terça-feira, março 15, 2011


Sócrates criou deliberadamente a crise

Valerá a pena governar, na actual conjuntura? Talvez não. O Poder pelo Poder já não será apetecível. Com efeito as circunstâncias não ajudam nada, mesmo nada. Vai daí e sem dar cavaco a ninguém, nem ao próprio Cavaco e lança-se o PEC 4. Vamos lá ver como reagem, sabendo-se, de antemão, que vão reagir mal. What did you expect? O dever de informar urbi et orbi passou a segundo plano, quando é uma questão essencial, em democracia e muito especialmente para um Governo minoritário, como é o caso. José Sócrates pode ter obtido uma licenciatura por caminhos ínvios, mas não é tonto: sabia exactamente o que ia acontecer. E aconteceu. Assim sendo, a crise é artificial. Foi provocada, para mais uma vez, num golpe de teatro duvidoso e reles, Sócrates dramatizar tudo e armar-se em vítima, no estilo eu-bem-queria-mas-estes-senhores-é-que-apostaram-no-caos, então vão à vida que eu vou à minha.
Nesta matéria, tanto quanto em apercebo, existem 3 teses:
(i)             a crise foi intencional e provocada pelo PM;
(ii)            a crise foi involuntária, mas deve-se à inabilidade do Chefe do Governo e, em parte, às suas mudanças de humor;
(iii)          a crise resulta de uma “combine” entre PR e Passos Coelho, em que o primeiro provoca e o segundo pega na “deixa”.
Para mim é evidente que a primeira tese é a que corresponde à verdade. A sociedade portuguesa chegou já ao ponto de ruptura. Muitos (entre os quais este vosso criado) anseiam não por um mudança de governantes, mas por um verdadeiro câmbio de regime, uma vez que este decididamente se esgotou e, por conseguinte não serve. A mega-manif. de Sábado ilustra isto mesmo e Sócrates sabe-o (aliás, já o sabia). Não informar PR, parceiros sociais, parlamento, os próprios Governo e partido. É deliberado ou involuntário? É involuntário quando pelo alínea c) do nr. 1 do artigo 201.º da Constituição da República
“(Competência dos membros do Governo)

1. Compete ao Primeiro-Ministro:
 
c) Informar o Presidente da República acerca dos assuntos respeitantes à condução da política interna e externa do país»?
É involuntário quando a Oposição unanimemente condenou nos termos mais veementes o procedimento e o PM disse que submeteria o pacote ao Parlamento, sabendo antecipadamente e de fonte mais do que limpa que será chumbado?
Sócrates terá feito apenas um telefonema informativo para Passos Coelho, mas matéria desta importância e gravidade não teria de ser discutida e negociada antes?

A tese da inabilidade e das mudanças de humor (“amuos”) de Sócrates, bem como as suas vontadezinhas de pretenso régulo ibérico,  te-lo-ão levado involuntariamente a criar a crise, tese que é defendida por alguns, em especial por Marcelo Rebelo de Sousa, mas que, a meu ver, não pega. Este está, no fundo, a menorizar Sócrates fazendo-o mais burro do que realmente é. Ou seja, chega às seguintes conclusões: isto está tudo feito. Eu já combinei com o Barroso, com o Trichet e com a Merkel. Quem manda sou eu. Não tenho que dar satisfações a ninguém e muito menos a esse gajo que andou para aí a chatear-me. Eu não quero criar crises nenhumas, mas, porra, sou o PM da Tugalândia. Coelho que vá para a toca. Digam-me se isto tem alguma consistência ou se Sócrates é, de facto, estúpido?
A terceira tese é a do maquiavelismo político, de um pretenso “complot” à direita entre o PR e o Presidente do PSD. Cavaco desencadeia as hostilidades com o seu discurso de posse com uma mensagem subliminar bastante clara para toda a gente: tem a faca e o queijo na mão. Tudo isto vai mal. O Governo pode ir para a casa na primeira curva do caminho. Logo, atenção, muita atenção, ao que se segue. Passos Coelho aproveita a deixa,  é informado em cima da hora. Nada disto foi acertado, nem sequer falado. Bom, eis o pretexto: mata aí que eu esfolo depois. A tese é demasiado rebuscada para ser crível e os personagens são demasiado florentinos para serem verídicos.
Bom, resumindo e concluindo, a crise está criada, mas a solução não está à vista. Os velhos e obsoletos partidos políticos  vão movimentar-se, mas a sociedade civil, se estiver atenta, não deve perder esta oportunidade única. Isto agora tem de mudar a sério, chegou a hora. Yes, we can! Yes, we can! Yes, we can

domingo, março 13, 2011

Protesto da "geração à rasca" num país rasca


Pelas notícias a que tive acesso, a mega-manif. terá sido um sucesso. Rima e aparentemente é verdade. Não terão estado 300.000 pessoas em todas as cidades do país, como afirmam os organizadores/motivadores/animadores, mas, sem dúvida alguma, muitas dezenas de milhares de manifestantes, sobretudo em Lisboa e Porto – a este respeito, as fotos e os vídeos são eloquentes. Pelos relatos que me chegaram, terão estado umas 60 a 70.000 pessoas em Lisboa e umas 30 a 40.000 no Porto, o que bem feitas as contas, sem exageros, é muito bom, excedendo largamente as expectativas inicias, mesmo as mais optimistas.
De acordo com as notícias que me chegam, a  manif. possuiu duas outras características importantes e que contrariam algumas das minhas teses anteriormente expostas (reconheço-o, sem complexos, não me chamo José Sócrates Pinto de Sousa, nem sou político): (i) foi intergeneracional; (ii) a temida “colagem” dos partidos e das forças politicas não terá resultado inteiramente (mas há que acautelar o futuro e, nesta matéria, os perigos são mais que muitos).
Com efeito disse, aqui, mesmo, neste blogue, que se tratava “de uma manifestação de uma geração, portanto de um grupo social identificado e específico, e não da sociedade portuguesa no seu todo – por conseguinte, era uma manifestação circunscrita”. Não bem foi assim, na medida em que a participação se revelou mais abrangente do que se pensava, todavia o grosso da coluna foi constituído pelos jovens da dita “geração à rasca.” Essa participação inclusiva de outros sectores da nossa sociedade explica-se, creio eu, principalmente pelo cansaço, pelo desencanto e pela irritação e pelo sentimento revolta permanente em que vivemos todos. Como escrevi em post anterior e esta asserção afigura-se-me bem verdadeira: “Vivemos num país rasca e em que quase todos vivem à rasca. Esta é que é a verdade dos factos e todos nós sabemos disso.”
Foi, pois, esta a razão primordial para várias gerações se terem congregado  nas praças das nossas principais cidades numa rejeição unânime da situação em que vivemos e da classe política que a tal nos conduziu.
Outros factores terão contribuído para essa participação expressiva de vários sectores e gerações da sociedade portuguesa: antes do mais, o desastrado e surpreendente anúncio de mais medidas de austeridade na véspera, i.e. na 6ª feira de manhã, o que terá induzido uma dinâmica de mobilização acrescida sobretudo por parte das geralções menos jovens; a solidariedade com os jovens, a curiosidade e a novidade do fenómeno, a ânsia de mudança e a divulgação enorme que a manif. beneficiou nos meios de comunicação electrónicos e convencionais (no fundo factores que, de um modo ou de outro, acabam por estar inscritos na razão principal  ou que dela derivam).
Pena foi que os organizadores/motivadores/animadores tivessem definido a manif. como o fizeram. Se a tivessem aberto, à partida, irrestritamente, à participação de toda a sociedade, não teriam surgido as dúvidas que surgiram e que o Facebook e outros meios deram eco, porque eram as dúvidas de muito boa gente, incluindo o autor destas linhas. É certo que a “geração à rasca” era o sector-alvo, mas, repito-o, mais uma vez, é todo um pais rasca que está e continua a estar à rasca.
Por outro lado, a “colagem” dos partidos e de certas figuras e forças politicas foi tentada. Foi, de certo modo, detectável (ou seja, visível e audível, ma non troppo), sem embargo houve o bom senso (excepto no pequeno grupo da extrema-direita), de não aparecerem com as bandeiras e as palavras de ordem dos mandatários da partidocracia. Ainda bem. Também aqui me enganei. Dou a mão à palmatória. Resta saber qual será o aproveitamento político posterior deste imenso descontentamento popular, sabendo-se que PCP, BE, extrema-direita, Presidente da República e mesmo alguns sectores dos principais partidos, directa ou indirectamente,  apoiaram o comício.

Resta adivinhar-se o que se segue. Em post anterior referimos, com a devida ênfase o seguinte: “Atingimos uma encruzilhada a que o Poder político (leia-se, toda a classe política conhecida, sem excepções), que dispõe de pouca (ou nenhuma) credibilidade, é incapaz de responder. A questão principal é o próprio regime. É este que está em causa e sem qualquer possibilidade de redenção.”
Se o movimento se esgotou em 12 de Março, para pouco ou nada serviu e daqui a meia-dúzia de dias ninguém se lembrará do que se passou (aliás, o próprio Governo está muito mais preocupado com a greve das empresas de camionagem do que com a “geração à rasca”). Se, pelo contrário, o movimento pretende avançar por novas vias e por novas formas de luta, tem de organizar-se e preparar-se para o combate no terreno (protestar por protestar, já se ouviu, mas não chega). Ora, como o dissemos, isto pode ser o fervilhar, o cozinhar em lume brando de uma nova situação, mas por esta via atabalhoada e meio-anárquica não se chega lá. Alem disso, os oportunistas de meia-tijela vão tentar tirar o maior proveito possível da situação. Existem riscos sérios se nos armamos em aprendizes de feiticeiros.
Quanto aos Sábios governantes que temos, o  aviso à navegação está dado. Desconhece-se em rigor o que é que o poder político conta fazer. Provavelmente coisa alguma. Como já é habitual, espera que a tempestade passe e depois logo se vê. Mas também as coisas podem evoluir de modo diverso. 
Os passos seguintes podem consistir (o elenco de acções é meramente indicativo):
num movimento estruturado de contestação ao regime 
-    na moralização da vida política;
-       no combate à corrupção, ao nepotismo, ao clientelismo, ao poder dos lóbis;
-       no fim do despesismo do Estado, no seu emagrecimento consequente e na sua gestão rigorosa;
-       na redução drástica do sector empresarial do Estado
-       no termo definitivo dos políticos-gestores
-       na participação dos movimentos cívicos e das organizações de base no processo político
-       no fim da partidocracia, como a conhecemos;
-       na responsabilização dos deputados e de todos os corpos eleitos perante o eleitorado nacional e local (p. ex., ninguém poderá representar Viana do Castelo no parlamento e não ser responsável perante os vianenses);
-       na meritocracia, provida de regras transparentes e consequentes;
-       na criação de um grande movimento popular que congregue todas estas acções e outras tidas por adequadas, visando implantar a III República.

sábado, março 12, 2011


Diplomatas e equiparados



Do recente livro de Luís Mascarenhas Gaivão (“Um Adido Cultural no Luxemburgo”), que mão amiga acaba de mo fazer chegar, transcrevo, sem comentários, as seguintes passagens:

“Amigos, inimigos e amigos da onça
Ninguém tem apenas amigos, ninguém cultiva só inimigos, mas quando se é “equiparado a diplomata” – versão soft do conceito depreciativo, vulgarmente conhecido por DDM,  diplomata de merda -  que grande número dos diplomatas “genuínos” e encartados por autenticidade comprovada, made in Ministério dos Negócios Estrangeiros, alimentam em relação aos conselheiros e adidos das embaixadas,  há que proceder-se e tomarem-se atitudes revestidas do mais elegante trato, da mais apolínea educação, da mais requintada fineza, sempre e constantemente utilizando pinças de apurada diplomacia.
Estes procedimentos são obrigatórios para aqueles DDM serem minimamente tolerados no meio.
 Um verdadeiro e puro “equiparado a diplomata” deve chamar a si todos os requisitos supramencionados, procedendo em conformidade com os tão esmerados e elevados padrões de relacionamento da escola de educação e bom gosto, tendo o cuidado de nunca deixar em mãos alheias créditos pessoais porventura já alcançados junta das figuras e figurões do MNE.
O esquecimento desta obrigatoriedade de comportamentos que inclui o prestar vassalagem à fina-flor da diplomacia, as visitas ao MNE para se deixar ver e conhecer, o espírito serviçal (oposto ao espírito de serviço, pois este não interessa a quase ninguém) aos políticos, tudo isso entra em linha de conta  para que alguma tolerância seja displicentemente dispensada e ele lá possa continuar em funções.”

Luís Mascarenhas Gaivão “Um Adido no Luxemburgo”, Ed. Autor e Guerra e Paz, Editores, S.A., Lisboa, 2011.



Wikileaks e o "Expresso"



Vale a pena ler e reflectir um pouco sobre o que refere o blog “Do Portugal Profundo” sobre o assunto em epígrafe.
  
Ora, bem:
Num alegado contexto de total liberdade de acesso à informação, porque é que certas passagens dos textos dos cables (telegramas diplomáticos) da embaixada americana em Lisboa aparecem com tinta negra, omitindo nomes de personalidades, lugares, factos, comentários, etc.? Quem é que o “Expresso” quer proteger, para além da habitual nomenklatura do regime lusitano, que se adivinha mas que não é revelada? Então que liberdade é essa? Ou será que o Costa do “Expresso” está mais uma vez a fazer um favorzinho a este bando de cafajestes que se intitula governo?

O “Expresso” agora é receptador de mercadoria roubada, mas está a utilizar produtos furtados já em segunda mão , na medida em que  os comprou aos jornais dinamarqueses “Morgenpost” e “Aftenpost” e não directamente à “Wikileaks”. Haverá algum mérito em fazer uso de mercadoria roubada? Não existem padrões deontológicos? Mandamos às malvas os princípios? Já agora, ao abrigo da transparência e do direito à informação, que o jornal do Balsemeco nos revele quanto é que pagou
Ninguém denuncia Julian Assange nos seus termos exactos e justos, ou seja que roubou e que ganhou (muito) dinheiro com isso. Quanto? Por ora, poucos sabem, mas deverá andar na casa dos muitos milhões, atendendo à dimensão desta operação marcadamente comercial. Todavia, quando o dito senhor foi “de cana”, muitos choraram as habituais lágrimas de crocodilo e propuseram-se fazer uma pequena colecta para ajudar o pobrezinho, que não tinha cheta...Gimme a break, please!
Ninguém denunciou os órgãos de comunicação social ditos de referência (originariamente, “The New York Times”, “El Pais”, “Guardian”, “Le Monde” e “Der Spiegel”) por terem deliberadamente participado – e beneficiado – com este furto.

Não há moralidade, nem comem todos!  

quarta-feira, março 09, 2011


Chocolates de sangue 2/2


Em 2001, as plantações africanas de cacau foram acusadas de utilizarem trabalho infantil e tráfico de crianças, um processo em que estava implicada a multinacional Nestlé. Esta empresa estava mais uma vez no centro da controvérsia ao comprar cacau que teria sido produzido utilizando crianças-escravas da Costa do Marfim e do Gana. Na época, um programa da BBC mostrava que milhares de crianças em vários países da África Ocidental, incluindo o Mali, o Burkina Faso e o Togo eram compradas às respectivas famílias e e enviadas para a Costa do Marfim para serem vendidas como escravas nas roças de cacau.
"Estas crianças, de idades que variavam entre os 12 e os 14 anos (e por vezes, mesmo, mais jovens) eram forçadas a trabalhos manuais árduos 80 a 100 horas por semana, não percebendo qualquer salário, sendo subalimentadas e regularmente espancadas. No escândalo que foi suscitado pelas revelações da BBC, a Nestlé manifestou as suas “preocupações” pela utilização de mão de obra infantil, mas não estava em posição para confirmar que o seu chocolate derivava de fontes de trabalho escravo.
 Em 2005, uma ONG que se dedica aos direitos humanos intentou um processo contra as companhias Nestlé, Archer Daniels Midland e Cargill no Tribunal Federal de Los Angeles por envolvimento em tráfico, tortura e trabalho forçado de crianças que cultivam e recolhem sementes de cacau que aquelas empresas importavam de África. A acção judicial foi interposta com base em dois regulamentos federais: a Lei de Protecção contra a Tortura e a Lei de Reclamações contra a Tortura a Estrangeiros.
O Fundo Internacional para os Direitos Laborais (International Labor Rights Fund – ILRF) com sede em Washington, bem como uma firma de advogados do Alabama especializada em direitos civis, interpuseram uma acção em nome de um grupo de crianças malianas que foram objecto de tráfico do Mali para a Costa do Marfim e obrigadas a trabalhar 12 a 14 horas por dia, sem receberem qualquer salário, pouca alimentação, privadas de descanso e objecto de sevícias. As 3 crianças que testemunharam foram forçadas a fazê-lo de forma anónima por medo de represálias, nos locais onde trabalhavam.

Em 2009, a IRIN News do Bureau da Coordenação dos Assuntos Humanitários da ONU denunciava esta situação, adiantando que o aumento drástico da pobreza estava na razão directa do aumento do trabalho escravo infantil na Costa do Marfim. De acordo com fontes governamentais, calcula-se que um quarto de todas as crianças na Costa do Marfim trabalhem e 8 em cada 10 são exploradas. Desde “trabalho sexual” (sic), abate de árvores, queimadas, subida a árvores para a colecta do óleo de palma, transporte de grandes pesos, trabalho doméstico não remunerado. A nível nacional, o número de pessoas que subsiste com menos de 1,25 dólares por dia passou de 10% em 1985 para 49% em 2008, de acordo com os dados do Banco Mundial.

Conclusões:
  • O trabalho infantil, pelo menos da forma brutal em que é praticado nalgumas partes do mundo (ou seja, um regime efectivo e tangível de escravatura), designadamente na África Ocidental é por definição condenável.
  • Finalmente, a Nestlé, sem embargo da sua dimensão e da sua pujança, é uma empresa que tem de respeitar as leis e a ordem internacional. Não está, nunca esteve, nem estará, acima da Lei. O que nos quer justificar é pura música celestial. Interessa saber se somos ou não capazes de a pôr - e a muitas outras empresas - nos carris.




Ana Paula Zacarias em Brasília 


Parabéns à Embaixadora Ana Paula Zacarias nomeada para a chefia da Delegação da União Europeia no Brasil pela Alta Representante para as Relações Externas, Catherine Ashton, após – note-se bem – concurso público, o que e revelador da capacidade e qualidades da referenciada, que possui um currículo expressivo (Embaixadora na Estónia, nr. 2 na REPER, Vice-Presidente do Instituto Camões, Conselheira na Missão Portuguesa junto da UNESCO, assessora da Presidência da República)
Segundo os media, Ana Paula Zacarias é a primeira diplomata portuguesa a chefiar uma Delegação da União Europeia no quadro do novo Serviço Europeu para a Acção Externa. Mais cinco funcionários portugueses (que não diplomatas) chefiam outras tantas delegações europeias no mundo: Estados Unidos (esta por nomeação do Presidente da Comissão, Durão Barroso), Ucrânia, Venezuela, Camarões e Gabão (que também cobre S.Tomé e Príncipe).
A delegação em Washington  - um dos lugares mais importantes das representações externas da Comissão - é chefiada pelo antigo Chefe de Gabinete de Durão Barroso, João Vale de Almeida.
Comentando a nomeação, Pedro Lourtie, secretário de Estado dos Assuntos Europeus, disse ao “Expresso” de Lisboa que "o Brasil era uma das prioridades que Portugal tinha fixado neste arranque do Serviço Externo", pelo que "estamos mais do que satisfeitos". Para este lugar, o país concorreu diretamente com a Alemanha e, depois, com a Holanda e a Áustria.
Lourtie considerou que a nomeação de Ana Zacarias constituía uma “vitória da diplomacia portuguesa”, quando, no fundo, se trata de um sucesso pessoal, muito embora honre a carreira diplomática e o país.
No caso de Ana Paula Zacarias, afigura-se-nos que também  o lóbi lusitano terá funcionado, o que não aconteceu há uns meses atrás com Luísa Margarida Bastos de Almeida (actual embaixadora em Ankara), que, apesar dos seus vinte e muitos anos em Bruxelas e a sua senioridade, não conseguiu o almejado lugar, por não ser “adequada” para o lugar.
Portugal pretenderia para os seus diplomatas da sede (ou seja, das Necessidades) 3 possíveis postos: Brasília, Luanda e a Direcção de África, em Bruxelas. Angola constituiria, pois, a segunda prioridade, neste momento inalcançável, uma vez que a nomeação da referenciada e também de José Pedro Costa Pereira para a dita Direcção esgotou, por assim dizer, a quota “disponível” para Portugal. 
Recorde-se que foi durante a presidência portuguesa da União, em 2007, que a UE estabeleceu uma parceria estratégica com o Brasil, tendo organizado a primeira cimeira UE-Brasil.
A nosso ver, não houve neste caso feminismo (ou, se se quiser muito pouco) mas apenas mérito. Todavia, não se tratou de uma mera coincidência o facto de Catherine Ashton querer divulgar a nomeação da supracitada e também de Mariangela Zappia, como representante da Comissão Europeia na ONU em Genebra, no dia internacional da mulher 
Chocolates de sangue - 1/2



Sabia que mais da metade do cacau que se consome no mundo vem de África? Sabia que existem ali roças (quintas) onde trabalham cerca de 300.000 crianças dominadas pela influência das multinacionais e fora dos parâmetros do comércio justo? Provavelmente já ouviu de tudo isto, mas com alguma descrença.

A árvore Theobroma cacao, cacau, ou" Alimento dos Deuses "é uma planta originária da América do Sul que é"nativa” ao continente  americano e “estrangeira” em África. Esta última variedade, pelos seus componentes taninos e  preço mais acessível tornou-se no produto mais solicitado pela indústria alimentar ocidental, transformando a Costa do Marfim (38% do mercado mundial), Gana (19%), Nigéria (5%) e Camarões (5%) nos maiores produtores mundiais de cacau.

Em nossa opinião, os chocolates e bombons Nestlé são feitos de verdadeiro sangue negro. Com efeito o sabor doce do chocolate faz-nos esquecer o gosto amargo do seu fabrico. Todavia se você manifesta um mínimo de preocupação pela Justiça e pela Dignidade Humana, se estes conceitos ainda não estão ultrapassados, não passe adiante e leia o que se segue.
Como se sabe, o chocolate é um produto alimentar doce fabricado à base de uma matéria-prima: o cacau. O continente africano produz 80% do cacau que, de imediato, se distribui pelo mundo inteiro sob a forma de bombons, tabletes ou em pó de chocolate para apaladar o leite das crianças.
Para nos inteirarmos do processo de fabrico temos que ir a uma pequena esquadra de policia de uma qualquer aldeola do Mali, na África Ocidental. Aí, os arquivos sobre crianças desaparecidas amontoam-se interminavelmente sobre as mesas e as estantes. O chefe da policia local não tem quaisquer dúvidas sobre o o local onde foram parar as crianças. “Efectivamente, lá existe escravatura”, disse referindo-se ao país vizinho, a Costa do Marfim. “Os meninos tem de trabalhar duramente de tal forma que muitos adoecem ou morrem.” 
As crianças pertencem às regiões mais pobres do Mali. São filhos e filhas de vendedores ambulantes ou habitantes de favelas, cujos país os vendem por 30 dólares.
As crianças trabalham cerca de 12 hora diárias, utilizam ferramentas perigosas e estão expostas à manipulação de pesticidas


Algumas crianças têm menos de 11 anos de idade. São consideradas, para todos os efeitos, como prisioneiras nas plantações e são espancadas se tentam escapar. À maioria faltam-lhes dedos porque são obrigadas a a trabalhar jornadas de 14 horas com ferramentas perigosas e manuseando produtos altamente tóxicos como pesticidas. Após cada dia de trabalho devem arrastar sacos de 70 quilos de sementes de cacau até aos armazéns das plantações (este peso tem incidências no respectivo crescimento e produz deformações na coluna vertebral;  na adolescência  estas crianças serão irremediavelmente aleijadas). Se se atrasam no labor diário são agredidas. É melhor não fazer perguntas sobre as meninas.
Pensa-se que pelo menos 15.000 crianças trabalham nestas condições  na Costa de Marfim, produzindo o cacau que abastece pelo menos metade da procura de chocolate a nível mundial. A maior empresa neste ramo agro-alimentar é a Nestlé.

A organização "Save the children" estabeleceu um centro de acolhimento na fronteira para aquelas crianças que podem escapar das plantações. Até à data permanece vazio. O seu director, Salia Kante, tem uma mensagem para os consumidores:
"As pessoas que tomam esse chocolate estão bebendo sangue. O sangue de crianças que têm de carregar sacos de cacau tão pesados que lhes laceram os ombros"
Será por essa razão que as embalagens dos produtos Nestlé são vermelhas?”

Segundo o ex-primeiro-ministro marfinense, Pascal Affi N'Guessan, as grandes empresas fabricantes de chocolate só estão interessadas nos seus próprios lucros. A Associação para a defesa dos Direitos Humanos ILRF está convencida de que a Nestlé conhece o fenómeno, porque periodicamente visita as plantações para averiguar a qualidade do produto

Mas não acabam aqui as canalhadas. Em 2002, a Nestlé exigiu à  Etiópia, um país esgotado pela fome, seis milhões de dólares (uma migalha para a  Nestlé, visto que representa apenas 0.0007% dos  seus dividendos) para compensar a nacionalização em 1975 de uma sua empresa pelo regime pró-marxista daquele país, dessa época.

Além disso, a multinacional suíça foi muito criticada, por promover o consumo de leite em pó  em detrimento do leite materno para alimentação dos bebés, especialmente nos países do Sul, onde a água potável acaba por ser um luxo e o leite em pó mistura-se amiúde com água contaminada.

E na América Latina?

O Departamento Administrativo de Segurança (DAS) colombiano interditou no passado dia 22 de Novembro no departamento de Quindío 8.094 pacotes de 25 quilos de leite em pó "caducados desde há muito" que estavam a ser reembalados e rotulados com datas de produção falsas.

O leite em referência destinava-se à Venezuela. A este respeito, assim se pronunciou  o senado venezuelano:
...[manifesta]
el más enfático repudio a esta maniobra tramposa  de la transnacional Nestlé, felonía que empieza por importar leche del extranjero a Colombia, a pesar de que ésta empobrece y empuja hacia la ruina a los ganaderos colombianos, sigue por hacerle fraude a un país en donde lleva décadas sacando multimillonarias utilidades y concluye atentando de manera gravísima contra la salud de nuestras gentes, y especialmente de los niños.

Seguindo na Colômbia, a organização SINTRAINAL denuncia que a Nestlé se apoia se  em grupos paramilitares para intimidar e atentar contra os trabalhadores e os sindicalistas que protestam contra as degradantes situações de trabalho.

segunda-feira, março 07, 2011


Importações chinesas são dilema para Dilma

Relativamente ao título supra, do “Diário de Notícias” de Lisboa, de hoje, transcrevemos a seguinte notícia:
A invasão dos produtos chineses é, segundo o Financial Times, um dos maiores dilemas políticos da Presidente do Brasil, Dilma Rousseff.

As fantasias de carnaval que os foliões usam nesta época no Brasil são, na sua maior parte, feitas com materiais oriundos da China. Uma situação que não se verificava, por exemplo, há dez ou 15 anos.
Os produtos chineses, mais baratos 40% do que os brasileiros, estão a inundar cada vez mais o mercado para consternação dos produtores nacionais.
Dilma Rousseff, empenhada em melhorar a situação dos empresários e produtores brasileiros, não consegue para já ter uma resposta política para a situação sem melindrar o grande gigante asiático.

Portugal na encruzilhada (Adenda)


O facto do PCP ir oportunisticamente juntar-se à manifestação de 12 de Março, numa tentativa grosseira e desonesta de aproveitamento politico, a lembrar Maio de 68 em França, em que tentaram ingloriamente fazer o mesmo, seria mais uma razão para eu não ir, se acaso estivesse em Portugal na data em questão.
Entendo que não devemos ir por 3 razões de fundo:
a)    Porque o quadro não está ainda suficientemente maduro para garantir uma mudança de regime ou nem sequer apresenta quaisquer sinais ténues nesse sentido;
b)    Porque se trata de uma manifestação de uma geração, portanto de um grupo social identificado e específico, e não da sociedade portuguesa no seu todo – por conseguinte, é uma manifestação circunscrita;
c)    Porque existem forças politicas que, contrariando a espontaneidade e genuinidade da manifestação, estão a ir “à boleia” do protesto popular, procurando capitalizar em proveito próprio o descontentamento do Povão 

Fico(amos) à espera de melhores dias, que, certamente, virão.

domingo, março 06, 2011

Portugal na Encruzilhada (4/4)



Vi o último, o derradeiro, creio eu, “Plano Inclinado”(quem não o viu, pode vê-lo no “You Tube” - http://www.youtube.com/watch?v=bC1jp3wjmt0&feature=player_embedded - ou na página própria da Sic – http://sic.sapo.pt/programasInformacao/scripts/videoplayer.aspx?ch=plano-inclinado&videoId={BCA83B97-92CF-49E2-8E1B-EB51B7928B09}

 Algumas conclusões e ensinamentos podem-se extrair deste programa e que serão guia seguro para as nossas análises e para o futuro. Assim:

 a)  Tem de haver um grau mínimo de honestidade na política, ou seja certas verdades têm de ser ditas doa a quem doer. É no fundo o discurso Churchilliano do “sangue, suor e lágrimas” – não ganha  votos, mas é imprescindível num momento de crise grave. Nesta encruzilhada, o povo chegou a um ponto tal, em que está farto de mentiras e aceita as verdades, por mais duras que elas sejam. Mentir é pior. Revela-se totalmente contraproducente. Resta convencer Sócrates desta evidência.
b) O sistema pode e deve ser alterado. É difícil, mas é possível. Esta classe política tem de ser erradicada de vez. À direita, ao centro e à esquerda, é uma gente gasta, irreciclável e sem possibilidade de recuperação.
c) Os actuais partidos políticos não servem (nenhum deles).
d) Os partidos mais à esquerda (comunista e bloco de esquerda) utilizam um discurso anacrónico e ultrapassado, típico do século XIX. Se os partidos da alternância(PS, PSD, CDS) não servem, os da esquerda servem ainda menos.
e) O conceito marxista do centralismo democrático curiosamente é, hoje, apanágio dos partidos ditos de direita.
f) A maçonaria está em toda a parte e domina a vida política lusitana (à maçonaria poderíamos acrescentar os lóbis que são uma realidade incontornável e perigosíssima, desde o lóbi gay, à Opus Dei e aos lóbis económico-financeiros).
g) Os períodos de ordem nas contas públicas, de gestão eficiente e honesta foram os períodos ditos ditatoriais (o que confirma as teses já expendidas, neste mesmo blogue).

Conclusão:
Atingimos uma encruzilhada a que o Poder político (leia-se, toda a classe política conhecida, sem excepções), que dispõe de pouca (ou nenhuma) credibilidade, é incapaz de responder. A questão principal é o próprio regime. É este que está em causa e sem qualquer possibilidade de redenção. Podemos afirmar que o ciclo se esgotou.

A situação económico-financeira do país é gravíssima. Ninguém quer que nos venham ditar ordens na nossa própria casa, mas ao mostrarmo-nos incapazes de nos governarmos, de que outra sorte estamos à espera? Se a vinda do FMI é inevitável, porque é que estamos continuamente a encanar a perna à rã? Se não é, porque é que não o assumem de uma forma clara e sem ambiguidades? Este tem-te-não-caias é que não interessa a ninguém.
 A situação social atingiu os limites do suportável e está perigosamente a descarrilar em todos os sentidos. O empobrecimento galopante da população é um facto indesmentível. Estão à espera de quê? Que os descamisados desçam à rua? Que se assalte as Tulherias?

Estes miseráveis tiraram-nos tudo, inclusive a esperança. 

O sentimento de revolta é grande e assume dimensões perigosas. Que tremam os que estão no poleiro e os que pensam em para lá ir!

Mas, pergunto eu e a propósito da Mega-manif:

Vamos desfilar a 12 de Março, à rasca com os rascas e excluindo os que não são nem uma coisa, nem outra? Porque diabo é que fazem disto uma cruzada de um grupo, de uma geração? Vamos para a rua, como pretendem alguns para, de uma forma inorgânica e anárquica protestar, por protestar; protestar, porque estamos fartos e já não aguentamos mais?

E qual é o resultado prático?
Pode redundar tudo em águas de bacalhau e de nada serviu andar a desfilar para as câmaras  da RTP, SIC e TVI, o que, bem feitas as contas, é o cenário mais provável. Passadas duas semanas, ninguém sequer se lembra do que se passou, se é que se vai passar algo de relevante.
Pode, porem, começar a fervilhar alguma coisa, mas que, ninguém se iluda, será rapidamente aproveitada por todos os oportunistas de meia-tijela de que o nosso país é pródigo.

Maio de 68 serviu para alguma coisa? Que eu saiba para nada.
Na Rússia de 1917 aí, sim, serviu, mas foram os bolsheviks organizados que  se aproveitaram a seu favor do descontentamento popular russo.

O que é que queremos outra vez um Conselho da Revolução fardado ou os anarcas ao Poder?
Enquanto as coisas não estiverem maduras; enquanto não se vislumbrar pelo menos um embrião de organização e enquanto não se debaterem, com um mínimo de consistência, algumas ideias, não vale a pena ir em futebóis, pelo contrário saem-nos as contas completamente furadas.

 Temos de o fazer. É bom que as consciências despertem. Mas a hora ainda não chegou. É preciso que esta merda apodreça ainda mais e que emirjam verdadeiras alternativas.
Infelizmente, ainda não estamos lá...

Portugal na Encruzilhada (3/4)

         O economista Álvaro dos Santos Pereira, professor da Simon Fraser University em Vancouver (Canadá) apresenta-nos no seu blogue (http://desmitos.blogspot.com/) uma série de gráficos que ilustram bem a situação actual do nosso país em termos de indicadores macro-económicos, comparando-os com os do passado, de que passo, apenas a resumir as principais conclusões:
1) A média do crescimento económico é a pior dos últimos 90 anos
2) A dívida pública é a maior dos últimos 160 anos 
3) A dívida externa é, no mínimo, a maior dos últimos 120 anos (desde que o país declarou uma bancarrota parcial em 1892) 
4) O desemprego é, no mínimo, o maior dos últimos 80 anos. Temos 610 mil desempregados, dos quais 300 mil são de longa duração
5) Voltámos à divergência económica com a Europa, após décadas de convergência 
6) Vivemos actualmente a segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos 
7) Temos a taxa de poupança mais baixa dos últimos 50 anos (in http://desmitos.blogspot.com/2011/02/razoes-para-censura.html)
Nem só de pão vive o homem. Dizem-me que há muito mais para além da economia e há que se ter em conta outras dimensões. Por exemplo e em brevíssima síntese:

a) As liberdades de expressão e individual (poder falar livremente e sem entraves, dizer uma larachas, ter os media que temos, permitir o casamento dos gays, etc)
b) Educação, sim, temos muitas licenciaturas e licenciados ( a maioria dos quais sem emprego ou com uma profissão aleatoriamente remunerada, quando muito a nível da mera subsistência), mas a qualidade de ensino melhorou? Todos sabemos de ginjeira a resposta a esta pergunta. Com esse superavit de licenciados, o certo é que a produtividade em nada beneficiou (continua exactamente na mesma) e o desemprego continua  a aumentar.
c) Saúde, é um direito constitucional. Em teoria todos têm acesso gratuito, mas será mesmo assim? Apesar do nosso honroso 6º lugar à escala mundial, em termos de cuidados primários de saúde, dispomos de um sistema extremamente oneroso, a que este governo e os que se lhe seguirão querem pôr termo. Trata-se, com efeito, do sistema de saúde mais caro da Europa (per capita e em % do PIB). Como é que se desata o nó górdio?
d) Justiça, existem vários países do 3º mundo que nos dão lições nesta área. É difícil fazer-se pior e, nesta matéria, como dizia, há tempos, Antóno Barreto, diferentemente da Saúde ou da Educação, não existem alternativas (naqueles sectores pode-se pagar e obter melhores serviços, na Justiça é impossível, só pagando a pistoleiros). A administração da Justiça é o veradeiro cerne da questão, porque não funcionando põe em causa todo o sistema. 
e) Solidariedade, pois agora temos o Estado social...mas parece que só deu para alguns, para a geração dos “novos amanhãs que cantam” que se queixava da injustiça social. Vai daí e montou um sistema que consumiu os recursos da geração anterior e da seguinte em beneficio próprio. Já papou as reservas acumuladas ao longo de 40 anos de equilíbrio das contas públicas, as receitas (roubo?) das privatizações  aos fascistas e capitalistas barrigudos de outrora, a lotaria Europeia e outras amenidades e ainda assim deixa uma dívida que hipoteca definitivamente esse mesmo sistema para o futuro. Justo... sim, senhor... podem limpar as mãos à parede...
e) A Imagem exterior, as nossas principais referências já não são a Amália e o Eusébio, mas, agora,  o Cristiano Ronaldo 7 e o Mou.  

É forçoso dar a volta  a isto!

sexta-feira, março 04, 2011

Portugal na encruzilhada (2/4)



Durante anos e anos, os nossos dirigentes, a classe política e, no geral, as chamadas elites nacionais, deliberada e acintosamente  escamotearam-nos os factos porque não lhes interessava que a verdade emergisse porquanto contrariava frontalmente as suas teses,  criando-se, então, um conjunto de mitos descabelados, inconsistentes e imbecis, para justificarem o seu pensamento e as suas acções. Em suma, mentiram-nos.
À semelhança de outros, desde os bancos da faculdade e, em especial, no período pós-abrilino, deparei com artigos de jornais e de revistas, já antigos, com dados estatísticos e gráficos que contrariavam o pensamento dominante. Jovens economistas, historiadores e outros estudiosos, em conversa amena, levantaram-me uma ponta do véu, mas à época tudo isto era politicamente incorrecto (leia-se: altamente incorrecto, um verdadeiro anátema em relação ao pensamento assumido do mainstream dominante). Vivia-se, primeiro, a euforia dos 3 D’s (“democratizar, descolonizar, desenvolver”), depois os fundos de pré-adesão e de adesão à então C.E.E., a política do betão, em seguida a Expo-98, a entrada no Euro, os governos alegadamente dialogantes “à la escandinava”  e por aí fora. Era, pois, uma heresia extrair a conclusão óbvia desses dados.
Por outras palavras, em termos de produtividade, riqueza e endividamento assistiu-se:
- a um crescimento ténue mas constante de 1880-1910
- a um caos total, em termos de indicadores de riqueza, que nos fez recuar 30 anos, de 1910-1926 (I República)
- a um maior período de convergência com a Europa nos últimos 200 anos, de 1926 a 1974 (salazarismo-caetanismo)
- finalmente, se tivermos em conta as projecções até 2015, a fase que se avizinha,  consistirá num período de divergência em que estaremos em termos relativos face à U.E. numa situação bem pior que a de 1974.

Para que as coisas se tornem claras, não sou um defensor de ditaduras, e apenas admiro Salazar, como figura histórica, nos exactos termos dos seus êxitos e dos seus malogros, dos seus méritos e dos seus defeitos, num período perfeitamente balizado no tempo e no da nossa memoria colectiva, mas os dados referenciados, fazem-me pensar se, com efeito,  somos uma sociedade suficientemente madura para termos uma democracia nos moldes actuais.

Já agora para que não subsistam dúvidas por parte de quem me lê, consultem-se as seguintes páginas Web:
·      “Infografia: 100 anos de finanças públicas” (http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=447085)
·      “Evolução do PIB per capita na Europa – 1926-1974” (http://pedroarrojagrupofinanceiro.blogspot.com/2009/01/evoluo-do-pib-per-capita-na-europa-1926.html)

·      “Metade dos portugueses acha que o país está pior que antes do 25 de Abril” (http://aeiou.expresso.pt/metade-dos-portugueses-acha-que-o-pais-esta-pior-que-antes-do-25-de-abril=f626638)

·      “Razões para a censura” (http://desmitos.blogspot.com/2011/02/razoes-para-censura.html)
Portugal na encruzilhada (1/4)


Raras vezes menciono a política interna do rectângulo. Hoje é um desses dias e mais se seguirão, porque o tema é obsessivo, omnipresente e angustiante. Sim, fujo deliberadamente aos temas e objectivos anunciados deste blogue, mas não me posso calar. Não sou demagogo e o populismo arrepia-me. Porém, não tenho medo. Nunca tive. Chegámos ao ponto zero da política, ao nadir da esperança, ao fundo do poço sem água da nossa existência. Com esta gente não vamos lá. Com estes governantes não nos safamos. Com este bando de malfeitores o nosso destino é a merda, a merda pura e sem subterfúgios, a merda abrangente, putrefacta e cada vez mais abundante que caracteriza este país.  Produto de exportação que fabricamos facilmente e em quantidade mas que, como é óbvio, ninguém compra.
Fomos iludidos, ludibriados, traídos por este governo e por todos os que o precederam,  desde o 25 de Abril. Todos sabemos disso. Só que poucos se atrevem a dizer o que lhes vai na alma e não se atrevem a aventar soluções para sairmos do atoleiro. À boa maneira lusitana, resmungamos passivamente em voz baixa, de modo desorganizado e tonto, sem objectivos e sem “élan” vital. Nada, mas nada,  nos faz escapar deste estado geral de carneirismo ou de bovinidade em que vegetamos. Dizem que somos sonhadores, pouco realistas e pouco activos. Creio que não. Gostamos é de ser escravos. Vivemos bem com o chicote. Numa palavra, cantamos à meia-luz mais um faduncho da “desgraçadinha”, em que “ilusão” rima com “resignação”. 
Basta olharmos à nossa volta: na Grécia por falcatruas e aldrabices, que levaram o actual governo a apertar a tarracha até aos limites do suportável, o Povo já desceu à rua várias vezes para pintar a manta; em França, ao passar-se a idade da reforma dos 60 para os 62 anos, vai daí e parte-se a loiça. Em Portugal, timidamente não se faz nada ou quase nada e o pouquíssimo, que, às vezes, se chega a fazer, é quase sempre a pedir desculpa, envergonhadinhos e tristonhos – “Bom, tudo isto é uma maçada. Desculpem lá o mau jeito, mas tivemos de dizer alguma coisinha. Nós nem queremos fazer mal a ninguém”.
Temos de preconizar uma ruptura total, definitiva, imediata, já, um imperativo corte com o passado próximo.
Todavia, esse cesura não é seguramente a 12 de Março que a vamos concretizar. É apenas uma geração que se diz à rasca ou um país que vive há décadas à rasca e que não quer viver à rasca? Passámos da geração rasca para a geração à rasca e tudo isto se circunscreve a um problema geracional e de rasquice?
Não. Vivemos num país rasca e em que quase todos vivem à rasca. Esta é que é a verdade dos factos e todos nós sabemos disso.