terça-feira, março 29, 2011

FMI e Grécia

Circula na Net um mail que refere as principais medidas postas em vigor pelo Governo helénico. Como já o recebi pela quarta vez, vou transcrevê-lo para vossa leitura e apreciação, antecedido de quatro pequenos comentários e esclarecimentos da minha lavra:
(a)                    algumas das medidas implementadas já o foram em Portugal - por exemplo, o IVA já está a 23%; os impostos que presentemente recaem sobre os automóveis são já muito superiores aos que se cobram na Grécia (IA acrescido de IVA o que consiste numa dupla tributação abusiva e ilegal, quer perante o direito interno, quer comunitário)
(b)                    O salário mínimo grego (740 Euros) é muito superior ao lusitano (485). Os jovens em regime de trabalho precário vão receber 592 Euros/mês e os muito jovens (15 a 18 anos) 518, o que não tem termo de comparação em Portugal, com ordenados bem mais miseráveis. O regime de recibos-verdes e a precariedade lusitana são bem piores.
(c)                     Os gregos recebiam não 14, mas 15 salários anuais (Natal, Férias e Páscoa)! Viva o luxo!
(d)                    A pensão mínima garantida em terras do verdadeiro Sócrates é de 360 Euros. Alguém quer comparar com as pensões tugas?
Podíamos continuar com um  extenso rol de comentários, mas deixo isso ao cuidado dos leitores e a ulteriores posts.
Segue, pois:
“PARA QUE CONSTE…

Na Grécia, o FMI deu nisto. Com as devidas proporções preparem-se para o que nos vai sair na rifa.
Sector Público
•                Corte do subsídio de férias e natal para todos os empregados públicos que ganhem mais de 3000€/mês brutos. Quem ganhar menos de 3000€ vai receber 250€ pela Páscoa, 250€ no Verão e 500€ no Natal; 

•                Reduzir os subsídios de 8 a 20% no sector público estado e 3% nas empresas públicas

•                Uniformizar todos os salários pagos pelo estado;

•                Congelar todos os salários do sector público até 2014.

 
Sector Privado
•                Chegou-se a um acordo colectivo, assinado em 15 de Julho, pelo qual os empregados do sector privado na Grécia continuam a receber o seu salário anual em 14 pagamentos (chegou a ser sugerido passar para 12 pagamentos). Não houve aumentos em 2010 e prevê-se aumentos de 1.5 a 1.7% para 2011 e 2012 - muito abaixo da inflação actual que ronda os 5.6%.

•                Imposição de um imposto aplicado uma única vez às empresas que tenham tido mais de 100 000€ de lucro em 2009:
◦                                  100 000 a 300 000: 4%;
◦                                  300 001 a 1 000 000: 6%;
◦                                  1 000 001 a 5 000 000: 8%;
◦                                  Mais de 5 000 000: 10%.

•                Alargar os limites pelos quais os empregadores podem despedir funcionários:
◦                                  Empresas com até 20 empregados: sem limite;
◦                                  Empresas com um número de empregados entre 20 e 150: até 6 despedimentos por mês;
◦                                  Empresas com mais de 150 empregados: até 5% dos efectivos ou 30 despedimentos por mês.

•                Redução das indemnizações por despedimento, que também poderão ser pagas bimensalmente;

•                Pessoas jovens, com menos de 21 anos podem ser contratadas durante um ano recebendo 80% do salário mínimo (592€). O pagamento da segurança social também será apenas de 80% e findo o ano de contrato têm direito a ingressar nos centros de emprego;

•                Pessoas com idades entre os 15 e os 18 anos podem ser contratadas por 70% do salário mínimo, o que dá 518€;

•                Os empregados considerados redundantes não podem contestar o despedimento a menos que o empregador concorde;

•                Empregados pela primeira vez, com menos de 25 anos, podem ser pagos abaixo do salário mínimo;

•                Pessoas que auto empregadas com OAEE (sistema de seguro para empresários em nome individual), que por qualquer motivo não tenham trabalho, são cobertos pelo seguro durante até dois anos desde que:
◦                                  Tenham trabalhado um mínimo de 600 dias, mais 120 por cada dia acima dos 30 anos até terem chegado aos 4500 dias ou 15 anos de trabalho;
◦                                  Não estejam segurados por um seguro do sector público.

•                Liberalização das profissões ou sectores fechados (são aquelas profissões ou sectores que necessitam de autorizações do estado ou que estão altamente reguladas, tais como notários, farmácias, cirurgiões, etc). Esta medida não foi implementada dado que há processos a decorrer no Tribunal Europeu;

•                Cancelar o segundo pagamento de pagamentos de solidariedade (NT: não sei muito bem a que se referem estes pagamentos.);

•                Aumentar as contribuições para a segurança social em 3%, tanto para empregados como empregadores.
Pensões/Reformas
Notar que a reforma do sistema de pensões já tinha sido discutida muito antes da entrada do FMI, mas nunca tinha sido implementada. A Grécia tem uma percentagem desproporcionada de população idosa, cerca de 2.6 milhões e uma população activa na ordem dos 4.4 milhões, isto para uma população total de 11.2 milhões. Isto obriga o estado a contrair empréstimos para puder efectuar os pagamentos mensais. 
A 8 de Julho aprovou um conjunto de princípios depois de terem sido efectuadas mais de 50 emendas à lei. As medidas mais importantes foram:
 
•                Cortar os subsídios de férias e natal para todos os pensionistas que recebam mais de 2 500€/mês brutos. Aqueles que ganhem menos de 2500€ vão receber 200€ pela Páscoa, 200€ pelo Verão e 400€ no Natal;

•                Cortar os subsídios de férias e natal para todos os pensionistas com menos de 60 anos, excepto para aqueles que tenham o número mínimo de anos de contribuição, tenham menos dependentes ou estudantes com menos de 24 anos a viver na mesma casa;

•                Todas as pensões congeladas até 2013;

•                Calculo das pensões tendo em conta toda a carreira contributiva. Vai estar em vigor um sistema de transição até 2015;

•                Passagem da idade de reforma no sector público e privado para os 65 anos;

•                Ajustes da idade de reforma tendo em conta a esperança média de vida a partir de 2020;

•                As pessoas podem-se reformar a partir dos 60 anos com penalizações de 6% por cada ano, ou aos 65 anos com pensão completa depois de 40 anos de serviço. A partir de 2015 ninguém abaixo dos 60 se poderá reformar;

•                Os trabalhadores que tenham trabalhos de desgaste rápido podem reformar-se a partir dos 58 anos (antes era 55) a partir de 2011;

•                Desconto para um fundo de solidariedade social (LAFKA), a ser feito pelos pensionistas que ganhem mais de 1400€, a partir de 1 de Agosto de 2010:
◦                                  1401 a 1700: 3%;
◦                                  1701 a 2300: 5%;
◦                                  2301 a 2900: 7%;
◦                                  2901 a 3200: 8%;
◦                                  3201 a 3500: 9%;
◦                                  Mais de 3500: 10%.

•                Aumento da idade de reforma para mães trabalhadoras:
◦                                  No sector privado: para 55 (era 50) em 2011, 60 em 2012 e 65 em 2013;
◦                                  No sector público: para 53 em 2011, 56 em 2012, 59 em 2013, 62 em 2014 e 65 em 2015;
◦                                  Com três filhos: 50 em 2011, 55 em 2012 e 60 em 2013.

•                Retirada da pensão aos ex-empregados públicos que sejam apanhados a trabalhar e tenham menos de 55 anos; Corte em 70% se tiverem mais de 55 anos e se a pensão for mais de 850€/mês. A partir de 2011;

•                Limitar a transferência de pensão de pais para filhos segundo critérios de idade e rendimento, o que inclui o pagamento de 26 000 a filhas divorciadas ou solteiras de empregados bancários e empregados públicos. Se os filhos podem receber duas destas transferências, apenas receberão uma delas, a maior, a partir de 2011;

•                A pensão completa pode ser transferida para viúvas(os) se a data da morte ocorreu após cinco anos de casamento e o cônjuge vivo tem mais de 50 anos e se certos parâmetros de rendimentos são cumpridos. No entanto, durante os primeiros três anos após a morte os pagamentos serão retidos;

•                Estabelecimento de uma pensão mínima garantida de 360€;

•                As pensões não devem exceder 65% do rendimento auferido enquanto se trabalhava (anteriormente este número podia chegar aos 96% baseado nos últimos anos de trabalho e nos mais bem pagos);

•                Os que não pagaram segurança social podem receber a pensão mínima desde que tenham mais de 65 anos, não tenham rendimentos e que vivam há mais de 15 anos na Grécia;

•                Fusão dos 13 fundos de pensão Gregos até 2018. Os fundos dos trabalhadores por conta de outrem, agricultores, empresários em nome individual e trabalhadores do sector público, serão integrados na segurança social até 2013;

•                Reduzir o número de fundos que servem os advogados, engenheiros, jornalistas e médicos;

•                Reforma completa das condições de reforma dos militares e forças de segurança o que inclui aumentar a idade de reforma e a remoção de bónus especiais;

 
Impostos
•                IVA: todas as taxas de IVA foram aumentadas 10%: 5 para 5.5%, 10% para 11% e 21 pra 23%;

•                Imposto sobre tabaco, bebidas alcoólicas e combustíveis: imposto adicional de 10%;

•                Imposto em automóveis de luxo (novos e usados): 10 a 40% baseado no valor em novo e no valor de mercado;

•                Publicidade na TV: toda a publicidade na TV está sujeita a um imposto de 20% a partir de 2013;

•                Imposto especial de 1% para aqueles que tenham um rendimento líquido de 100 000€ ou mais.”


Pergunta que se impõe para finalizar:

            Quem tem medo do Lobo Mau?


 

Geração à Rasca (Mia Couto)

O escritor moçambicano Mia Couto, escreveu o texto que se segue que está a ter larga difusão na Net e que me chegou às mãos recentemente, faço-o acompanhar de um breve comentário anónimo, mas certeiro, creio que já publicado num blogue da Tugalândia que igualmente recebi.
Passo a transcrever:
“Um dia, isto tinha de acontecer. 
Existe uma geração à rasca? 
Existe mais do que uma! Certamente! 
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa 
abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes 
as agruras da vida. 
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar 
com frustrações. 
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também 
estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. 
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância 
e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus 
jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos. 

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a 
minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) 
vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 
1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. 
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram 
nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles 
a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes 
deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de 
diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível 
cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as 
expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou 
presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada. 
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o 
melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas 
vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não 
havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado 
com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes. 

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A 
vaquinha emagreceu, feneceu, secou. 

Foi então que os pais ficaram à rasca. 
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem 
Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde 
não se entra à borla nem se consome fiado. 
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar 
a pagar restaurante aos filhos, num país onde  uma festa de 
aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a 
pais. 
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e 
da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que 
os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, 
nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração. 

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter 
de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e 
que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm 
direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, 
porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, 
querem o que já ninguém lhes pode dar! 

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo 
menos duas décadas. 

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados. 
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por 
escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na 
proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que 
o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois 
correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade 
operacional. 
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em 
sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a  informação sem que isso 
signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas 
competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere. 
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por 
não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração 
que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que 
queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a 
diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que 
este, num tempo em que nem um nem outro abundam. 
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo 
como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as 
foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras. 
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não 
lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. 
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada. 
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de 
montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o 
desespero alheio. 


Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e 
inteligência nesta geração?

Claro que há.
Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos! 
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no 
retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e 
nem  são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como 
todos nós). 
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados 
pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham 
bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados 
académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos 
que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, 
oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a 
subir na vida. 

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos 
nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares 
a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no 
que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida 
e indevidamente?!!! 

Novos e velhos, todos estamos à rasca. 
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens. 
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme 
convicção de que a culpa não é deles. 
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem 
fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e 
a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. 
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. 
Haverá mais triste prova do nosso falhanço? 
Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de 
uma generalização injusta. 
Pode ser que nada/ninguém seja assim.
 Mia Couto”


Comentários:

"Será que isto é assim?
NÃO, NÃO É ISTO MESMO!
Não estou minimamente de acordo. Não me parece que minimizar ou, mesmo, escamotear um problema real e pungente da nossa sociedade conduza aonde quer que seja. Haverá, certamente, muitos jovens da chamada geração à rasca, da qual não faço parte, diga-se de passagem (estou à rasca, como a maioria dos portugueses,  mas por outras razões), que se inscrevem no segmento dos privilegiados e que beneficiaram de todas as benesses e de todas as mordomias, mas a esmagadora maioria não. Todos sabemos que isso é verdade.
Quando mais de um quarto de milhão de pessoas de todas as idades e condições sociais vem para a rua berrar em incomensuráveis decibéis que está farta desta trampa e que está à rasca, bem pode meter Mia Couto o dedo da escrita no cú e chupá-lo para ver a que sabem as suas ideias e pregações de merda.
Mas porque carga de água é que um moçambicano nos vem pregar lições de moral? Ele que se preocupe com os problemas que tem na sua terra e que não são poucos do que vir hipocritamente com a sua croniqueta presunçosa  dar-nos conselhos, que dispensamos, como eles, moçambicanos, independentes que são, dispensam, certamente, os nossos.
O que a geração à rasca e todos os enrascados deste país - quase 10 milhões  de lusitanos de boa cêpa - querem é uma verdadeira mudança, mudar de sistema e de regime político, fazer a verdadeira revolução que ainda não chegou, pôr termo à corrupção, ao compadrio e ao nepotismo, acabar com a minha geração e com a seguinte que irresponsavelmente, isso, sim - reconheço-o, sem complexos -, conduziram o país ao poço sem fundo em que se encontra.
Queremos de facto outra coisa, queremos que a voz da cidadania se faça ouvir, que os sentimentos genuínos dos que sofrem se façam sentir, mas para tal não precisamos de lições de moral dos estrangeiros, ainda se tivessem algum dinheiro para acudir às nossas depauperadas bolsas, mas, como bem sabemos, no caso vertente, nem isso.     Então, calem-se, de vez. "

 Com uma ou outra ressalva, subscrevo quase na íntegra o comentário supra. 
Se o país está à rasca quem é que não está à rasca?

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domingo, março 27, 2011

Londres - Manif. contra os "cortes": 66 feridos e mais de 200 detidos


Ah, grande democracia britânica que dá sempre cartas a toda a gente! Na manif. de sábado, em Londres (anti-cuts rally), 250.000 pessoas (tantas como a dos à rascas em Portugal), que se saldou por 66 feridos e 214 detenções, foi interessante ver o "civismo" dos soberbos ingleses. Gostei de observar aquelas investidas contra os bancos e as companhias de seguros em que tudo se partia à paulada e à pedrada. Gostei de ver a passividade da polícia. Assim é que é, não há cães, nem cassetetes, nem carros de água, nem nada disso, é fartar vilanagem. Querem quebrar a loiça, pois que quebrem que o contribuinte paga!
Aqui, neste país periférico, pobre, endividado e desgraçadinho foi - e é - uma sensaboria: a manif. dos rascas e dos à rasca, com jovens, criancinhas de colo e velhinhos, não deu nada, apesar de ter estado para lá uma salada monumental (extrema-esquerda e extrema-direita, gajos que queriam a legalização da marijuana, maricada q.b., feministas, reformados à beira de um ataque de nervos, enfim de tudo um pouco...); depois a dos professores no mesmo dia (não se passou nada!); na semana a seguir, a da CGTP (nada houve!); tem havido greves numa base diária (nada a registar, excepto atrasos e outros pequenos inconvenientes). Somos, de facto, uns tristes, uns fadistas pindéricos. Devíamos era aprender com os ingleses. Que diabo, não temos tomates ou o que é isto? Então,  ninguém, mas mesmo ninguém partiu uma montrazinha sequer? Não há montras para escavacar? É por estas e por outras que não temos o verdadeiro espírito europeu. Os ingleses foi o que agora se viu. Os gregos estão fartos de fazer das suas e outro dia até iam queimando polícias vivos. Os franceses pintam a manta à menor coisinha. Não, os tugas são mesmo uns terceiro-mundistas. Não sabem fazer as coisas à europeia.
Dizia-me um inglês, meu amigo, a propósito da manif. de Londres: "That was an un-english atitude". Ao que lhe respondi: "No my friend,  correct me if I am wrong, it was very, very English-like".    
Marcelo Caetano 

Afinal não houve desmarcelização, nem des-salarização do regime  ou serão apenas legítimas saudades do antigamente? Mão amiga fez-me chegar esta foto de uma rua, nos arredores de Lisboa, com o nome do falecido professor Marcelo Caetano, último Presidente do Conselho (Primeiro-ministro) do regime deposto em 25 de Abril de 1974. Só que não sei onde fica, porque me omitiram o nome da povoação onde se encontra. Um doce a quem adivinhar...E já agora, haverão mais exemplos?
Um pequeno comentário: agora que tanto se fala na necessidade de mudança de regime querem reeditar ou recauchutar  o Estado Novo?

quinta-feira, março 24, 2011

God save Europe's gracious Queen! Viva a sereníssima  rainha da Europa!



Manifestando-se "grata" ao primeiro-ministro português pelo trabalho feito na consolidação das contas públicas, Angela Merkel  lamentou que as novas medidas de austeridade não tenham sido viabilizadas pelo Parlamento, criticando implicitamente os partidos da Oposição lusitana
Segundo os relatos dos media, a chanceler alemã em declarações à agência de informação financeira Bloomberg, disse estar "grata a Sócrates" por tomar a responsabilidade das contas públicas do seu país.  A líder alemã lembrou que as novas medidas tomadas pelo Governo português para reduzir o défice orçamental foram de "longo alcance" e apoiadas pelo Banco Central Europeu (BCE) e pela União Europeia.
Ora bem, o PEC 4 foi chumbado por 5 dos 6 partidos com assento parlamentar, que vão da direita à esquerda, com todos os matizes de permeio. Quem não percebeu isto, não percebeu mesmo nada e de democracia sabe ainda menos. Está-se perante uma rejeição quase unânime de uma austeridade imposta por erros deste governo e dos que o precederam e o Povão tem de pagar uma pesadíssima factura verdadeiramente insuportável e de injustiça flagrante. Mais. Temos diante de nós um Primeiro-Ministro que necessitava de apoios como do pão para boca  e que tudo fez para os não ter, ou seja e sejamos claros: consciente, deliberada e malevolamente Sócrates provocou a crise, para não ter que assumir as suas culpas nesta situação, que é em larga medida uma criação sua. Não se trata de uma birra ou de um amuo dos partidos da Oposição, mas de uma posição séria. É todo um país que quer mandar Sócrates e o seus grupo de cafagestes, como por aqui se diz, you know where.
É claro - e perdoe-se-me o aparte - temos de mudar de sistema. Temos de mudar tudo. Temos de ir para a rua e fazer a revolução, mas até lá - e ainda falta percorrer the extra mile - pelo menos temos que dar um chuto nesta cambada. É um primeiro passo, muito insuficiente, é certo, mas necessário.
Voltando à vaca fria:
A Europa é composta por 27 países  e que se saiba não é uma quinta alemã da Baviera ou do Bad-Wuertemberg. Os países da zona Euro não adoptaram o marco como sua moeda, muito embora o Euro, seja uma sua reencarnação, o último avatar germânico. Quem é Merkel para dar recadinhos na Tugalândia? Já sabemos que vivemos num regime de soberania limitada, mas isto vai muito claramente para além das marcas.
Para a chanceler, tudo estava a correr bem e Sócrates obedecia fielmente às suas ordens, complementando-as com o arranjinho estabelecido com a Comissão Europeia e com o Banco Central Europeu, portanto, eis senão quando  somos, subitamente, confrontados com uma atitude de total  irresponsabilidade por parte dos parlamentares lusos, uns rústicos e uns tótós.
Será que o embaixador alemão em Lisboa não informou Berlim do que se estava a passar? Então está aqui a fazer o quê?
É preciso que Merkel e outros se convençam que Sócrates não é o Conde D. Henrique, que Portugal não é o Condado Portucalense, ou um qualquer feudo no sudoeste da Europa e que não  deve vassalagem à Sacra-Imperatriz Romano-Germânica.     
Deixem-se de merdas!

Dilma Rousseff  à SIC – “Mas o presidente não vai poder me receber?”

Numa entrevista concedida, ontem, a Miguel Sousa Tavares da emissora de televisão portuguesa SIC, Dilma mostrou-se surpresa com a informação dada pelo entrevistador, de que o Primeiro-ministro José Sócrates poderia renunciar, depois de o parlamento ter rejeitado novas medidas de austeridade. “Mas o presidente não vai poder me receber?”, perguntou ingenuamente Dilma. Apesar de surpresa, a “Presidenta” confirmou a sua viagem a Coimbra e Lisboa, e demonstrou que não estava informada de que Sócrates estava prestes a deixar o governo, noticiou, hoje, o  “Estadão” (jornal “Estado de São Paulo”).
Depois de Miguel Sousa Tavares ter esclarecido que o Presidente Cavaco Silva a receberia e que o Primeiro-ministro demissionário também, Dilma sossegou um pouco, mas confessou: "Eu não tinha conhecimento do que estava acontecendo. Foi, agora, n'é?" 
Ao inteirar-se da situação de Sócrates, a “Presidenta” afirmou: "Seja quem for o primeiro-ministro, ele vai me receber", segundo o relato publicado pelo jornal Folha de São Paulo.
A Chefe de Estado brasileira disse à SIC que iria obter informações adicionais junto do seu Ministro de Relações Exteriores.
Dilma visitará Portugal, entre 29 e 31 de Março, para prestigiar o ex-Presidente Lula da Silva que receberá o título de doutor honoris causa da Universidade de Coimbra. Trata-se da primeira viagem internacional da Presidente brasileira, em funções desde o início de Janeiro, a um país europeu.

Como se sabe, o primeiro-ministro, José Sócrates, apresentou quarta-feira a demissão ao Presidente da República por considerar que ficou sem condições para governar, depois de o Parlamento ter aprovado resoluções de rejeição de toda a Oposição ao chamado PEC 4 proposto pelo Governo.
O pedido de demissão de José Sócrates foi anunciado pela Presidência da República que, contudo, salienta que o Governo se mantém "na plenitude de funções até à aceitação daquele pedido". Cavaco Silva irá promover sexta-feira audiências com os partidos com assento parlamentar.


Três ou quatro comentários muito curtos:
  1.  Então a “Presidenta” vem a Portugal é entrevistada para um canal de televisão português e  não está minimamente informada do que passa no país que vai visitar, designadamente da crise iminente? Bom, das duas uma: ou é completamente ignorante ou é burra.
  2. A "ex-terrorista" não tem assessores diplomáticos, não conferencia com o seu Ministro dos Exteriores, não lê a mídia? O que é isto? O quê? Vai se informar depois e diz isso em público?
  3. E o que é que faz a Universidade de Coimbra? Vai atribuir um doutoramento honoris causa a um quase analfabeto funcional, que não dispõe dos mínimos rudimentos de educação básica? E amanhã vai doutorar quem? O Chávez, o Khadaffi ou o Ahmeddinejad?
  4. Mas é com gente deste calibre que o Brasil se quer impor como grande economia emergente e como país líder, à escala planetária? E nós damos cobertura  a isso, com esses pseudo-doutoramentos? O Povo brasileiro não merece essa gente, nem nós merecemos esses académicos de Coimbra ..Haja um mínimo de senso comum!


Bueno, como dicen en Latino-América, no pasa nada, no pasa nada.

segunda-feira, março 21, 2011

Wikileaks faz estragos: o embaixador americano no México demite-se devido à divulgação de telegramas diplomáticos


De acordo com declarações proferidas, no passado fim de semana, pela Secretária de Estado, Hillary Clinton,  a divulgação de uma série de telegramas diplomáticos confidenciais, oriundos da rede Wikileaks, foi objecto de queixas acrimoniosas por parte do Presidente Calderón do México o que levou a que o embaixador americano naquele país  tivesse apresentado a respectiva demissão.
O embaixador, Carlos Pascual, de origem cubana, era um perito nos chamados “Estados falhados”. Parece que numa fase inicial, terá, de algum modo, conseguido moderar o criticismo de Felipe Calderón. Todavia, a  crispação aumentou  quando a Wikileaks divulgou um telegrama de Dezembro último que citava directamente as interrogações do embaixador Pascual  relativamente à relutância manifestada pelo Exército mexicano em agir com base em informações da intelligence americana acerca do capo de um cartel da droga. Este líder do narcotráfico terá sido posteriormente capturado pela Marinha mexicana. Nesse telegrama, o embaixador consideoru que as forças armadas e a polícia mexicana eram "corruptas, lentas, avessas ao risco e dependentes dos EUA para lutarem contra o tráfico de droga." Num outro telegrama, Pascual terá  posto em causa a capacidade do México em lidar com o problema brutal da droga que terá feito mais de 35.000 mortos nos últimos 4 anos.

O Presidente Calderón manifestou-se particularmente perturbado pelos comentários de Pascual admitindo implicitamente que os “soldados mexicanos não seriam suficientemente corajosos” para levarem a cabo determinadas tarefas no âmbito da luta anti-droga. Todavia, recentemente, o embaixador Pascual foi visto em visita a Ciudad Juárez, no Norte (junto à fronteira com o Texas), louvando os vínculos que existem entre as autoridades americanas e mexicanas.

Sem embargo, Hillary Clinton declarou que Carlos Pascual terá chegado à conclusão que devia abandonar as suas funções “para assegurar a forte relação entre os nossos dois países e para evitar envolver-se em temas suscitados pelos Presidente Calderón que poderiam desviar-se da questão de fundo que é a excelência das relações bilaterais”.
De qualquer das formas, as relações tensas entre Pascual e o Presidente mexicano já tinham em si mesmo consistido numa distracção. O gabinete de F. Calderón, que não comentou as declarações da Secretária de Estado, já tinha dado a entender claramente, há várias semanas, que Pascual devia ser chamado para consultas sem regresso ao posto (por outras palavras, demitido).
O jornal pró-governamental “El Universal”, na sua edição de 22 de Fevereiro, referia que os telegramas divulgados pela rede Wikileaks revelavam que a embaixada americana  patenteava “ignorância” sobre a aplicação da lei no México.
O Chefe de Estado reiterou a sua frustração durante uma viagem a Washington que teve lugar este mês para se avistar com Barack Obama e os media mexicanos têm glosado o tema em permanência.
Alguns analistas políticos afirmam que os telegramas divulgados, da autoria do embaixador Pascual e dos seus colaboradores, descrevem o que consideram ser obstáculos burocráticos inesperados e receios quanto ao controlo por parte dos cartéis de Ciudad Juárez que mais não são que o reflexo do que se pode ler  na própria comunicação social mexicana. .
Outros, tal como o historiador Lorenzo Meyer, salientaram que os presidentes mexicanos atacam muitas vezes o embaixador americano quando se sentem pressionados pelos EUA. De acordo com fontes quer americanas, quer mexicanas, a  tensão aumentou quando pistoleiros abateram a tiro um agente nos arrabaldes da Cidade do México. De registar que Carlos Pascual é um dos funcionários mais graduados a ser transferido na sequência dos escândalos provocados pelas fugas de informação da Wikileaks. O embaixador americano na Líbia foi retirado em Janeiro quando os telegramas da sua autoria foram publicamente divulgados, nos quais o representante diplomático dos EUA entrava em pormenores sobre as idiossincrasias e manias do líder  líbio Muamar al-Gaddafi.
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sexta-feira, março 18, 2011

Líbia – Europa claramente dividida quanto à“No-flight Zone”. Brasil abstém-se.

Foi aprovada ontem em Nova Iorque uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas estabelecendo a Zona de Exclusão Aérea (“No-flight Zone”) na Líbia, autorizando "todas as medidas necessárias" para a protecção de civis e áreas civis povoadas sob ameaça, referindo explicitamente a cidade de Bengazi. Leia-se, para impedir o massacre de civis pelas tropas do ditador Muamar Kadhaffi.O texto exclui explicitamente "qualquer tipo de ocupação estrangeira em qualquer parte do território líbio".
A resolução, em que a França e o Reino Unido (com o decidido apoio do lado árabe por parte do Líbano) foram instrumentais para as respectivas negociação e aprovação, obteve os votos favoráveis de 10 países (os três referenciados, mais os EUA, África do Sul, Nigéria, Portugal, Líbano, Bósnia e Herzegovina, Colômbia e Gabão) e cinco abstenções (curiosamente os BRICs – Brasil, China, Rússia Índia e – pasmem-se, oh! Gentes!  - a Alemanha!!!).
Tropas americanas, francesas, britânicas e de dois países árabes devem participar da ação militar. 
A abstenção do Brasil
O Brasil da ex-revolucionária e agora “presidenta” Dilma Rousseff, ao arrepio do sentimento generalizado dos ocidentais, africanos e árabes, ao justificar a abstenção, afirmou que a posição brasileira "não significa uma aceitação do comportamento do governo líbio". De acordo com a embaixadora Maria Luiza Viotti, "o problema está no texto da resolução" (o Brasil está de acordo quanto ao fundo e em descaordo quanto à forma? Fraca desculpa…). Para a diplomata brasileira, "as medidas adotadas podem gerar mais danos do que benefícios" (Quais? Menos gente no paraíso de Alá?). Além disso, segundo a representante brasileira junto à ONU, os movimentos no mundo árabe "têm crescido internamente. Uma intervenção externa alteraria esta narrativa, tendo repercussões na Líbia e em outros países" (mas como, se os próprios árabes vão participar na força de interdição aérea?). O império da  asneira encontra múltiplas justificações, em especial no Brasil de Dilma.

A Alemanha manda a Europa ir dar uma curva.
É o fim claro e sem ambiguidades da Política Externa e de Segurança Comum, agora que a Alemanha, como anunciámos repetidamente neste blogue, começa a namorar a Rússia e já está a entrar na fase da paixoneta, que evoluirá para paixão. A ligação a Leste é, pois, um dado incontornável, muito embora tudo se justifique, mesmo o injustificável. A Alemanha não queria participar em operações militares, dizem eles, mas a tal ninguém os obrigou…. Portugal votou a favor e não se vai envolver em operações militares. O que é que quer Angela Merkel?
E, já agora, o que é  que faz Catherine Ashton no meio de tudo isto?  É só blá-blá? Fim definitivo da PESC ou será possível repescá-la?
Para terminar, 
Quando é que Luis Amado vai comer mais umas tâmaras à tenda do beduíno?

terça-feira, março 15, 2011

Diplomatas e equiparados (2º da série)

É interessante o despacho do Professor Diogo Freitas do Amaral (o modestíssimoo autor de "15 meses ao serviço do Ministério dos Negócios Estrangeiros" - Meu Deus! O que seria se ainda lá estivesse!), tal como transcrito no livro de Luís Mascarenhas Gaivão ("Um Adido Cultural no Luxemburgo"):


“...decidi hoje a extinção da comissão de serviço de V. Exa. como Conselheiro Cultural nessa Embaixada. [...] a decisão acima referida de extinção da sua comissão de serviço foi tomada sem necessidade da formalidade da "audiência prévia ao interessado” por ter sido declarada “urgente” [...].”

MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS

É má língua dizer que o Diogo é o vira-casacas do regime ou o expoente máximo do  cataventismo político. Vocês é que têm inveja. Olhem bem para o currículo deste senhor, sim, um verdadeiro senhor da vida lusitana.