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quarta-feira, julho 13, 2011


EUA à beira do incumprimento



Conforme inúmeras vezes e com a devida antecedência informámos neste blog, os EUA encontram-se na iminência quase certa  de insolvência. Em entrevista à CNBC David Murrin, principal responsável pelo sector de investimentos da Emergent Asset Managemet, afirmou que o incumprimento por parte dos EUA não é uma questão hipotética mas apenas de tempo (it isn’t a matter of ‘if’ but ‘when’). Para o referenciado: “É inevitável que os EUA vão à bancarrota. Trata-se essencialmente de um império sobre-dimensionado e em declínio e o sistema financeiro irá com ele”, disse. A questão é a seguinte: os EUA deixam de honrar os seus compromissos  quando a tal são forçados pelo mundo exterior, provavelmente pelos chineses, ou assumem (voluntariamente) a opção de incumprimento nos seus próprios termos de tal forma que possam daí extrair uma vantagem estratégica, afirmou Murrin.

China: agências de rating encobrem insolvência dos EUA 

We are at war! It certainly looks like it!! Afinal sempre estamos em guerra !
 Só que esta agora, por enquanto, ainda não tem baixas e não fez mortos, mas temo pelas consequências futuras, em especial pela sorte dos meus familiars em Portugal e na Europa. 
Não sou profeta, nem propenso aos demaus agoiros, mas tenho todos os meus sentidos em alerta. 
Espero, muito sinceramente, estar enganado sobre quem vai perder !!! A situação é demasiado grave para comentários de circunstância! Facts are facts, comments are free!

China: agências de rating encobrem insolvência dos EUA




A agência de rating chinesa Dagong acusa as rivais norte-americanas (Standard&Poor’s, Moody’s e Fitch) de estarem a cometer o mesmo erro que levou à crise financeira mundial, em 2008, ao se recusarem a fazer um downgrade no rating dos EUA apesar do «estado de insolvência e das crescentes dificuldades do país em pagar a dívida» da maior economia mundial. 

Em declarações à Imprensa, Chen Jialin, director-adjunto do departamento internacional da Dagong, refere que as três maiores agências mundiais de notação de crédito apenas lançaram os avisos recentes sobre a elevada dívida dos EUA devido «à pressão da opinião pública» e não por sua vontade. 

A Standard&Poor’s colocou o rating dos EUA em ‘vigilância negativa’ – o primeiro passo para uma eventual descida da notação – no mês passado, surpreendendo os investidores internacionais. Os EUA ainda mantêm a classificação máxima – AAA – junto da S&P, Moody’s e Fitch, o que indica que o país tem uma hipótese quase nula de entrar em incumprimento junto dos credores.


Mau exemplo

Porém, a folha financeira dos EUA está longe de ser exemplar. O Estado tem um défice orçamental superior a 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e uma dívida pública que ronda 100% do PIB, que cresce abaixo de 2%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o secretário do Tesouro, Timothy Geithner reiteraram esta semana que, se o tecto da dívida nos EUA não for aumentado pelo Congresso – de maioria republicana –, o país corre o risco de entrar em incumprimento em Agosto. 

Numa primeira fase, a Dagong fez um downgrade do rating dos EUA, do nível máximo, AAA, para AA, devido à inexistência de uma «solução credível» para a resolução do défice orçamental no longo prazo, que estava a levar o país para um «crise da dívida», adianta o responsável. 

A decisão da Fed, o banco central norte-americano, de injectar mais de 600 mil milhões de dólares na economia através da emissão de moeda, em Novembro de 2010, reflectiu o «colapso do estado de solvência dos EUA e a deterioração da capacidade de pagar as suas dívidas», salienta a agência chinesa. Este evento levou a Dagong a fazer um novo corte na notação dos EUA, para A+. Jialin lembra que nem a deterioração económica dos EUA levou as três agências norte-americanas a alterarem a classificação, acrescentando que «o silêncio tornou-se a opção unânime entre elas». 

«O rating da dívida pública norte-americana é o segundo teste para as três maiores agências. No primeiro, os seus erros morais e de actuação provocaram a crise de crédito global», diz Chen Jialin.


quinta-feira, junho 23, 2011

A Apple e a China: condições laborais



É bom que os utilizadores do Ipad vejam o vídeo abaixo referenciado. É assim que a Apple ganha dinheiro e a China se torna uma grande potência, à custa do sacrifício humano.

O respeito pelos direitos laborais não é apanágio do Poder politico chinês. Segundo consta, a Foxconn, que fabrica em Chengdu, Provincia de Sichuan, componentes para a Apple, mas também para a Microsoft, Dell, HP e Motorola viola ostensiva e sistematicamente aqueles direitos, com horas excessivas de trabalho, recusa de intervalos para refeições, exposição a materiais químicos perigosos, incluindo o pó de alumínio, sob um regime militarizado de “caserna”. A Apple tem conhecimento destas violações na medida em que monitoriza o fabrico dos seus produtos para ulterior venda no mercado mundial.
Em 2010, a Foxconn esteve sob a luz dos holofotes mediáticos, porquanto 18 trabalhadores atentaram contra a própria vida, dos quais sobreviveram apenas 3.
É assim que a China se vai tornar, dentro de alguns anos, a primeira economia do mundo, com a conivência das empresas ocidentais.



Nova crise global


Não que concorde integralmente com o texto que passo a reproduzir mais abaixo – até porque, como posição de princípio, discordo em termos ideológicos do autor - , todavia algumas observações são muito pertinentes e as ideias expressas no texto merecem ser ponderadas. O autor Joseph Halevi é um conhecido professor de economia, marxista, do corpo docente da Universidade de Sydney e professor convidado de várias universidades norte-americanas, francesas e italianas,  investigador do CNRS e colaborador regular da publicação italiana de extrema-esquerda Il Manifesto.

Tradução da minha autoria.

Avizinha-se uma nova crise global


Uma nova onda da crise mundial, diferente dessa disputa absurda sobre a Grécia, que está a afundar a UE em areias movediças, afigura-se-nos cada vez mais provável. O foco da crise radica, por um lado, na relação entre os preços das matérias primas e os produtos alimentares; por outro, no crescimento da Índia e da China, e como se integram esses dois fenómenos nas decisões especulativas dos mercados financeiros.
Em meados de Abril, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, referindo-se ao aumento de preços dos produtos alimentares, afirmou que dezenas de milhões de pessoas nos países em desenvolvimento estavam a um passo do abismo. A inflação estimula bolhas especulativas nos mercados de produtos alimentares, quer dizer, especulações actuais sobre colheitas futuras. O crescimento da China, e em menor grau  da Índia, constitui o principal factor da expansão da procura de produtos alimentares e de matérias primas. Não obstante, os preços não estão a seguir a dinâmica da procura real dos produtos em questão, mas antes  crescem de acordo com as expectativas de lucro que derivam da compra de produtos financeiros derivados emitidos sobre matérias primas. Uma componente crescente da procura provem  das sociedades financeiras ocidentais que colocam em produtos derivados fundos que obtém do Estado. Isto também  se aplica aos campos de cultivo. 

Uma recente investigação da BBC  revelou que o preço de um hectare  de terra cultivada com trigo no Kansas, cuja produção se destina na sua maior parte à exportação, passou em pouquíssimo tempo de 750 USD  a cerca de 1300 USD. Os agricultores alegam  que quem compra um terreno a esse preço não pode esperar qualquer benefício. No entanto, o aumento do valor da terra não se deve à  entrada de novos produtores, mas sim de investidores financeiros que aguardam uma ulterior inflação dos preços dos cereais, devido ao crescimento da China e  da Índia.

Concentrando-nos na China, observamos que a subida dos preços das matérias primas industriais importadas reduz as margens de lucro das empresas, enquanto que a dos preços agrícolas tem um efeito redutor dos salários num contexto em que o factor alimentar representa uma grande proporção do gastos familiares, amiúde superior à percentagem ocidental. Por conseguinte, a inflação de produtos alimentares cria na China uma ruptura social perigosíssima, já que em muitas partes do país se dão situações de revolta. Acresce que a inflação geral está cada vez mais enchendo a espantosa bolha imobiliária, que ultrapassa já a que se verificava  há quatro anos nos EUA.
Esta conjuntura acelera a necessidade de reorientar todo o processo de acumulação na China, o que é extremamente difícil de levar a cabo; tanto assim é que Beijing não parece ser capaz de mudar esse regime de crescimento sem passar por uma crise. Em qualquer caso, a China só pode mitigar o impacto inflacionário dos preços dos produtos alimentares e das matérias primas reduzindo substancialmente a respectiva taxa de crescimento económico, caso contrário reforçaria as expectativas especulativas referentes a um excesso de procura estrutural de bens de primeira necessidade.
Voltemos agora de Beijing para Chicago e Nova Iorque, mas  também para Londres, Zurique e Frankfurt. Desde que os preços das matérias primas e dos bens alimentares começaram a subir sistematicamente, emitiu-se uma grande quantidade de produtos derivados que incidem sobre eles. As operações nos mercados de futuros são globais e não podem controlar-se facilmente mediante o regulamento implementado no Basileia 3. Escapam a qualquer supervisão. A especulação nos mercados de futuros e, por extensão, nos campos de trigo de Kansas, resulta hoje possível graças quer à ampla liquidez proporcionada pelos Estados aos bancos a taxas de juro quase nulas, como ao facto do mercado imobiliário ocidental carecer já de impulso, para não falar do esgotamento do investimento industrial. As sociedades financeiras que investem em produtos financeiros derivados sobre o cacau e o trigo do Kansas fazem-no  porque a revalorização da terra pode financiar dividendos, inclusive fundos de pensões, e conferir capacidade para efectuar pagamentos, o que é importante nos EUA.
Se a China conseguir controlar a inflação, todo o mecanismo dos mercados de futuros manifestaria uma tendência para a baixa com uma deflação nos preços das matérias primas, produtos alimentares, campos de trigo, entre outros. Os fundos de pensões ver-se-iam descobertos como no caso dos créditos subprime, mas à escala global (leia-se, planetária) da Austrália ao Brasil passando por outros países da América Latina. O peso da China nos preços e nos mercados de futuros de matérias primas e de  produtos alimentares é tal que inclusive a ideia de uma pequena redução na sua taxa de crescimento envolve uma grave diminuição dos preços dos produtos básicos, o que esvaziaria de novo os derivados do valor potencial em que assentam, hoje mais do que nunca, nas finanças globais. A outra alternativa é a continuação da bolha dos mercados de futuros e dos campos de Kansas que conduziria rapidamente à consumação da previsão de Zoellick.

terça-feira, junho 21, 2011


Crise sistémica global – Outono de 2011 – O aguardado estoiro dos EUA (2/2)



O mecanismo do detonador das dívidas públicas europeias
Os operadores financeiros anglo-saxões decidiram desempenhar o papel, não só de sábios conselheiros, mas, principalmente,  de aprendizes de feiticeiros  isto há cerca de ano e meio, a julgar, por exemplo, pelos primeiros títulos do Financial Times em Dezembro de 2009 sobre a crise grega convertida rapidamente numa suposta « crise do Euro». Não vale a pena perdermos muito tempo com os diferentes episódios desta telenovela imaginada (um exemplo típico e bem concertado de manipulação da informação), que pelos vistos continua, orquestrada que está pela City de Londres e por Wall Street. Entretanto, e apesar de tudo, o Euro continua a valorizar-se em relação ao dólar, mantendo-se a uma mais que saudável paridade (1 Euro=1,435 USD). As agências de rating anglo-saxónicas alertam para o descarrilar da dívida soberana europeia, mas, contraditória  e cinicamente, recomendam que os EUA criem um ainda maior buraco financeiro aumentando de 14 para 17 biliões de USD o “tecto” do endividamento externo de Washington. Todos os que apostaram no colapso da zona Euro devem seguramente ter perdido já muito, mas muito dinheiro.
Como já se tinha oportunamente antecipado, a crise irá favorecer o aparecimento de um novo soberano – a Eurolândia -, que irá permitir à Eurozona estar melhor preparada, que os EUA, Reino Unido e Japão - para o inevitável choque do próximo Outono, ainda que lhe caiba o ingrato papel de detonador, o que não será propriamente  do seu agrado. O « bombardeamento » (dos media e dos peritos anglo-saxões, porque têm de se chamar os bois pelos nomes) à Eurozona foi interrompido durante algumas semanas porque resultou em 3 importantes consequências, duas delas bem longe dos resultados aguardados por Wall Street e pela City, a saber:

1. Num primeiro momento, (Dezembro de 2009 a Maio de 2010), fez  desaparecer o sentimento de invulnerabilidade da divisa europeia tal como se tinha constituído em 2007/2008, suscitando a dúvida sobre a respectiva sustentabilidade e sobretudo relativizando a ideia de que o Euro era a alternativa natural ao USD (ou seja, inclusive o seu sucessor natural).

2. Logo, num segundo tempo (Junho de 2010 a Março de 2011), obrigou os dirigentes da Eurolândia a implementar « muito rapidamente » todas as medidas de salvaguarda, de protecção e de fortalecimento da moeda única (medidas que deveriam ter tomado há já muitos anos). Ao fazê-lo, revitalizarão a integração europeia, repondo o projecto europeu ao núcleo fundador e  marginalizando o Reino Unido. Entretanto, estimulou-se o apoio cada vez mais sustentado da moeda europeia por parte dos BRICS, principalmente da China, que após um momento de flutuação se consciencializou de duas coisas fundamentais: por um lado, que os europeus actuavam seriamente para confrontar os problemas; e por outro, tendo em conta o encarniçamento anglo-saxónico, que o Euro era sem sombra de dúvidas  um instrumento essencial para qualquer tentativa de saída do «mundo do dólar».

3. Por último, actualmente (Abril de 2011 a Setembro de 2011), a Eurozona propõe-se orientar (ou se se quiser, “forçar”) os sacrossantos investidores privados para que contribuam na resolução do problema grego, quer por haircuts, quer muito particularmente pela via das dilações «voluntárias » dos prazos de reembolso (ou qualquer outra fórmula de redução dos benefícios esperados – é melhor perder alguma coisa, a perder tudo).

Como se pode imaginar, se o primeiro impacto era um dos objectivos prosseguidos por Wall Street e pela  City (além  de, muito naturalmente, desviar a atenção dos grandes problemas reais do Reino Unido  e dos Estados Unidos), os dois restantes traduzem-se em  efeitos totalmente contrários ao objectivo inicial: debilitar o Euro e reduzir o seu atractivo mundial.

Além disso, prepara-se a quarta  sequência que terá, em princípio, lugar em 2012, ou seja: o lançamento de um mecanismo de Eurobonds, para distribuir quer uma parte das  emissões de dívidas dos países da Eurolândia, como a inevitável pressão política que é cada vez maior, na medida em que aumenta a participação  contributiva privada neste vasto processo de reestruturação da dívida dos países periféricos da Eurozona .

Com esta quarta sequência, entramos no coração do processo de contágio que facilitará a explosão da bomba da dívida federal dos Estados Unidos. Por um lado, criando um contexto mundial mediático e financeiro ultra-sensível no que toca aos problemas de dívida pública; Wall Street e a City tornaram visível a amplitude insustentável dos défices públicos norte-americano, britânico e japonês. O  que até obrigou as agências de rating, os fiéis cães de guarda de ambas as praças financeiras, que se lançassem numa corrida louca de degradações das classificações dos Estados. É por esta razão que os EUA se encontram, sob ameaça, aliás perfeitamente previsível de desqualificação, o que se afigurava altamente improvável à maioria dos peritos há apenas alguns meses. E paralelamente o Reino Unido, a França, Japão, … também voltam a estar na mira das agências.

Recordemos que as agencias de notação, apesar de toda a fama de que gozam, jamais previram algo que fosse realmente importante (nem a crise do subprime, nem a crise mundial, nem a crise grega, nem a Primavera árabe...). A futurologia não é pois o seu forte. Se degradam a seu bel prazer é porque são forçadas a fazê-lo pelo seu próprio jogo. Por outras palavras, não é possível degradar mais A, sem tocar na classificação de B, se B não está em melhor situação. As “suposições” de que tal ou tal Estado deixe de pagar a sua dívida não resistiram a 3 anos de crise: e foi aqui mesmo que Wall Street e a City caíram na armadilha  que recai sobre todos os aprendizes de feiticeiros. Com efeito, não perceberam minimamente que lhes seria impossível controlar a histeria, mantendo-a circunscrita à dívida grega (registe-se que a esta é, no fundo, uma brincadeira de crianças ao pé da dívida dos EUA – com efeito são 300 mil milhões contra 15 biliões, ou seja uma relação de 1 para 50!). É assim que hoje o Congresso norte-americano, com o violento debate sobre o tecto da dívida e os grandes cortes orçamentais , que se desenvolvem as consequências dos artigos manipuladores destes últimos meses sobre a Grécia, Portugal, a Irlanda  e a Eurozona. Uma vez mais,  só se pode insistir num ponto e num ponto apenas: se a História tem algum sentido é inegavelmente o sentido da ironia.





Crise sistémica global – Outono de 2011 – O aguardado estoiro dos EUA (1/2)


Vários peritos mundiais anteciparam já a explosão das dívidas públicas ocidentais no segundo semestre de 2011, previsão de que oportunamente demos conta, nestas mesmas páginas (ver o que oportunamente referimos  aqui  http://pipiroom.blogspot.com/2011/06/previsivel-crise-global-no-outono-de_05.html e também aqui http://pipiroom.blogspot.com/2011/06/previsivel-crise-global-no-outono-de.html e em posts anteriores)

O processo deverá desenrolar-se sensivelmente com base na crise das dívidas soberanas europeias para em seguida passar ao epicentro do sistema financeiro mundial, ou seja  à dívida federal dos EUA, sem esquecer as dívidas estaduais, regionais e locais pendentes daquele país. Ao entrarmos no segundo semestre, depararemos com a economia mundial num caos total, um sistema monetário global cada vez mais instável, com as praças financeiras em situação desesperada, sem prejuízo dos biliões e biliões de dinheiro público investido precisamente para obviar a esta situação.
A recessão reinicia-se realmente com os EUA, a Europa, a China e a Índia irão na mesma esteira, todavia a um ritmo mais lento. A retoma, como parece estar mais do que provado, é totalmente ilusória e as empresas vão acumular capital para fazer face a dificuldades de tesouraria futuras para que não se repita o pesadelo de 2008, com os bancos falidos ou em vias de o serem.
A insolvência do sistema financeiro mundial, e antes de tudo do sistema financeiro ocidental, sobe à ribalta após um ano de politicas meramente cosméticas que pretendiam escamotear o problema de fundo inundando o mercado com liquidez artificial.

Em 2009, calculava-se que o planeta dispunha de 30 biliões de dólares (leia-se bem esta cifra à nossa maneira, sem quaisquer americanices de permeio) em activos-fantasmas. Cerca de metade evaporou-se em seis meses, ou seja entre Setembro de 2008 e Março de 2009. Resta, pois, a outra metade (15 biliões de activos-fantasma) e que irá presumivelmente desaparecer entre Julho de 2011 e Janeiro de 2012, deixando a conta a zero. E desta feita é a dívida pública que está sobre a mesa, porque contrariamente ao meltdown de 2008/2009 os principais actores foram os privados. Nesta ordem de ideias e a fim de melhor nos consciencializarmos do choque que se avizinha, atente-se que os bancos americanos começaram já a diminuir a utilização das obrigações do tesouro (T-bonds) para garantir as respectivas transacções, temendo os riscos crescentes de exposição à dívida pública dos EUA. A este respeito, registe-se que o Financial Times de hoje dá-nos conta que  a China, nos primeiros 4 meses do ano, começou a diversificar os seus investimentos afastando-se dos activos em dólares e presumivelmente comprando títulos da dívida soberna europeia (Grécia, Portugal, Espanha, Itália, entre outros), de acordo com estimativas do fStandard Chartered Bank. Assim e Segundo o mesmo jornal, “China’s foreign exchange reserves expanded by around $200bn in the first four months of the year, with three-quarters of the new inflow invested abroad in non-US dollar assets, the bank estimated.” Assiste-se, por conseguinte, a uma alteração importante em que se passa dos investimentos em dólares, designadamente em T-bonds  para os investimentos em títulos de dívida da Euro  zona.
Prevalece também uma certa atmosfera de “fim de festa” com o termo da QE2 (quantitative easing) e com a reentrada acelerada da economia em recessão.
O impacto do Outono de 2011, gerará aos agentes financeiros a nítida sensação de que o chão lhes foge debaixo dos pés, uma vez que os T-bonds, sustentáculos do sistema financeiro dos EUA e mundial, se afundarão abruptamente.
O problema não é de falta de confiança nas economias dos países ditos periféricos mas de falta de confiança no próprio coração do sistema.

Os dois aspectos mais perigosos da grande alteração prevista para o Outono de 2011, são os seguintes:
. o mecanismo detonador das dívidas públicas europeias
. o processo de  explosão da bomba das dívidas públicas dos EUA

Paralelamente, neste contexto de aceleração do reequilíbrio das relações de força à escala planetária, pode-se avançar com a previsão de um processo geopolítico fundamental relacionado com a realização de uma cimeira Euro-BRICS antes de finais de 2014.

Finalmente, temos de centrar as nossas recomendações no modo como evitar ser contaminados por estes 15 biliões de activos-fantasmas que serão derretidos nos  próximos meses, com uma menção especial no que toca à evolução do tandem bens imobiliários/taxas de juro na Europa.

sexta-feira, junho 17, 2011

O tão decantado milagre económico chinês – um esquema D. Branca à escala planetária


Para além das cifras hiperbólicas e mágicas, o mais banal dos observadores começa gradualmente a tomar consciência de que “há algo de podre no Reino da Dinamarca”, ou, neste caso concreto, da China. Não são os investidores gananciosos ou novos avatares de Bernard Madoff  ou da D. Branca os responsáveis pelo chamado “milagre económico chinês”, neste momento a segunda economia do planeta e dentro de poucos anos, talvez, a primeira (a ver vamos!). Existem semelhanças iniludíveis e cada vez mais perceptíveis entre as conhecidas pirâmides financeiras fraudulentas e a economia chinesa.
De acordo com os próprios chineses, a RPC necessita de um crescimento anual do respectivo PIB de cerca de 8%, para dar emprego a uma força laboral de 16 milhões de novos trabalhadores que entram anualmente no mercado de trabalho e evitar que essas massas aumentem os índices de desemprego e criem problemas sociais insolúveis. Com efeito, o crescimento a uma taxa altíssima – e acrescentamos, insustentável, a médio e longo prazos, atenta a evolução da economia mundial – permite, aparentemente, controlar o índice de desemprego em valores considerados “saudáveis”, superintender as tabelas salariais, face às contínuas pressões para a alta e sustentar uma crescente população idosa que vai ingressando nas fileiras da aposentação. Numa estranha combinação de exportações, de empréstimos bancários demasiado “generosos”, de uma moeda mantida artificialmente a uma taxa de câmbio irrealista e desconforme à realidade, margens de lucro muito baixas e avultados investimentos estatais, os dirigentes “comunistas”(?) conseguiram manter o crescimento nos níveis actuais. Impressionante! Todavia, está bem de ver que nada disto é consistente. Trata-se de uma estátua gigantesca com pés de barro.
Em suma,
a)     A China, para sobreviver economicamente, necessita de taxas  consistentes de crescimento do PIB de 8% ao ano;
b)    Todavia, as taxas de crescimento requeridas são insustentáveis na medida em que ultrapassam a capacidade efectiva global da RPC. Todo o tipo de esquemas foram adoptados por Beijing para gerar artificialmente essas taxas que não têm base de sustentação na economia real;
c)     Aos primeiros sinais de crise, a economia chinesa cairá como um castelo de cartas...e os sinais que chegam de outras paragens e da própria China começam a ser preocupantes (vejam o que aqui já se disse sobre o assunto).


quarta-feira, junho 15, 2011


Crise - outros sintomas: os excedentes da balança comercial chinesa são mais diminutos do que se previa

Segundo o China Daily e agências noticiosas, a China apresenta um superavit comercial inferior ao expectável, de cerca de USD 13 mil milhões, em Maio último, devido ao aumento inesperado das importações e a uma procura global nos mercados consideravelmente mais débil, o que tem travado as exportações.
Com efeito, as vendas de bens e produtos chineses para os EUA e para a U.E. reduziram-se a patamares mínimos desde os finais de 2009, excluindo os feriados do Ano Novo chinês, sublinhando-se a percepção de que a economia mundial está  a vacilar .
Sem embargo, como motor de crescimento, as cifras da importação sugerem que a economia chinesa está a expandir-se a um ritmo saudável, mas não extraordinário. As importações de petróleo mantiveram-se a níveis elevados e os contingentes de carvão aumentaram mais de um quinto desde Abril.
“Globalmente, a consistência das importações sugere que a procura interna chinesa não abrandou tanto quanto o mercado temia”, afirmou Wang Tao, um economista chinês da filial da União dos Bancos Suíços em Beijing.
As exportações cresceram 19,4% em Maio, em relação a Maio do ano transacto, afrouxando dos 29,9% registados em Abril, enquanto que o crescimento das importações acelerou para 28,4% dos 21,8% contabilizados em Abril, de acordo com as informações das autoridades aduaneiras chinesas.
De acordo com as previsões dos economistas, o crescimento das exportações ficou aquém das expectativas  que o situavam em 21%, enquanto que as importações aumentaram para além dos estimados 22,5%.
Os excedentes da balança comercial subiram para os USD 11,4 mil milhões em Abril, mas muito abaixo das estimativas que  os situavam em USD 18,6 mil milhões.
“Em suma, a mensagem geral a passar não é nem fraca, nem forte”, afirmou Ken Peng, um economista do Citigroup em Beijing.  
Com efeito, os dados apresentados oferecem um pouco de tudo para todos os gostos, razão pela qual os mercados financeiros não reagiram de modo significativo a estas notícias.
As cifras do comércio externo da China são atentamente analisadas porque é o maior exportador mundial e a segunda economia do planeta. “ A força
Os números de Maio são de maior relevância porquanto os economistas estão a tentar perceber se há de facto um ligeiro abrandamento na economia mundial ou o início de uma travagem mais perturbadora.
Para os optimistas que crêem que a economia mundial rejuvenescerá nos meses mais próximos, apontam para as crescentes importações chinesas que excederam as expectativas como um sintoma claro que a procura interna permanece saudável numa região vital para o crescimento da economia global.
Todavia, para todos aqueles que ponderam a ameaça de um abrandamento prolongado ou, mesmo, de uma contracção económica, encontram argumentos consistentes nas cifras mais débeis das exportações.
Com a inflação já a ultrapassar a chamada “zona de conforto”, Beijing está a tomar medidas para arrefecer a economia. Os economistas estão a monitorizar a economia para ver se estes esforços de contenção podem moderar sectores sobreaquecidos como é o caso do sector imobiliário, sem afectarem a procura global.
Incertezas
As exportações para os EUA aumentaram uns modestíssimos 7,2%, no espaço de um ano, muito abaixo dos 25%, registados anteriormente (Abril). Relativamente, à U.E. as exportações cresceram 13,2% menos de metade do valor precedente.
Abstraindo da volatilidade provocada pelos feriados do Ano Novo chinês, as cifras indicam claramente que se trata do volume mais fraco de exportações desde Novembro de 2009, quando a economia mundial estava a ainda a sentir plenamente os efeitos da crise financeira do Outono de 2008.  
Os economistas previram um “slowdown” do sector secundário pela redução das encomendas dos principais parceiros comerciais da China, reduzindo muito o ritmo  das exportações, que acabou por se revelar bem maior do que era conjecturável.
Chen Yong, um analista na Huatai United Secuities em Xangai, disse que a retracção em Maio mostrava “que existiam ainda incertezas quanto à recuperação mundial”
No mês passado, a  actividade fabril chinesa expandiu-se ao nível mais baixo dos últimos 9 meses, de acordo com os índices consultados.
O aumento das importações que atingiram 5 milhões de barris de “crude”/dia pelo 5º mês consecutivo parece dever-se à constituição de depósitos de reserva de emergência.
As crescentes necessidades de abastecimento energético fizeram aumentar 20,7% das chegadas de carvão, cujas falhas têm provocado quebras no abastecimento de electricidade, o que é particularmente agudo no período do Verão que se aproxima.
O proprietário de uma fábrica têxtil afirmou que enquanto o  mercado interno ainda atestava um bom comportamento, as exportações caíram cerca de um terço.


segunda-feira, março 07, 2011


Importações chinesas são dilema para Dilma

Relativamente ao título supra, do “Diário de Notícias” de Lisboa, de hoje, transcrevemos a seguinte notícia:
A invasão dos produtos chineses é, segundo o Financial Times, um dos maiores dilemas políticos da Presidente do Brasil, Dilma Rousseff.

As fantasias de carnaval que os foliões usam nesta época no Brasil são, na sua maior parte, feitas com materiais oriundos da China. Uma situação que não se verificava, por exemplo, há dez ou 15 anos.
Os produtos chineses, mais baratos 40% do que os brasileiros, estão a inundar cada vez mais o mercado para consternação dos produtores nacionais.
Dilma Rousseff, empenhada em melhorar a situação dos empresários e produtores brasileiros, não consegue para já ter uma resposta política para a situação sem melindrar o grande gigante asiático.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

A política externa de Dilma Rousseff


Vou tentar ser tão objectivo quanto possível. 
A novel presidente do Brasil (e não presidenta - que eu saiba ela não é resistenta, nem antiga combatenta)  vai ter que delinear a sua política exterior dando seguimento às linhas traçadas por Lula. Aqui não vai certamente haver grande inovação, nem mudança detectável O Brasil incha o peito de ar porque já está no grupo dos grandes. Todavia, tem de saber entrar no jogo e isto não é futebol no Maracanã, nem tem Ronaldinho Gaúcho para marcar golos.
Já Celso Lafer no “Estadão” (“Estado de São Paulo” de 18 de Setembro de 2010) referia que “O Brasil não enfrenta problemas de segurança de envergadura, como países do Oriente Médio ou da Ásia, que estão mais próximos dos riscos da situação-limite paz/guerra. Por isso, pode considerar o desafio do desenvolvimento nacional, na sua abrangente sustentabilidade - econômica, social, política, ambiental, de inovação e conhecimento -, como sua grande necessidade interna. Cabe lidar bem com esse desafio, que significa ampliar o poder de controle da sociedade brasileira sobre o seu próprio destino, numa era de globalização, na qual o mundo se internaliza na vida dos países, inclusive no capítulo dos riscos (por exemplo, tráfico de drogas, crises econômicas, mudanças climáticas).” Contudo, para alcançar o desejado objectivo do desenvolvimento (apesar dos índices e do crescimento verificado, o Brasil ainda possui muitas características terceiro-mundistas) a classe política e, neste caso, a Presidente têm de compreender bem a extrema complexidade do mundo em que vivemos. Olhar para o umbigo, não basta. Lafer sublinha: “A minha crítica à diplomacia lulista é dupla. Entendo que, com consequências negativas para o País, não definiu apropriadamente as necessidades internas e não avaliou corretamente as possibilidades externas.” Dilma prosseguindo nesta esteira não irá longe e o Brasil poderá perder a oportunidade única que se lhe oferece. Presumivelmente, vamos ter com alguns matizes, uma diplomacia oca, que se vê ao espelho e que se sente encantada com o que vê, mas o que não verá, certamente, são resultados concretos.
Esta política, em larga medida, de sobre-estima e de vaidade partidariza a administração pública e coloca-a ao serviço da nova presidente, como já esteve ao serviço pessoal de Lula. A abertura indiscriminada e sem critério discernível de novas embaixadas e consulados, à laia de grande potência para nada serve, se não se processar em nome de uma politica e em prol de uma estratégia (O Brasil tem embaixadas em todos os países das Américas, sem excepção, incluindo as ilhas das Caraíbas que têm de ser descobertas no mapa-mundi com a ajuda de uma lupa).  O mesmo se aplica mutatis mutandis à abertura de vagas em profusão para ingresso na carreira diplomática.
No período de Lula da Silva, o  Brasil sobre-estimou-se nos casos do Irão e das Honduras, mas, em contrapartida,  sub-estimou-se nas questões ambientais (onde é líder), na defesa dos direitos humanos e,\ na falta de dinamização dada ao Mercosul.
Lafer conclui: “A diplomacia lulista, em razão dos equívocos acima apontados, vem descapitalizando de maneira crescente o soft power da credibilidade internacional do Brasil, comprometendo, desse modo, o próprio prestígio do País. Esta situação vem sendo agravada pelo empenho do presidente em construir amigas parcerias com regimes permeados pela iniquidade do arbítrio (por exemplo, o Irã de Ahmadinejad). A continuidade desta diplomacia é indesejável. Não contribuirá para a sustentabilidade da ação externa brasileira num cenário que se avizinha como mais complexo, seja no contexto das tensões da nossa vizinhança, seja no campo multilateral, seja no jogo das grandes potências, no qual despontam as novas parcerias da China e da Índia com os EUA.”
Mas será que a política externa de Dilma será, realmente, uma evolução na continuidade?
Para Bárbara Ladeia (Brasil Económico), para além do prestígio que o Brasil beneficia como potência emergente e a que, naturalmente, será dado seguimento, Dilma diverge de Lula em relação ao Irão, porque, em seu entender, devia condenar o regime de Teerão por violações dos direitos humanos. Mas será que, na mesma linha, vai condenar Chavez e outros ou a solidariedade revolucionária vai falar mais forte e não terá outro remédio senão calar a boquinha?  
Por outro lado, ao substituir Celso Amorim por António Patriota, Dilma vai procurar controlar ao milímetro a politica externa e o Itamaraty. Aí não sobram quaisquer dúvidas. 
Noutro âmbito a parceria Sul-Sul - e aqui vêm ao de cima os temas da agenda pessoal de Dilma - vai constituir uma das grandes prioridades deste governo.
Mais preocupante – neste particular, surgem diferenças em relação ao anterior mandatário – é a atitude proteccionista em matéria de comércio externo ao arrepio das tendências planetárias, que Dilma Rousseff vai querer defender. Com efeito, como noticia o “Portugal Digital”:   "Técnicos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (do Brasil) examinam alternativas, como a imposição de barreiras tarifárias para conter importações consideradas prejudiciais para alguns setores da produção nacional. 

(...)O objetivo é recuperar a balança comercial positiva em relação a maior parte dos parceiros econômicos do Brasil.
(...)A lista de produtos sujeitos a essas restrições ainda não foi concluída, mas a ideia é priorizar as mercadorias que têm similares produzidos no Brasil ou que têm condições de serem fabricados no país".
Quais são os rumos possíveis da política exterior brasileira? Vejamos:
a)   O Brasil vai-se voltar para a Ásia, para além da China e Índia, também para a Indonésia, Malásia, Tailândia e Coreia.
b)   A América Latina, um Mercado em expansão e onde o Brasil dispõe de grandes trunfos – trata-se de uma orientação tradicional e que não diverge a seguida no passado próximo.
c)   África – uma actuação em vários azimutes dando, porém, prioridade às relações comerciais com a África do Sul, Angola e Nigéria.
d)   Europa já não figura na primeirissíma linha, mas  o relcionamento é, ainda, tido por relevante sobretudo em função da U.E. e dos principais países que a integram
e)   Meio-ambiente – trata-se de um sector fundamental, negligenciado por Lula e onde o Brasil pode e deve desempenhar um papel  de primeiro plano.
Os próximos encontros de A. Patriota em Davos com os seus homólogos da China, Índia, África do Sul, Austrália, Reino Unido, Suíça. Alemanha, União Europeia e EUA dão bem conta das orientações de Dilma em política externa.
A programada visita de Obama ao Brasil em Março, tal como anunciada no discurso do estado da União, “para forjar novas alianças para o progresso das Américas”, constitui uma aproximação aos EUA e culminará no branqueamento total de Dilma Rousseff. Assim são as coisas!
E as relações com Portugal e com a CPLP? Obviamente, secundárias, meu caro Watson, secundárias.

quinta-feira, dezembro 30, 2010


Poder vs proceso


para Diego Fernandez de Cevallos
por Luis Rubio
La crisis económica de los últimos años difícilmente pudo haber llegado en un momento más ominoso para el viejo orden internacional. Las instituciones, prácticas y relaciones de poder que surgieron con el final de la segunda guerra mundial y los acuerdos tomados en Bretton Woods colocaron a EUA en el centro del mundo y a las instituciones que normarían el funcionamiento de los mercados, el comercio y las transacciones financieras como el corazón de la interacción internacional. Sesenta años después las cosas se ven muy distintas. China se ha convertido en un formidable actor internacional, la economía de los llamados países emergentes ha cobrado una importancia inusitada y la mayoría de los desarrollados está en crisis. La vieja pirámide se ha invertido, alterando la realidad política internacional.
Ian Bremmer, autor de El fin del mercado, título un tanto exagerado dado su contenido, dice que el gran cambio se originó en la nueva correlación de fuerzas entre las naciones del orbe, pero responde más que nada a lo que el autor denomina “capitalismo de Estado”. Según Bremmer, un conjunto de países, la mayoría con gobiernos autoritarios o autocráticos, se ha distanciado de las reglas del mercado en las últimas décadas esencialmente gracias a la activa promoción de sus empresas paraestatales, reglas del juego discriminatorias y fondos soberanos de inversión. Con estos instrumentos, han logrado trastocar las instituciones que modularon las relaciones comerciales y de inversión a partir de los cincuenta y amenazan el funcionamiento del orden económico existente. Algunas de estas naciones, notablemente China, se han distinguido por la forma en que han conducido a sus economías y logrado elevadas tasas de crecimiento económico, en tanto que otras han logrado su poderío gracias a la posesión de amplios yacimientos petroleros, sobre todo Rusia y Arabia Saudita. El autor incluye a naciones tan diversas como Egipto, Brasil, India, Ucrania y Argelia en su argumentación, a lo largo de la cual trata de probar que el mercado ha funcionado muy bien y que el orden internacional corre el riesgo de colapsarse en los años por venir.
La verdadera tesis del libro es que el balance de poder a nivel internacional ha cambiado, que EUA ya no representa el poderío de antaño y que hay otras naciones, particularmente China, que se sienten con el mismo derecho de definir la forma en que debe administrarse la actividad económica. Es decir, que la antigua hegemonía estadounidense se ha venido abajo y que los valores que ese país promovía en la forma de economía de mercado y democracia han perdido legitimidad. La tesis no es novedosa pero no por eso deja de ser relevante.
Si uno analiza el argumento con detenimiento, la verdad es que la contraposición de posturas es interesante pero no siempre veraz. La operación eficiente de una economía no es algo fácil de lograr. Crear instituciones y reglas del juego eficaces para una economía de mercado requiere no sólo convicción sino también un gobierno capaz de hacerlas funcionar y eso, como hemos podido ver en México en los últimos años, no siempre ocurre. En adición a lo anterior, la democracia, complemento necesario de una economía de mercado, requiere en sí misma instituciones e incentivos que la hagan operar. En ausencia de éstos no es posible esperar que así funcione y que los actores políticos se comporten de acuerdo a sus reglas.
En adición a lo anterior, muchas naciones ni siquiera han pretendido construir una economía de mercado o un sistema político democrático. El grupo de naciones que cita el autor difícilmente se ha distinguido por sus intentos de construir una democracia funcional y, cuando lo intentaron, como en el caso de Rusia, el experimento duró apenas unos cuantos años. Es en este sentido que la verdadera tesis del libro resulta relevante porque entraña enseñanzas y consecuencias que no debemos ignorar.
Lo inusitado del ascenso de naciones como China en el concierto internacional no reside en el hecho mismo, pues la historia del mundo se ha caracterizado por transiciones de potencias una y otra vez. Lo interesante del ascenso chino es que se trata de una nación enorme con un gobierno centralizado y con visión estratégica que tiene la capacidad de trastocar no sólo el balance de poder internacional sino la forma misma en que funciona el planeta en ámbitos que van desde la economía hasta la forma de vivir. Otras naciones igualmente grandes, o más, como India quizá acaben teniendo un menor impacto porque se caracterizan por una estructura de poder interno más difusa, independientemente de que tengan la posibilidad de acabar siendo mucho más ricas. Además, y quizá más importante, el gran tema es menos quien asciende y quien desciende que cómo se da la interacción entre las naciones más poderosas.
China y EUA han tenido muchos años de cooperación pero en los últimos tiempos parecen estar avanzando hacia una ruta de colisión. Cuando uno escucha a los funcionarios chinos, el mensaje claro y llano es que no buscan una colisión sino, más bien, una ruta más equitativa en la definición de los principales temas que aquejan y caracterizan al mundo. China, nación orgullosa que se siente con derecho, no ve razón alguna por la cual tenga que sujetarse a las reglas del juego que estableció EUA como potencia dominante hace sesenta años o que su evolución interna, económica y política, tenga que asemejarse a la que se ha supuesto en el mundo occidental.
Por décadas, desde que China se reintegró al mundo y comenzó su apertura económica, la presunción en EUA era que el crecimiento de la economía llevaría a demandas de participación política lo que, a su vez, transformaría a esa nación en una democracia. Ese escenario puede seguir siendo posible, pero al día de hoy no cabe duda que el sistema político centralizado que funciona en torno al Partido Comunista retiene el poder político. Hasta ahora, China ha logrado eso en buena medida gracias a su obsesión por mantener elevados niveles de crecimiento económico y su disposición a cambiar lo que sea necesario, reformar cualquier estructura o institución, con tal de lograr el crecimiento. Esa estrategia, que contrasta dramáticamente con la de nuestros políticos y gobernantes, ha mantenido satisfecha a la población de esa nación.
El actual equilibrio de poder en China y entre China y el resto del mundo dependerá en buena medida de la forma en que EUA negocie y satisfaga a aquel gobierno o lo confronte y amenace. Cualquiera que sea la forma, lo que es indudable es que, como dijo Napoleón, una vez que despertó el gigante asiático, todo será diferente.