibilidade, tanto faz. Esses sábios das agências de rating não previram nada, mesmo nada? Mas espantem-se, ó gentes,  continuavam, com ameaça de crise, com crise ou sem ela, a dar classificações de 3 AA a títulos de lixo, a produtos tóxicos e às instituições que os emitiam? Questionados diziam: “Bom, estávamos apenas a emitir uma opinião. Cada um é livre de a seguir ou não”. Por outras palavras, limpavam as mãos como Pôncio Pilatos. É bom ver o filme “Inside Job” de Charles Ferguson, soberbamente narrado por Matt Damon para nos darmos conta destas enormidades todas.
            Acresce que existem fortes indícios de que as agências de rating estavam conluiadas com algumas grandes instituições financeiras e que faziam as suas notações ao gosto do freguês para que este pudesse vender melhor o “lixo” acumulado (CDOs e CDSs). Fatos à medida do cliente, pois então.
O que se percebe no meio desta embrulhada monumental, virtualmente indecifrável é que, em suma, todos os esquemas mafiosos foram possíveis, todas as Donas Brancas emergiram do nada, a corrupção e o conluio promíscuo entre o grande capital, o governo e as universidades foi de tal forma escandaloso que ultrapassou em muito o conceito comum de obscenidade.
Mas, na ânsia de tudo, desregulamentar, de acabar com todas as barreiras legais, com toda e qualquer interferência estatal,  acabaram por deixar andar tudo á solta – a balda mais completa e desbragada - e o resultado viu-se. O Estado tinha e tem de intervir para pôr ordem na casa. Era e é essa a sua função: árbitro e polícia. Essa gente não é, nem nunca foi, de confiança e tem de ter a rédea curta. É público e notório   que muitos ganharam, individualmente (friso bem)  centenas de milhões com a crise, mas muitos mais ficaram na miséria. O Estado não pode nunca demitir-se das suas funções e assobiar para o lado como se nada fosse.
Podemos argumentar - e com razão - que o Estado não deve fazer voar aviões, andar os comboios ou administrar os hospitais, mas tem de deter sempre um poder interventório, através dos bancos centrais (para isso é que eles existem), na banca e actividades relacionadas. A legislação tem de se restringir ao indispensável, mas deve primar pela clareza, energia,  poder de decisão e  controlo efectivo das actividades bancárias.
O futebol, ou qualquer outro desporto de equipa, tem as suas regras, que até se podem alterar com o tempo e com a experiência adquirida,  os seus árbitros ou juízes da partida que as aplicam e as federações que tudo supervisionam. Que eu saiba, não se joga no tudo ao molhe e fé em Deus. Na banca, por maioria de razão – trata-se de uma actividade hiper-sensível e que afecta  toda a sociedade -, têm de se aplicar critérios em tudo semelhantes.
E o que é que o Estado tem de regulamentar?
(i)            o sistema bancário;
(ii)           os produtos de investimento propriamente ditos;
(iii)         as bonificações dos quadros dirigentes das instituições financeiras.
            É claro que a crise extravasou, disparou em todos os sentidos e tornou-se mundial. Por exemplo, quando a Lehman Brothers vai à falência, encerra os seus escritórios em todo o mundo (Londres, Madrid, Singapura, Hong Kong, etc.)  e arrasta a queda de n outras instituições, à escala planetária, porque vivemos numa economia globalizada. Logo, o meltdown de 2008 é justamente uma crise da economia capitalista globalizada e surge, essencialmente, pela ganância desmedida (que de tão evidente carece de demonstração) que aumentava em progressão geométrica e pela falta de regulamentação, já referenciada.
            Mas, sem embargo de todos os considerando que precedem,  a crise, principalmente para a Europa, tem duas consequências graves:
-       Em primeiro lugar, o nosso continente deixa definitivamente de  ser um centro decisório de poder financeiro, marginaliza-se, permitindo que outros (as economias emergentes, designadamente os BRICs) ocupem o seu lugar;
-       Em segundo lugar, põe, na prática, termo ao Estado Social que levou 30 e tal anos a construir e no qual baseou o “sonho (projecto) europeu”.
As coisas jamais voltarão a ser o que eram.
Voltaremos ao assunto.