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segunda-feira, março 07, 2011


Portugal na encruzilhada (Adenda)


O facto do PCP ir oportunisticamente juntar-se à manifestação de 12 de Março, numa tentativa grosseira e desonesta de aproveitamento politico, a lembrar Maio de 68 em França, em que tentaram ingloriamente fazer o mesmo, seria mais uma razão para eu não ir, se acaso estivesse em Portugal na data em questão.
Entendo que não devemos ir por 3 razões de fundo:
a)    Porque o quadro não está ainda suficientemente maduro para garantir uma mudança de regime ou nem sequer apresenta quaisquer sinais ténues nesse sentido;
b)    Porque se trata de uma manifestação de uma geração, portanto de um grupo social identificado e específico, e não da sociedade portuguesa no seu todo – por conseguinte, é uma manifestação circunscrita;
c)    Porque existem forças politicas que, contrariando a espontaneidade e genuinidade da manifestação, estão a ir “à boleia” do protesto popular, procurando capitalizar em proveito próprio o descontentamento do Povão 

Fico(amos) à espera de melhores dias, que, certamente, virão.

domingo, março 06, 2011

Portugal na Encruzilhada (4/4)



Vi o último, o derradeiro, creio eu, “Plano Inclinado”(quem não o viu, pode vê-lo no “You Tube” - http://www.youtube.com/watch?v=bC1jp3wjmt0&feature=player_embedded - ou na página própria da Sic – http://sic.sapo.pt/programasInformacao/scripts/videoplayer.aspx?ch=plano-inclinado&videoId={BCA83B97-92CF-49E2-8E1B-EB51B7928B09}

 Algumas conclusões e ensinamentos podem-se extrair deste programa e que serão guia seguro para as nossas análises e para o futuro. Assim:

 a)  Tem de haver um grau mínimo de honestidade na política, ou seja certas verdades têm de ser ditas doa a quem doer. É no fundo o discurso Churchilliano do “sangue, suor e lágrimas” – não ganha  votos, mas é imprescindível num momento de crise grave. Nesta encruzilhada, o povo chegou a um ponto tal, em que está farto de mentiras e aceita as verdades, por mais duras que elas sejam. Mentir é pior. Revela-se totalmente contraproducente. Resta convencer Sócrates desta evidência.
b) O sistema pode e deve ser alterado. É difícil, mas é possível. Esta classe política tem de ser erradicada de vez. À direita, ao centro e à esquerda, é uma gente gasta, irreciclável e sem possibilidade de recuperação.
c) Os actuais partidos políticos não servem (nenhum deles).
d) Os partidos mais à esquerda (comunista e bloco de esquerda) utilizam um discurso anacrónico e ultrapassado, típico do século XIX. Se os partidos da alternância(PS, PSD, CDS) não servem, os da esquerda servem ainda menos.
e) O conceito marxista do centralismo democrático curiosamente é, hoje, apanágio dos partidos ditos de direita.
f) A maçonaria está em toda a parte e domina a vida política lusitana (à maçonaria poderíamos acrescentar os lóbis que são uma realidade incontornável e perigosíssima, desde o lóbi gay, à Opus Dei e aos lóbis económico-financeiros).
g) Os períodos de ordem nas contas públicas, de gestão eficiente e honesta foram os períodos ditos ditatoriais (o que confirma as teses já expendidas, neste mesmo blogue).

Conclusão:
Atingimos uma encruzilhada a que o Poder político (leia-se, toda a classe política conhecida, sem excepções), que dispõe de pouca (ou nenhuma) credibilidade, é incapaz de responder. A questão principal é o próprio regime. É este que está em causa e sem qualquer possibilidade de redenção. Podemos afirmar que o ciclo se esgotou.

A situação económico-financeira do país é gravíssima. Ninguém quer que nos venham ditar ordens na nossa própria casa, mas ao mostrarmo-nos incapazes de nos governarmos, de que outra sorte estamos à espera? Se a vinda do FMI é inevitável, porque é que estamos continuamente a encanar a perna à rã? Se não é, porque é que não o assumem de uma forma clara e sem ambiguidades? Este tem-te-não-caias é que não interessa a ninguém.
 A situação social atingiu os limites do suportável e está perigosamente a descarrilar em todos os sentidos. O empobrecimento galopante da população é um facto indesmentível. Estão à espera de quê? Que os descamisados desçam à rua? Que se assalte as Tulherias?

Estes miseráveis tiraram-nos tudo, inclusive a esperança. 

O sentimento de revolta é grande e assume dimensões perigosas. Que tremam os que estão no poleiro e os que pensam em para lá ir!

Mas, pergunto eu e a propósito da Mega-manif:

Vamos desfilar a 12 de Março, à rasca com os rascas e excluindo os que não são nem uma coisa, nem outra? Porque diabo é que fazem disto uma cruzada de um grupo, de uma geração? Vamos para a rua, como pretendem alguns para, de uma forma inorgânica e anárquica protestar, por protestar; protestar, porque estamos fartos e já não aguentamos mais?

E qual é o resultado prático?
Pode redundar tudo em águas de bacalhau e de nada serviu andar a desfilar para as câmaras  da RTP, SIC e TVI, o que, bem feitas as contas, é o cenário mais provável. Passadas duas semanas, ninguém sequer se lembra do que se passou, se é que se vai passar algo de relevante.
Pode, porem, começar a fervilhar alguma coisa, mas que, ninguém se iluda, será rapidamente aproveitada por todos os oportunistas de meia-tijela de que o nosso país é pródigo.

Maio de 68 serviu para alguma coisa? Que eu saiba para nada.
Na Rússia de 1917 aí, sim, serviu, mas foram os bolsheviks organizados que  se aproveitaram a seu favor do descontentamento popular russo.

O que é que queremos outra vez um Conselho da Revolução fardado ou os anarcas ao Poder?
Enquanto as coisas não estiverem maduras; enquanto não se vislumbrar pelo menos um embrião de organização e enquanto não se debaterem, com um mínimo de consistência, algumas ideias, não vale a pena ir em futebóis, pelo contrário saem-nos as contas completamente furadas.

 Temos de o fazer. É bom que as consciências despertem. Mas a hora ainda não chegou. É preciso que esta merda apodreça ainda mais e que emirjam verdadeiras alternativas.
Infelizmente, ainda não estamos lá...

sexta-feira, março 04, 2011

Portugal na encruzilhada (2/4)



Durante anos e anos, os nossos dirigentes, a classe política e, no geral, as chamadas elites nacionais, deliberada e acintosamente  escamotearam-nos os factos porque não lhes interessava que a verdade emergisse porquanto contrariava frontalmente as suas teses,  criando-se, então, um conjunto de mitos descabelados, inconsistentes e imbecis, para justificarem o seu pensamento e as suas acções. Em suma, mentiram-nos.
À semelhança de outros, desde os bancos da faculdade e, em especial, no período pós-abrilino, deparei com artigos de jornais e de revistas, já antigos, com dados estatísticos e gráficos que contrariavam o pensamento dominante. Jovens economistas, historiadores e outros estudiosos, em conversa amena, levantaram-me uma ponta do véu, mas à época tudo isto era politicamente incorrecto (leia-se: altamente incorrecto, um verdadeiro anátema em relação ao pensamento assumido do mainstream dominante). Vivia-se, primeiro, a euforia dos 3 D’s (“democratizar, descolonizar, desenvolver”), depois os fundos de pré-adesão e de adesão à então C.E.E., a política do betão, em seguida a Expo-98, a entrada no Euro, os governos alegadamente dialogantes “à la escandinava”  e por aí fora. Era, pois, uma heresia extrair a conclusão óbvia desses dados.
Por outras palavras, em termos de produtividade, riqueza e endividamento assistiu-se:
- a um crescimento ténue mas constante de 1880-1910
- a um caos total, em termos de indicadores de riqueza, que nos fez recuar 30 anos, de 1910-1926 (I República)
- a um maior período de convergência com a Europa nos últimos 200 anos, de 1926 a 1974 (salazarismo-caetanismo)
- finalmente, se tivermos em conta as projecções até 2015, a fase que se avizinha,  consistirá num período de divergência em que estaremos em termos relativos face à U.E. numa situação bem pior que a de 1974.

Para que as coisas se tornem claras, não sou um defensor de ditaduras, e apenas admiro Salazar, como figura histórica, nos exactos termos dos seus êxitos e dos seus malogros, dos seus méritos e dos seus defeitos, num período perfeitamente balizado no tempo e no da nossa memoria colectiva, mas os dados referenciados, fazem-me pensar se, com efeito,  somos uma sociedade suficientemente madura para termos uma democracia nos moldes actuais.

Já agora para que não subsistam dúvidas por parte de quem me lê, consultem-se as seguintes páginas Web:
·      “Infografia: 100 anos de finanças públicas” (http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=447085)
·      “Evolução do PIB per capita na Europa – 1926-1974” (http://pedroarrojagrupofinanceiro.blogspot.com/2009/01/evoluo-do-pib-per-capita-na-europa-1926.html)

·      “Metade dos portugueses acha que o país está pior que antes do 25 de Abril” (http://aeiou.expresso.pt/metade-dos-portugueses-acha-que-o-pais-esta-pior-que-antes-do-25-de-abril=f626638)

·      “Razões para a censura” (http://desmitos.blogspot.com/2011/02/razoes-para-censura.html)
Portugal na encruzilhada (1/4)


Raras vezes menciono a política interna do rectângulo. Hoje é um desses dias e mais se seguirão, porque o tema é obsessivo, omnipresente e angustiante. Sim, fujo deliberadamente aos temas e objectivos anunciados deste blogue, mas não me posso calar. Não sou demagogo e o populismo arrepia-me. Porém, não tenho medo. Nunca tive. Chegámos ao ponto zero da política, ao nadir da esperança, ao fundo do poço sem água da nossa existência. Com esta gente não vamos lá. Com estes governantes não nos safamos. Com este bando de malfeitores o nosso destino é a merda, a merda pura e sem subterfúgios, a merda abrangente, putrefacta e cada vez mais abundante que caracteriza este país.  Produto de exportação que fabricamos facilmente e em quantidade mas que, como é óbvio, ninguém compra.
Fomos iludidos, ludibriados, traídos por este governo e por todos os que o precederam,  desde o 25 de Abril. Todos sabemos disso. Só que poucos se atrevem a dizer o que lhes vai na alma e não se atrevem a aventar soluções para sairmos do atoleiro. À boa maneira lusitana, resmungamos passivamente em voz baixa, de modo desorganizado e tonto, sem objectivos e sem “élan” vital. Nada, mas nada,  nos faz escapar deste estado geral de carneirismo ou de bovinidade em que vegetamos. Dizem que somos sonhadores, pouco realistas e pouco activos. Creio que não. Gostamos é de ser escravos. Vivemos bem com o chicote. Numa palavra, cantamos à meia-luz mais um faduncho da “desgraçadinha”, em que “ilusão” rima com “resignação”. 
Basta olharmos à nossa volta: na Grécia por falcatruas e aldrabices, que levaram o actual governo a apertar a tarracha até aos limites do suportável, o Povo já desceu à rua várias vezes para pintar a manta; em França, ao passar-se a idade da reforma dos 60 para os 62 anos, vai daí e parte-se a loiça. Em Portugal, timidamente não se faz nada ou quase nada e o pouquíssimo, que, às vezes, se chega a fazer, é quase sempre a pedir desculpa, envergonhadinhos e tristonhos – “Bom, tudo isto é uma maçada. Desculpem lá o mau jeito, mas tivemos de dizer alguma coisinha. Nós nem queremos fazer mal a ninguém”.
Temos de preconizar uma ruptura total, definitiva, imediata, já, um imperativo corte com o passado próximo.
Todavia, esse cesura não é seguramente a 12 de Março que a vamos concretizar. É apenas uma geração que se diz à rasca ou um país que vive há décadas à rasca e que não quer viver à rasca? Passámos da geração rasca para a geração à rasca e tudo isto se circunscreve a um problema geracional e de rasquice?
Não. Vivemos num país rasca e em que quase todos vivem à rasca. Esta é que é a verdade dos factos e todos nós sabemos disso. 

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Amado (the loved one) e o PM 




Election in Portugal - part II - Why voters couldn't vote






Foi de facto uma vergonha e um escândalo, quando milhares de cidadãos foram objectivamente impedidos de votar. A lei pode prever prazos para os eleitores confirmarem a informação necessária a fim de exercerem o respectivo direito de voto. Daí as autoridades poderem sempre sacudir a água do capote. A culpa é sempre dos outros e nunca delas. Todavia, (i) nada justifica a quebra dos sistemas informáticos e (ii) ninguém se deu ao trabalho de vir aos media explicar como deviam proceder e com que antecedência o deviam fazer, (iii) nem os media, didacticamente, se propuseram esclarecer o que quer que fosse (i.e., a página do portal do eleitor na Internet é esta, o pedido de envio de SMS é feito através deste número, as informações obtém-se aqui, etc...). Ninguém nasce ensinado.

quinta-feira, novembro 18, 2010

Quo Vadis Portugal? (III de muitas e variadas partes)


José António Saraiva, Director do semanário “Sol” escreveu, creio que no Verão deste ano, não me recordo exactamente quando, um editorial intitulado “Crise Nacional” em que se referia, numa análise certeira, aos factores domésticos e externos que conduziram à presente crise. No que toca à crise nacional aponta 3 factores irreversíveis: (i) o fim do império; (ii) a passagem da ditadura à democracia e (iii) a entrada na U.E. Quanto à questão mais vasta da crise internacional, afirma que decorre, no essencial, da globalização do capitalismo.
A meu ver Saraiva esqueceu-se de mencionar três outros factores de ordem interna, esses, sim, reversíveis (todavia, dificilmente reversíveis) na medida em que tocam nas profundezas do nosso subconsciente colectivo e estão totalmente arreigados na mentalidade lusitana: a recusa permanente de aggiornamento, o problema da ética (ou falta dela) e o desinteresse pelo que realmente importa.
Meia dúzia de  exemplos simples, para  passarmos, em futuros posts, à análise dos factores ditos irreversíveis:
-       Recusa de aggiornamento: Se nos voltarmos para um agricultor e lhe dissermos que tem de arrancar as couves ou as batatas para aí plantar kiwis ou toranjas que estão em grande procura nos mercados nacional e internacional e que são uma fonte de rendimento com um potencial insuspeitado sempre em crescendo, ele recusa dizendo que já o seu pai plantava couves e batatas, que o seu avô idem, idem, aspas, aspas, que o seu primo, cunhados e por aí fora, caso ainda estejam na Santa Terrinha, fizeram sempre a mesma coisa. Se num serviço público, a nível decisório, bem entendido, tentarmos inovar com novas práticas, por exemplo, a nova configuração de um memorando com um sumário executivo,  um plano operacional  e um fluxograma de execução, a resposta é sempre esta: “Mas sempre se fez de outra maneira. Lá vem o senhor com essas esquisitces.” Na primeira semana, só para agradar fingem que  aceitam o novo padrão, para depois voltar tudo à mesma. Em todos os sectores da vida portuguesa a recusa de aggiornamento é permanente, constante, sufocante.
-       A falta de ética: falamos, por exemplo, em corrupção e conformamo-nos dizendo que sempre existiu e que ninguém lhe consegue pôr termo, mas ficamos condoídos quando alguém com largas culpas no cartório apanha uma pesada pena. “Coitado! 10 anos de cadeia? Foi demais. Ele até é um homem simpático, além disso é doente e a mulher tem um cancro. Coitadita,  está a morrer.” Faduncho e mais faduncho, nisso somos bons, mas o fado não tem qualquer interesse musical, nem sequer poético e não passa além fronteiras. Elegemos para cargos públicos conhecidos, contumazes e reiterados vigaristas de que Isaltino, Fátima Felgueiras e Ferreira Torres são apenas três exemplos numa miríade de casos. Permitimos alegremente disparidades salariais injustas, brutais, avassaladoras, sem qualquer justificação. Não protestamos, porque o Zé Tuga, sempre comeu e calou. Ninguém se insurge. Com mais facilidade se protesta contra um penálti invisível no Porto-Sporting do que com o salário obsceno do brasileiro da TAP, pago pelo Pagode. Há todo um problema de educação e isto começa bem cedo, desde o berço. Numa fila de um serviço público o pai diz para o filho: “Oh, Carlos mete-te aí à frente que, agora, não há ninguém a ver.” Assim se educam as criancinhas. Admitimos como candidato a Presidente da República um homem como Manuel Alegre, cujo passado em Argel, aos microfones da Rádio Portugal Livre é bem conhecido e que afirma ter feito a sua iniciação sexual com as sopeiras lá de casa. Está tudo dito! Além disso, esse senhor beneficia do apoio do maior partido português. Dói-nos a alma. Isto é Portugal no seu esplendor ou o esplendor de Portugal.
-       O desinteresse pelo que realmente importa: o português vibra com o acessório e está desatento quando não repudia o essencial. O futebol, o gordalhufo do “Preço certo”, a telenovela, a praia no Verão (com a água gelada) ou o passear no Shopping em fato de treino no Inverno, isso é que é importante. "Nã... Não me lixem com o resto que não quero saber!" Com efeito, desde que se tenha a barriga cheia e se viva distraído, o resto é cumbersa. Panes et circenses! “Eh, pá, eu quero é que estes gajos todos se lixem!” Mas estarás tu disposto a lixá-los, pedaço de asno?

Apesar de serem características estruturais, são alteráveis, tarefa ingente, mas extremamente complexa, que implica tempo, suor e lágrimas (desculpem a incursão chuchilliana...).


A grande questão consiste, pois, em levar a cabo uma revolução de mentalidades.

A série continua, obviamente.

terça-feira, abril 27, 2010

Memórias do Portugal Respeitado -  Do blogue  "A bem da Nação" transcreve-se,  com a devida vénia, o seguinte post:



Terça-feira, 20 de Abril de 2010
MEMÓRIAS DO PORTUGAL RESPEITADO


Corria o ano da graça de 1962. A Embaixada de Portugal em Washington recebe pela mala diplomática um cheque de 3 milhões de dólares (em termos actuais algo parecido com € 50 milhões) com instruções para o encaminhar ao State Department para pagamento da primeira tranche do empréstimo feito pelos EUA a Portugal, ao abrigo do Plano Marshall.

O embaixador incumbiu-me – ao tempo era eu Primeiro Secretário da Embaixada – dessa missão.

Aberto o expediente, estabeleci contacto telefónico com a desk portuguesa, pedi para ser recebido e, a pedido do funcionário encarregado da desk, disse ao que ia. O colega americano ficou algo perturbado e, contra o costume, pediu tempo para responder. Recebeu-me nessa tarde, no final do expediente. Disse-me que certamente havia um mal entendido da parte do governo português. Nada havia ficado estabelecido quanto ao pagamento do empréstimo e não seria aquele o momento adequado para criar precedentes ou estabelecer doutrina na matéria. Aconselhou a devolver o cheque a Lisboa, sugerindo que o mesmo fosse depositado numa conta a abrir para o efeito num Banco português, até que algo fosse decidido sobre o destino a dar a tal dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro ficaria em Portugal. Não estava previsto o seu regresso aos EUA.

Transmiti imediatamente esta posição a Lisboa, pensando que a notícia seria bem recebida, sobretudo num altura em que o Tesouro Português estava a braços com os custos da guerra em África. Pensei mal. A resposta veio imediata e chispava lume. Não posso garantir a esta distância a exactidão dos termos mas era algo do tipo: "Pague já e exija recibo". No dia seguinte, sem aviso prévio, voltei à desk e comuniquei a posição de Lisboa.

Lançada estava a confusão no Foggy Bottom: - não havia precedentes, nunca ninguém tinha pago empréstimos do Plano Marshall; muitos consideravam que empréstimo, no caso, era mera descrição; nem o State Department, nem qualquer outro órgão federal, estava autorizado a receber verbas provenientes de amortizações deste tipo. O colega americano ainda balbuciou uma sugestão de alteração da posição de Lisboa mas fiz-lhe ver que não era alternativa a considerar. A decisão do governo português era irrevogável.

Reuniram-se então os cérebros da task force que estabelecia as práticas a seguir em casos sem precedentes e concluíram que o Secretário de Estado - ao tempo Dean Rusk - teria que pedir autorização ao Congresso para receber o pagamento português. E assim foi feito. Quando o pedido chegou ao Congresso atingiu implicitamente as mesas dos correspondentes dos meios de comunicação e fez manchete nos principais jornais. "Portugal, o país mais pequeno da Europa, faz questão de pagar o empréstimo do Plano Marshall"; "Salazar não quer ficar a dever ao tio Sam" e outros títulos do mesmo teor anunciavam aos leitores americanos que na Europa havia um país – Portugal – que respeitava os seus compromissos.

Anos mais tarde conheci o Dr. Aureliano Felísmino, Director-Geral perpétuo da Contabilidade Pública durante o salazarismo (e autor de umas famosas circulares conhecidas ao tempo por "Ordenações Felismínicas" as quais produziam mais efeito do que os decretos do governo). Aproveitei para lhe perguntar por que razão fizemos tanta questão de pagar o empréstimo que mais ninguém pagou. Respondeu-me empertigado: - "Um país pequeno só tem uma maneira de se fazer respeitar – é nada dever a quem quer que seja".

Lembrei-me desta gente e destas máximas quando há dias vi na televisão o nosso Presidente da República a ser enxovalhado pública e grosseiramente pelo seu congénere checo a propósito de dívidas acumuladas.

Eu ainda me lembro de tais coisas, mas a grande maioria dos Portugueses de hoje nem esse consolo tem.

Estoril, 18 de Abril de 2010

 Luís Soares de Oliveira

terça-feira, março 09, 2010

Sempre actual (ou atual) - Este e-mail que transcrevo recebi-o por diversas vezes, há vários meses, através dos amigos que tenho por terras lusas, não deixa porém de ser muito actual (ou atual) e portanto dou-o a conhecer ao meu nucleozinho de leitores assíduos que são capazes de o não ter ainda lido.


Cem anos depois do fim da Monarquia, já se pode dar por provado que o problema não era o rei e o seu poder moderador, mas sim os cidadãos burgueses auto-destrutivos e sem auto-estima: agora a massa popular é a mesma, passando apenas de analfabeta a iliterata, e com os mesmos ovos só se podem fazer as mesmas omelettes:

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,
aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias,
sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que
um lampejo misterioso da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,
não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha,
sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,
descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação,
da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, abso lu tamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador; e este, finalmente,
tornado abso lu to pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,
incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos,
iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,
e não se malgando e fundindo, apesar disso,
pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
Guerra Junqueiro, 1896.

segunda-feira, março 08, 2010

Citações de Medina Carreira - Aqui vai mais uma para o almanaque: "Eu não sou candidato a nada, e por conseguinte não quero ser popular. Eu não quero é enganar os portugueses. Nem digo mal por prazer, nem quero ser «popularucho» porque não dependo do aparelho político!"