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quarta-feira, julho 27, 2011


Paradoxo – a situação dos bancos em Portugal



Para a minha e vossa cultura geral, segue a transcrição de um artigo de Pedro Santos Guerreiro no “Negócios on-line”, com data de 26 de Julho,
e a que está ser dada ampla circulação em vários blogs da net:

“A guerra deixou de ser surda: bancos e Banco de Portugal estão em braço-de-ferro.
A polémica usa nomes técnicos mas a pergunta é simples: devem os bancos pedir capital ao Estado? A questão é vital mas ameaça tornar-se filosófica: será evitável, essa nacionalização temporária? Dificilmente.

Primeiro, os caldos de galinha: não há risco para os depositantes. E não há, precisamente, porque há dinheiro do Estado, da troika, 12 mil milhões para capitalização e 35 mil milhões para liquidez. O risco não é hoje dos depositantes. É dos accionistas. É de quem precisa de crédito.

Decifremos: o Banco de Portugal quer que os bancos vendam carteiras de crédito. Mas como o risco de Portugal é alto, os bancos têm de vender essas carteiras com desconto. Ou seja, com prejuízo. Isso reduz dividendos e aumenta as necessidades de capital. E como dificilmente se encontra quem queira investir num banco português, a alternativa é pedir ao Estado: recorrer aos 12 mil milhões de euros.

Os bancos não querem. Temem saída de capitais. Não querem prejuízos, não querem ficar mais pequenos, não querem perder o controlo do presente e do futuro - e não querem o que uma intervenção estatal obriga: a entrada dos políticos (embora esteja previsto que o Estado seja "accionista silencioso"), limites aos salários das administrações e suspensão de dividendos. As acções desvalorizariam. Para os accionistas de referência, ainda pior, pois sem dividendos não podem pagar as suas próprias dívidas nem amealhar para mais tarde recomprar a posição do Estado. E lá vão os bancos para o controlo estrangeiro.

Na conferência de banca ontem do "Económico", foi este confronto que se tornou visível. O que permanece invisível é que a escolha não existe. É uma questão de tempo. E tempo é dinheiro.

Os bancos nunca estiveram preocupados com as novas regras de malparado e não stressaram com os testes de resistência porque estes não simularam o valor de mercado nos seus balanços da dívida pública dos países aflitos. O medo dos bancos está noutro teste, que arranca depois do Verão: a reavaliação das carteiras de crédito. É disso que Salgado e Ulrich falam quando falam de critérios "fundamentalistas".

Em Setembro, dezenas de técnicos da troika vão entrar nos bancos com uma tarefa que já fizeram na Irlanda: "varrer" os créditos e verificar se os activos que estão dados como garantia são suficientes. Na Irlanda, foram esses critérios "fundamentalistas" que levaram às nacionalizações.

Exemplo: um crédito à habitação de 200 mil euros tem como garantia o imóvel avaliado em 250 mil euros. A troika aplica uma nova métrica e diz que o imóvel vale apenas 170 mil euros. Então, ou o cliente reforça as garantias ("dá" mais património), ou o banco tem de "cobrir" a diferença com provisões. Multiplique este exemplo por milhares de créditos, empresas de imobiliário e construção, PME aflitas: dá uma imparidade enorme. Um buraco. E portanto pede-se intervenção do Estado.

A questão é que o buraco já existe na economia e não vai ser possível apartar a banca: é uma economia que se endividou de mais em consumo, imobiliário e projectos de baixo retorno. O problema está implícito nos bancos, sob a forma de crédito malparado aprazado. Mesmo o pagamento das dívidas do Estado, que aqui defendemos, refresca os bancos mas, do ponto de vista da troika, não muda a "equação" da economia: mantém-se a dívida pública, cria-se mais dívida privada.

Os bancos juram que não. O Banco de Portugal parece convencido de que sim. E, portanto, quer antecipar. Não é para ganhar tempo, é para salvar a economia em vez de salvar os bancos. Se não houver aumentos de capital, a alternativa será tapar a desvalorização das carteiras de crédito, encarecendo ainda mais o crédito às empresas. E as empresas estão a morrer de asfixia financeira. A quebra do investimento a que se assiste é dramática. Sem investimento, a economia não descola, a única coisa que crescerá é o desemprego.

Chegados aqui, é essencial perceber o que é hoje o Banco de Portugal. Já não é o "sindicato" dos bancos, como no passado. É o membro do Banco Central Europeu que tem mais de 40 mil milhões emprestados aos nossos bancos e é o interlocutor do FMI, que passa um terço do cheque da troika. É por isso que o Banco de Portugal tomou o controlo do Ministério das Finanças e, agora, da Caixa. Não é o Banco de Portugal: é a troika. Quem paga é a troika. Quem manda é a troika. E ainda bem. Porque o Governo parece, afinal, enclausurado no passado, desperdiçando a oportunidade de mudança da economia e cismando nos mesmos vícios: falta de corte de despesa, partidarização da Caixa - e falta de comando.

Chegará a hora de vermos as vantagens e as desvantagens das nacionalizações parciais da banca. De repartir culpas. Mas uma trave continua mestra: a economia precisa de uma banca forte. E isso vai, muito provavelmente, exigir uma nacionalização temporária, que mudará para sempre a propriedade e a gestão da banca em Portugal, menos alinhada com o Estado e que lute pela poupança. E mais estrangeira.

Como Sócrates dizia, o mundo mudou. E a banca, que sempre foi visionária, é quem está agora em negação. Vai ter de perder dinheiro. Vai ter de tirar as pequenas e médias empresas do espremedor. Vai ter de deixar de achar que a troika é idiota.

Eis o grande paradoxo: os liberais é que defendem a entrada temporária do Estado nos bancos. Vai ser impossível explicar, mas a ajuda do Estado aos bancos não será a ajuda aos donos dos bancos. Ao contrário do que parece, isso é que vai trazer perdas para os seus accionistas. Por isso é que eles não querem. Por isso é que a economia precisa. Como veremos nos próximos meses.”

terça-feira, julho 12, 2011

Portugal e as agências de “rating” – artigo de opinião do NY Times


Trata-se de um artigo já datado (12 de Abril deste ano), publicado no NY Times, sob o título original Portugal’s unnecessary bail-out. Como me acabam de enviar a tradução e dado o seu interesse, sem prejuízo de alguma (inevitável) desactualização, segue para vossa informação [para quem já o tiver lido, passe adiante]:



Opinião no NY Times: «Agências de rating armadilharam Portugal»


Opinião publicada no New York Times por Robert M. Fishman, professor de Sociologia da Universidade de Notre Dame. Caso português é aviso para muitos outros países. 

A culpa do pedido de ajuda financeiro feito por Portugal é das agências de rating e da falta de regulação sobre a forma como as mesmas avaliam a fiabilidade da economia dos países. A opinião é de Robert M. Fishman, professor de Sociologia da Universidade de Notre Dame, de Indiana, Estados Unidos, e escritor galardoado - venceu a Menção Honrosa para Melhor Livro de Políticas Sociólogas em 2005, pelo seu livro Democracy's Voices.
 Por Robert M. Fishman, professor de Sociologia da Universidade de Notre Dame
O desnecessário resgate de Portugal

«O pedido de ajuda de Portugal para as suas dívidas junto do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia na última semana deve servir de aviso para todas as democracias. As crises que começaram com os resgates da Grécia e Irlanda no ano passado tiveram uma feia reviravolta. Contudo, este terceiro pedido de resgate não é realmente sobre dívida. Portugal teve uma forte performance económica nos anos 90 e estava a conseguir a sua recuperação da recessão global melhor do que muitos outros países na Europa, mas viu-se sob injusta e arbitrária pressão dos corretores, especuladores e analistas de rating de crédito que, por visão curta ou razões ideológicas, conseguiram forma de afastar uma administração democraticamente eleita e potencialmente amarrar as mãos da próxima.

Se deixadas sem regulação, estas forças de mercado ameaçam eclipsar a capacidade dos governos democráticos — talvez até da América — para fazerem as suas próprias escolhas sobre impostos e despesas.

As dificuldades de Portugal eram alegadamente semelhantes às da Grécia e Irlanda: para os três países, a adopção do Euro há uma década significou que tiveram de ceder o controlo das suas políticas monetárias, e um repentino incremento dos níveis de risco que regulam os mercados de obrigações atribuíram às suas dívidas soberanas foi o gatilho imediato para os pedidos de resgate.

Mas na Grécia e Irlanda o veredicto dos mercados reflectiu profundos e facilmente identificáveis problemas económicos. A crise portuguesa é bastante diferente; não houve uma genuína crise subjacente. 




As instituições e políticas económicas em Portugal que alguns analistas financeiros vêem como potencialmente desesperadas tinham alcançado notável sucesso antes desta nação ibérica de dez milhões ser sujeita às sucessivas ondas de ataque dos mercados de obrigações.

O contágio dos mercados e redução de notação, que começaram quando a magnitude das dificuldades da Grécia emergiu no início de 2010, transformaram-se numa profecia que se cumpriu a si própria: ao aumentar os custos da dívida portuguesa para níveis insustentáveis, as agências de rating forçaram Portugal a procurar o resgate. O resgate deu poder aos ‘salvadores’ de Portugal a pressionarem por impopulares políticas de austeridade que afectaram empréstimos de estudantes, pensões de reforma, subsídios sociais e salários públicos de todos os tipos.

A crise não é culpa do que Portugal fez. A sua dívida acumulada está bem abaixo do nível de nações como a Itália que não foi sujeita a tão devastadoras avaliações. O seu défice orçamental é mais baixo do que muitos outros países europeus e estava a diminuir rapidamente graças aos esforços governamentais.

E quanto às perspectivas de crescimento do país, que os analistas convencionalmente assumem serem sombrias? No primeiro quarto de 2010, antes dos mercados empurrarem as taxas de juro nas obrigações portuguesas para os limites, o país tinha uma das melhores taxas de recuperação económica na União Europeia. Numa série de reformas — encomendas industriais, inovação empresarial, realização educacional, e crescimento das exportações — Portugal igualou ou mesmo ultrapassou os seus vizinhos do Sul e até da Europa Ocidental.

Por que razão, então, foi tão desclassificada a dívida portuguesa e a sua economia empurrada para o limite? Há duas possíveis explicações. Uma é o cepticismo ideológico em torno do seu modelo económico misto, que suportava empréstimos às pequenas empresas, em conjunto com algumas grandes companhias públicas e um robusto estado-providência. Os mercados fundamentalistas detestam intervenções de estilo keynesiano em áreas da política interna portuguesa — que evitavam uma bolha e preservavam a disponibilização de rendas urbanas baixas — quanto a assistência aos pobres.

A falta de perspectiva histórica é outra explicação. O nível de vida dos portugueses cresceu muito nos 25 anos que se seguiram à revolução democrática de Abril de 1974. Nos anos 90 a produtividade laboral cresceu rapidamente, as empresas privadas aprofundaram o investimento com a ajuda do governo, e partidos tanto de centro-direita como de centro-esquerda apoiaram o aumento da despesa social. Por altura do fim do século o país tinha uma das taxas de desemprego mais baixas da Europa.

Em abono da verdade refira-se que o optimismo dos anos 90 deu origem a desequilíbrios financeiros e a gastos excessivos; os cépticos quanto à saúde da economia portuguesa apontam para a sua relativa estagnação entre 2000 e 2006. Apesar disso, no início da crise financeira global em 2007, a economia estava de novo a crescer e o desemprego a descer. A recessão acabou com essa recuperação, mas o crescimento retomou no segundo quarto de 2009, mais cedo do que noutros países.

Não se podem culpar as políticas domésticas. O primeiro-ministro José Sócrates e o governo socialista mexeram-se para cortar no défice enquanto promoviam a competitividade e controlavam a despesa pública; a oposição insistia que podia fazer melhor e forçou José Sócrates a apresentar a sua demissão este mês, preparando o palco para novas eleições em Junho. Isto é normal em política, não um sinal de confusão ou incompetência como alguns críticos de Portugal apontaram.

Podia a Europa ter evitado este resgate? O Banco Central Europeu podia ter comprado de forma agressiva as obrigações de Portugal e protegido o país do pânico mais recente. Regulação da União Europeia e dos Estados Unidos sobre o processo utilizado pelas agências de rating para avaliar a fiabilidade de crédito da dívida de um país é essencial. Distorcendo as percepções dos mercados sobre a estabilidade portuguesa, as agências de rating — cujo papel no fomento da crise hipotecária nos Estados Unidos está amplamente documentado — armadilharam tanto a sua recuperação económica como a sua liberdade política.

No destino de Portugal reside um claro aviso para os outros países, incluindo os Estados Unidos. A revolução portuguesa de 1974 inaugurou uma onda de democratização que varreu o globo. É bem possível que 2011 possa marcar o começo de uma onda de invasão da democracia por mercados desregulados, com Espanha, Itália ou Bélgica como próximas vítimas potenciais.

Os americanos não iriam seguramente gostar muito que instituições internacionais tentassem dizer a Nova Iorque, ou a outra qualquer cidade americana, para abandonar as suas leis de controlo de rendas. Mas é este precisamente o tipo de interferência que agora está a ocorrer  em Portugal — tal como aconteceu na Grécia ou na Irlanda, apesar desses países terem maiores responsabilidades no seu destino. Apenas governos eleitos e os respectivos líderes podem assegurar que esta crise não acaba por minar os processos democráticos. Até agora parecem ter deixado tudo nas mãos da imprevisibilidade dos mercados de obrigações e das agências de rating.»

quinta-feira, julho 07, 2011


Moody’s corta “rating” de Portugal



São muitas as vozes indignadas contra a desclassificação de Portugal, dos seus bancos, das suas empresas, regiões e municípios. Somos agora lixo, lixo genuíno, lixo autêntico, lixo puro, mal cheiroso e poluente, sem apelo nem agravo. Nem Nossa Senhora de Fátima, os anjos, arcanjos, querubins e serafins nos podem valer. Neste embate de titãs entre a Europa e a América somos o chamado collateral damage, ou seja os danos fortuitos duma guerra que não é nossa, mas que passou a ser. Não se é soldado de infantaria na linha da frente ou peão no tabuleiro de xadrez por mero acaso. Estamos lá, porque assim o quisemos. Estamos lá porque nos pusemos a jeito. Estamos lá porque fomos desgovernados da maneira infame em que o fomos, pelos mesmos vigaristas de sempre. Mas, meus amigos, digam-me lá, a verdade verdadinha, não estávamos mesmo à espera disto?
Ou será que toda a gente pensava que com um novo Governo, com o chamado vasto consenso dos partidos democráticos, com o apoio generalizado do triste, pobre e macambúzio “bom Povo Português”, com promessas de meninos bem comportados, com um apertar de cinto ainda mais ajustado do que nos era pedido, nos íamos safar?
Há quem critique a inoportunidade do anúncio da Moody’s a que se seguirão inevitavelmente os das outras duas agências – a Standard and Poors e a Fitch – no mesmo sentido e que, por certo, não irão tardar. Haveria, dizem, que dar tempo ao tempo e esperar que as medidas tomadas por este Governo surtissem ou não efeito. Sim e depois, com certeza, podiam dizer de sua justiça... Diga-se, de passagem, que numa guerra, não se escolhe o timing que convém ao inimigo, mas o que convém aos nossos interesses. É uma verdade de La Palice.
No combate para a supremacia mundial, de que a batalha euro-dólar é apenas um episódio entre muitos, a  estratégia de Wall Street consistiu – e isto é bastante claro para toda a gente – em rebentar com a periferia da Europa, até porque existiam (e existem) manifestas vulnerabilidades nesses países ditos PIGS ou PIIGGS que facilitam a ofensiva.
E depois há um problema de timing a Europa tem de cair rapidamente antes dos EUA baquearem de vez, o que se prevê para o Outono, ou mesmo antes. Todos sabemos disso ou temos, pelo menos, consciência dessa forte possibilidade.
Para o efeito, os EUA têm um forte e indefectível aliado na Europa. You know what I am talking about. O cavalo de Tróia chama-se Reino Unido – um país que pouco ou nada produz e que vive, essencialmente, da especulação financeira da City de Londres – passem de largo os exageros, com as minhas reiteradas desculpas aos anglófilos! Todavia, estas previsões podem falhar ou poderão surgir factores supervenientes, que por ora não se podem ler nas cartas e que poderão alterar esta futurologia bloguista. Mas pelo andar da carruagem  creio que não estamos muito longe da verdade.
O krach de 1929  não foi um mero acidente de percurso, nem se circunscreveu a meia-dúzia de anos. Seguiu-se a Grande Depressão, a emergência dos totalitarismos na Europa e depois a II Guerra. A retoma plena, note-se bem, só se deu em 1954. Isto são factos históricos indesemntíveis.
O meltdown de 2008 que os EUA resolveram à sua maneira, injectando mais dinheiro no mercado (more, more and always more) salvando uns e não outros, não se descortinando critérios, nem se atinando com qualquer lógica de fundo, num universo de total desregramento, que é o que agrada à City e a Wall Street. Depois passámos à crise da dívida soberana.  Não ignoramos que exista, mas a verdadeira luta é outra, como sabemos. A procissão, porém, ainda vai no adro. E preparamo-nos para o estouro final: quem rebenta primeiro a Europa ou os EUA? E quando é que vêm os chineses ou os indianos apanhar os cacos?


Bom, mudemos de assunto, relativamente ao título deste “post”, impõe-se uma pergunta:
Que fazer?
Correm na net várias hipóteses. Para já circula um abaixo assinado relativamente às agências de “rating”, denunciando as suas práticas, a sua actuação e, sobretudo, a sua estratégia, nem sempre clara. Outra consiste em  tentar bloquear a página Web da Moody’s através de um ataque em ordem, programado para segunda-feira, à hora de abertura do New York Stock Exchange.
Recebi inúmera correspondência a este respeito, que vou partilhar com os meus leitores, sintetizando-a:-
-       Bandidos bandidos mesmo foram os sucessivos governos que puseram Portugal neste estado. Agora dão tiros no mensageiro...tão inocentes que nós somos.”
-       “This is just business. Estamos no meio duma guerra sem termos exército nem sequer armas para nos defendermos. Deus nos valha.”
-       A propósito do pretendido bloqueio informático à Moody’s: “E o que farão os alemães? Mandarão bombas para cima da Moody´s enquanto nós lhes entupimos os computadores?”
-       “Será que teremos direito à indignação? As agências de “rating”, sobretudo quando analisam países meridionais, têm de ter em atenção que aí predominam trapaceiros, vigaristas e irresponsáveis. Portugal e os portugueses deviam ter vivido dentro dos sãos princípios das suas possibilidades, nos parâmetros da filosofia do velho “Botas”, se o tivéssemos feito, isto não acontecia. Mas esses politico-politiqueiros, na sua contumaz aldrabice tentaram convencer-nos – e em parte conseguiram (pobre povo!) – de que entrar para Europa era chegar à terra prometida, onde corria o leite e o mel. Vivemos à grande e à francesa com dinheiro dos outros e, no fim, a Europa pagaria a conta. Ora, não existem almoços grátis e a factura temos mesmo de a pagar.”


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quinta-feira, junho 30, 2011

Hugo Chávez estava em Portugal, em Outubro de 2010,  para dar "as duas mãos" a José Sócrates. What did really happen?


Em relação ao post imediatamente anterior, em Outubro de 2010, Hugo Chávez, desembarcava no Porto, para uma visita a Portugal, a convite de J. Sócrates, num périplo que incluía alguns países bizarros como o Irão, a Bielo-rússia Rússia, Ucrânia e a Síria, num pacote tutti-frutti que dava um pouco para todos os gostos.
Hugo Chávez, não revelando quem lhe encomendou o sermão e tratando com algum paternalismo o país anfitrião, explicava, no Porto, estar em Portugal para ajudar o primeiro-ministro "num momento difícil,” ou seja, vinha dar "as duas mãos" a José Sócrates.
O relacionamento bilateral Portugal-Venezuela ia de vento em popa. Creio que foram 6 as visitas bilaterais ao longo do mandato socrático, colocando em termos de contactos bilaterais, a Venezuela em paridade coma Espanha e suplantando o Brasil. Os acordos e protocolos bilaterais foram assinados às dezenas, sem falar nas múltiplas declarações de intenções. Portugal e a Venezuela eram grandes amigos e estabeleciam “sólidas” parcerias de mútuo e inegável (?) interesse.
Na Invicta, logo à chegada, o chefe de Estado venezuelano adiantou que ia procurar reforçar a cooperação com Portugal, garantindo que "a Venezuela vai enviar mais petróleo" e reafirmou o seu propósito de criar uma Marinha. "Até agora, não tínhamos nem um barco de papel", referiu.
Sócrates sublinhou, então, à  chegada aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, a importância dos contratos que seriam assinados, na ocasião, entre Portugal e a Venezuela.
"São da maior importância para o país e para os estaleiros navais de Viana do Castelo", disse José Sócrates, considerando este um "grande dia para a cooperação entre Portugal e a Venezuela", referindo-se aos acordos nas áreas da construção naval e ao fornecimento de 1,5 milhões de computadores "Magalhães" que seriam subscritos no decurso da visita.
Os números hiperbólicos, como sempre, do comércio externo (Sócrates y sus muchachos encarregavam-se de os empolar) faziam sonhar toda a gente – só que bem exprimidinhos não davam para nada, mas enfim...

Chávez, mostrou-se "muito interessado" na compra aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo do navio “Atlântida”, que tinha sido encomendado pelo governo regional dos Açores e posteriormente rejeitado, porque não andava à velocidade que César queria (a César sempre o que é de César).
"Disseram-me que é um barco bom, bonito e barato. Estamos muito interessados", disse Chávez.

O chefe de Estado da Venezuela admitiu, ainda, que poderia também comprar o navio “Anticiclone”, que tinha igualmente sido encomendado pelo Governo regional dos Açores.
Já em 2008, quando da visita de Sócrates a Caracas tinha sido também assinada uma resma de acordos bilaterais – creio que 9 - , com as referencias extrovertidas e apalhaçadas de Chávez no seu programa dominical “Alô Presidente”, dizendo mais ou menos isto: “Somos um mercado, compramos porque somos consumidores e oferecemos-lhe petróleo”. Tudo muito simples e lógico.
O presidente venezuelano sublinhou que os acordos assinados em 24 e 25 de Outubro de 2010 com Portugal,  eram legítimos, transparentes e beneficiavam todos.
«Ninguém pode dizer, repito, que estamos a oferecer nada, nem uma gota de petróleo. São acordos legítimos, transparentes e claros que beneficiam todos, mas há que explicar ao povo», disse Chávez.
«...Com Portugal, estamos a enviar petróleo, derivados de petróleo e faz-se um fundo com uma percentagem da factura petrolífera. Eles (Lisboa) pagam uma percentagem, a outra percentagem que é 20 por cento passa para o fundo através do qual vamos financiar muitas coisas», afirmou.
Como exemplo do financiamento através do fundo, Hugo Chávez, citou a compra de um grande ferry a Portugal. O chefe de Estado venezuelano explicou que a rota prevista para o novo ferry é do porto de La Guaira até às ilhas de Orchila, Los Roques e Margarita.
«Eu quero meter todos esses meninos pobres de La Guaira, as famílias mais pobres, no tremendo ferry, a classe média também. São 800 pessoas. Aí está um modelo do ferry que já pronto está a partir de Portugal, (será) uma linha de ferry, turismo popular, turismo venezuelano», frisou.
Feitas as contas. O primeiro-ministro, José Sócrates, e o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, assinaram em Viana do Castelo acordos nas áreas da construção naval e para o fornecimento de 1,5 milhões de computadores Magalhães. Portugal recuperaria também um anterior compromisso para que o Grupo Lena construísse na Venezuela 2500 vivendas pré-fabricadas, um negócio calculado em 682 milhões de euros, e, ainda, um acordo na área das energias renováveis.
Só na área da construção naval, a Venezuela assinou um conjunto de acordos com os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC), sendo um dos mais emblemáticos o da adaptação do ferry “Atlântida” para o transporte de passageiros e viaturas - uma encomenda avaliada em 35 milhões de euros.
Ainda na área da construção naval, os ENVC vão receber da Venezuela a encomenda para a construção de dois navios de transporte de asfalto, no valor de 130 milhões de euros.
"Serão encomendas importantes para assegurar o futuro dos Estaleiros de Viana do Castelo", disse à agência Lusa uma fonte diplomática

Qual foi o resultado de tudo isto?
Os estaleiros navais de Viana do Castelo estão em risco de fechar as portas e cerca de 380 trabalhadores vão ser dispensados (leia-se, despedidos). Ninguém atende os telefones em Caracas. O contrato para o “Atlântida” nem sequer foi assinado e o navio continua à espera, na doca, a ganhar ferrugem.
E os computadores Magalhães da firma J.P. Sá Couto?
E as 2.500 vivendas pré-fabricadas?
E as energias alternativas?
E, por fim, os navios  de transporte de asfalto?
Isto da diplomacia económica tem muito que se lhe diga. Fazer negócios com gente pouco séria ou mafiosa dá nisto. É por estas e por outras que fazer negócios com Chávez ou com Khadafi não são propriamente recomendáveis, excepto para personagens bizarras como D. Martín de la Cruz (que por sua vontade ia à todas) e José Sócrates (que apesar das habituais aldrabices foi engrolado à grande e à francesa pelo ditador venzuelano). Será que, agora, nos deixam também fazer negociatas com o cartel de Medellín ou com o de Tijuana? É que é capaz de dar dinheiro?

segunda-feira, maio 30, 2011

Teste para as eleições



Para a solução do problema que toda a gente tem em mente, ou seja  "em quem vamos votar?",  proponho-vos um pequeno teste:

Responda sinceramente

1. Está de acordo ou aceita como inevitável o MOU troika-Portugal ou recusa o dito acordo liminarmente?

2. Se recusa, vota BE ou CDU, pode mesmo ser em estilo moeda ao ar. Vamos lá por partes: mais "prá frentex", bloco; mais conservador, estilo classe operária da Baixa da Banheira, então vota PC e fellow travellers.
No fundo, votar Bloco ou CDU é relativamente inconsequente, porque nem um nem outro têm qualquer hipótese de chegar ao Poder. Todavia, se se pretende dar alguma expressão a vozes de discordância no Parlamento, com repercussão (limitada) nos media é um caminho a escolher..
 A meu ver, se quer dar um murro na mesa e mandar tudo às urtigas, na lógica do quanto pior melhor, as opções são estas e neste caso será até  preferível votar no Bloco de Esquerda. Não se perde nada com o quiosque e marca-se uma posição clara.

 3. Se, de algum modo aceita o MOU da troika - independentemente das razões que o levam a isso: então tem 3 opções: ou o Sócrates y sus muchachos ou o Pedrinho de Massamá ou o Paulinho das feiras. As diferenças ideológicas entre eles são praticamente nulas. Existem diferenças de estilos e de personalidades. That's all folks! What did you expect? 

4. Se opta pelo Sócrates e xuxas, está a premiar o verdadeiro fautor da crise – embora, não seja o único -  e, além disso, a incompetência, a corrupção, a aldrabice e blá-blá-blá-blá e ainda blá, ou seja está a beneficiar o infractor, que nunca se sentará, como devia, no banco dos réus. Creio bem que seria a última das hipóteses, neste segundo leque de alternativas. De qualquer forma, existe, mesmo assim, uma ténue hipótese de ganhar e, nesse caso, teria de governar em coligação. Todavia, se isso vier a acontecer - cruzes, canhoto! -, Sócrates seria forçado a passar a bola para outro comparsa dentro do partido, porque PSD e CDS decididamente não alinham com ele. Logo, as coisas começariam mal, muito mal, mesmo, e o país correria o risco sério de se tornar ingovernável. Votar Sócrates é o pior de todos os cenários concebíveis!.

5. Se escolhe o Pedrinho de Massamá, está a dar um tiro no desconhecido, senão um tiro no pé, o que, em ambos os casos de figura,  pode ser perigoso. O homem não tem grandes ideias quanto à governação do país, jamais se refere ao MOU da troika – ou seja, ao verdadeiro programa de governo (Tem medo, respeita algum tabu ou não o quer aplicar? Decida-se lá uma vez por todas. Vamos!), não é credível, não inspira confiança, não tem experiência, nem estofo, nem, quiçá, equipa para lidar com os problemas da magnitude que se põem a Portugal nos próximos tempos. Acresce que tem todo o baronato novo e velho contra. Até pode ganhar o pleito, mas só poderá governar em coligação, a pé-coxinho e sem alma.

6. Resta o Paulinho. Não abono muito em favor do candidato, sobretudo pelo seu perfil moral e pela sua trajectória política. Não me esqueço quando era director do falecido “Independente” e deitava abaixo o Cavaco, sem qualquer sentido, semana sim, semana sim, para permitir a entrada triunfal do Guterres. Pois, então! Não está acima de qualquer suspeita. Não, senhor, não está! Tem, porém, experiência governativa e algumas figuras de certa valia no seu grupo. Possui também algumas ideias (sobretudo na área social, agrícola, de segurança, etc.), o que, obviamente, não chega para conquistar S. Bento e as respectivas subidas nas sondagens demonstram de modo inequívoco  que as suas perspectivas eleitorais são por ora mais do que  insuficientes para o alcandorar a esse grande voo.  Ah, mas pode, porém, ser o "pivot" da situação pós-eleitoral e terá que dispor de algum peso para o efeito. Vai ser o factor decisivo e muito provavelmente irá para o Poder, ou, antes, irá partilhá-lo com alguém, numa segunda posição com algum músculo e voz grossa.  Por conseguinte, trata-se de uma hipótese a ponderar, com muitas, mas, mesmo, muitas  reservas, bem entendido.     

7. Votar em branco, nulo ou nos partidos de cácaracá é um voto totalmente inútil e para tal não é preciso ir às urnas. Não tem qualquer influência no resultado final, a não ser que alimente convicções estilo José Saramago, seja amigo dos animais, da extrema-direita skin  ou dos madeirenses frustrados e queira actuar em solidariedade  com estas nobres ideias. O país, porem, não vai nessas cantigas e a opção por essa bambochata não serve rigorosamente para coisa alguma, a não ser para folclore.



8. Resumindo e concluindo, na lógica do vai ou racha:
- Se vai, então voto útil no Portas.
- Se racha (que não é para já, entenda-se), voto útil no BE.

9. É claro que, como já o disse, inúmeras vezes,  não me sinto identificado com o sistema - que não é credível, nem representativo - e entendo, com todas as minhas forças,  que o regime tem de mudar, mas, por ora, não estão reunidas as condições para tal. Logo há que dar tempo ao tempo e aguardar que  o próximo governo atire a Tugalândia para a inevitável e inescapável insolvência (com ou sem MOU) ou para o fundo do caixote de lixo da História e depois construiremos alguma coisa. Do caos há-de um dia nascer a luz. É de novo o Big bang!

sábado, maio 07, 2011


Crise económico-financeira: o problema britânico



A propósito do possível resgate financeiro pela “troika” de Portugal, o “Daily Telegraph” de Londres (http://www.telegraph.co.uk/finance/comment/jeremy-warner/8493209/UK-is-not-Portugal-but-it-could-become-so.html), refere, em sínteses que não há duas sem três. Todavia, na análise do caso vertente, trata-se de um aviso sério e que deve ser devidamente ponderado pelo Reino Unido quanto aos perigos da dívida pública descontrolada. Segundo o mesmo jornal, Portugal junta-se, agora, à Grécia e à Irlanda na escravatura económica aos burocratas sem rosto da Europa e do Fundo Monetário Internacional. 
De registar que a Grã-Bretanha é particularmente sensível a uma crise fiscal devido à dimensão do respectivo sector financeiro com ramificações um pouco por toda a parte e com garantias que excedem várias vezes o PIB. Nesta perspectiva, o RU é tão vulnerável como a Irlanda. Muito embora tenha lidado com o problema bancário com eficiência acrescida, o certo é que ao menor sinal de perigo iminente, os investidores podem retirar-se do mercado e a confiança desvanecer-se, na medida em que a capacidade para pagar as respectivas dívidas poderá ser posta em causa.
Subsiste o duplo risco de contágio do RU às crises da dívida soberana e dos mercados financeiros. O conjunto da dívida britânica (pública, privada, das empresas e do sector financeiro) supera o de qualquer outro país europeu.
Com uma economia debilitada, qualquer subida nas taxas de juro seria um verdadeiro desastre para o RU, muito pior que as medidas de austeridade que estão na forja. A dívida britânica encontra-se hiper-dimensionada e não se vislumbra qualquer luz ao fundo do túnel.
O RU encontra um ponto de comparação não com a Grécia, Irlanda ou Portugal, mas, sim, com a Espanha que pode descarrilar a qualquer momento, maxime se as taxas de juro aumentarem, por exemplo 2 pontos percentuais. A Espanha pode estar muito mais próxima de cair no precipício do que normalmente se pensa. 

sábado, abril 23, 2011

Portugal delirante 



Enviaram-me esta da Tugalândia, de autoria desconhecida ao que parece colectiva. Não resisto em publicá-la, com a devida vénia, obviamente:


Se soubesse o que sei hoje, não teria feito o 25 de Abril. Teria feito antes um bolo de laranja.
 - Otelo Saraiva de Carvalho.

É preciso nascer duas vezes para gostar mais do facebook do que eu.
 - Aníbal Cavaco Silva.

Não, categoricamente não.
 - Fernando Nobre, surripiando duas gelatinas de morango numa cantina do Burundi, quando perguntado se desejaria sobremesa.

Está tudo tudo bem, só tenho aqui uma dorzinha no ombro.
 - José Sócrates.


Fico melhor assim ou assim?
- Passos Coelho, treinando a pose de estado.

Assim.
 - Miguel Relvas.

Assim.
 - Marco António.


Portugal, o medo de existir fora da liga europa.
 - Título do próximo livro de José Gil, com prefácio redondo de Rui Santos (um dos 25 pensadores mais importantes da actualidade, segundo a revista «France Football») e caixa arquivadora.

Ainda há iscas de bacalhau com arroz de feijão?
- Pessoa do FMI, à hora de almoço.

Não confio nas agências de Ray Ting. Marco sempre viagens pela net.
- Eurodeputado, em geral desiludido.

Quando apago a luz, sinto uma imensa paz. Como se nada se tivesse passado. Comigo resulta.
 - Adepto do Sport Lisboa e Benfica.

Para mim, não há coisa melhor do que submarinos. Em águas profundas, é como se estivesse na feira de Espinho, num videoclip da Dina ou na Irlanda dos anos 90.
- Paulo Portas.

Se exceptuarmos uma dorzinha no ombro do sr. primeiro-ministro, penso que está tudo bem.
 - Pedro da Silva Pereira.

Em princípio, vou votar no Bloco A.
 - Vera Roquete.

Esta semana, nas palavras cruzadas do Finantial Times (sobretudo nas verticais), percebe-se com clareza que Portugal, os Bancos, e toda essa gente, como eu tenho vindo a dizer.
 - Clara Ferreira Alves.


Amorzinho?
- Yannick Djaló.

Sim, amor.

 - Luciana Abreu.

Silva Pereira


Consultando notícias já com barbas, deparo com a recomendação do Ministro Silva Pereira aos finlandeses solicitando-lhes "bom senso", quando do acto eleitoral de há dias, para evitar que a Tugalândia ficasse entalada (ou mais entalada), como, de facto, está.
Será que Portugal e o seus governantes devem pedir bom senso aos finlandeses quando não o tiveram quando se endividaram? E afinal quem é Silva Pereira para mandar recados a esses povos a Norte do Porto e a Leste do Paraíso?

quinta-feira, abril 21, 2011

Um Governo de Merda, num país de Caca, numa situação infecta (2/3)


Creio que me assiste o direito inalienável de me indignar - e do qual jamais abdicarei -, após, verificar, durante anos e anos, com as governações do PS (em quem não voto) e do PSD (com quem não me identifico),  a inevitável queda no abismo, que impediu e impedirá, objectivamente e por inúmeras, gerações, o nosso país de saír do atoleiro em que se encontra. Foi com inconsciência, com incompetência, com ineficiência, com mentiras, com os fogos fátuos destas governações bacocas e primárias que estamos onde estamos.  Afundaram Portugal, continuamente, alegremente, irresponsavelmente, não só com obras faraónicas, num modelo de desenvolvimento irrealista e demente, num keynesianismo mal estudado e colado com cuspo, sem qualquer vislumbre de viabilidade, construindo loucamente Expos-98 para alimentar o ego, estádios de futebol sem espectadores e auto-estradas sem tráfego, concomitantemente, distraindo o Povão com temas importantíssimos tais como os direitos dos homossexuais, o casamento gay ou o aborto. Para tais mentecaptos, o país real sempre lhes passou ao lado. Portugal viveu, no curto ou no curtíssimo prazos, sem estratégia, sem rumo e, sobretudo, sem esperança.  Não, não vou por aí, como dizia o José Régio. Jamais irei, acrescento eu.
Como português e patriota não posso assistir impassível ao supremo vexame a que o nosso país está a ser submetido. E que ninguém me venha dizer que há mais culpas de a, de b ou c, pois todos somos culpados, incluindo você, internauta e leitor amigo e eu, muito naturalmente, claro,  uns mais do que outros. O meu grito é um grito da alma, um clamor de revolta sentido, por tudo aquilo que estamos a sofrer e por todas os tormentos a que iremos ser sujeitos, a curto, médio e longo prazos.
Penso que chegámos ao termo de um ciclo económico e, igualmente, ao termo de um ciclo político. Crescentemente, os sintomas emergem um pouco por toda a parte, uns mais significativos, outros não. Estou certo de que a prazo, tudo terá de mudar. É possível que não assista a nada disso, mas as gerações mais novas irão testemunhar a grande mudança e, podem crer, que ela virá.
Todos nós temos os nossos ideais, mas não podemos votar clubisticamente em X, Y ou Z, porque somos mais para um lado do que para o outro. Temos de analisar o balanço do que fizeram e o que, agora, propõem. Temos de votar, muito à maneira anglo-saxónica, por temas, por assuntos, por posicionamentos em relação às diferentes matérias em discussão e não pelo "clube" do bairro ou da nossa juventude. Temos também de votar em gente incorrupta, que não minta, que não se contradiga e que não hesite. Esse é que se me afigura ser um voto responsável e não serão os partidos tradicionais (os "clubes") a monopolizarem o nosso sentido de voto. Somos livres e não nos submetemos. 
Acresce que o sistema tem ser reformulado de alto a baixo, garantindo uma maior voz à cidadania, às organizações não governamentais, aos núcleos de base, ao homem da rua (isto não é demagogia, é a democracia real e é possível!). Não podemos estar sujeitos à partidocracia dominante e que tantos prejuízos nos tem trazido. Se eu sou, por exemplo, candidato deputado pelo PS por Viana do Castelo (escolhido pela máquina partidária, sem qualquer consentimento dos meus concidadãos), uma vez eleito mando Viana do Castelo às urtigas. Não respondo perante o eleitorado, mas, sim, perante, o Largo do Rato. Será isto democrático?
Estamos atascados em merda, da mais pura e da mais genuína!
Assunto a ser seguido!

A mal e à força 


Do "Correio da Manhã" (edição de 18 do corrente), dado o seu interesse,  com a devida vénia,  transcrevemos o editorial de A. Ribeiro Ferreira

"A mal e à força

Umas dezenas de personagens desta triste Pátria falida andam por aí a pedir um compromisso nacional. Trocando por miúdos, querem um acordo a prazo entre os principais partidos políticos para limpar a casa. Uma conversa fiada que apenas serve para aliviar as consciências democráticas de muitas almas com gravíssimas responsabilidades na porcaria a que isto chegou. Todos sabem que só nos 48 anos da ditadura de Salazar as contas andaram certinhas e o País até se podia gabar de ter umas invejáveis reservas de ouro. Dito de outra forma, é impossível manter a ordem com os indígenas à solta, os políticos a comerem à tripa forra da gamela do Estado e os empresários a viverem à pala dos dinheiros públicos. Os apelos manhosos ao consenso não servem para nada. Hoje como ontem, isto só lá vai a mal e à força."

sexta-feira, abril 08, 2011


Portugal - Crisis, what crisis?
Interessa saber o que os outros pensam e dizem de nós, sobretudo neste momento crítico da vida lusitana. De Norte a Sul, de Leste a Oeste, no mundo em que vivemos, de facto ninguém nos trata com particular simpatia. Do "Pravda" de Moscovo, edição de  26.03.2011, apesar de não concordarmos com tudo, com a devida vénia, transcrevemos o artigo de opinião em questão: 


"After Prime Minister José Sócrates presented his resignation to President Anibal Silva on Wednesday, the Portuguese mass media indicates a new legislative election at the end of May. However, this is not the only option open to the President. After decades of mismanagement, reality slams Portugal square in the face. What happens now?
If you build a house of cardboard on the sand and without solid foundations, then throw away the few stones anchoring the structure to the ground, it is natural that it will collapse with the first gust of wind, the first drops of rain, the slightest pressure from within. Quite how Portugal's cardboard house survived the 37 years since the 1974 Revolution is maybe a comment on the resilience of this people who seem to perform miracles getting things done with last-minute panic measures. In Portuguese it is called "desenrascar" (get out of trouble, somehow). This time, however, not even Houdini would escape.
Today, reality strikes Portugal and the Portuguese square in the face. Quite whose fault it is, is patently obvious: for a start, those political forces in positions of control since 1974 (namely the PSD - Social Democrats and PS - Socialist Party, both centre-right these days, sometimes in coalition with CDS-PP - Christian Democrats - Conservatives) and principally, the team of then Prime Minister and now President, Aníbal Silva, through whose hands billions and billions poured and who demonstrated neither the capacity nor the vision to invest that money adequately to make sure Portugal rose to the challenge.
Whether or not it was entirely his fault is another question. Was Portugal really prepared to enter the European Community back in 1986? Was Portugal really prepared to enter the Eurozone in 1999? Was Portugal ready to face the challenges imposed by the Convergence Criteria in the ensuing years? Does the EU actually work?
Over the years, successive Portuguese Governments received rivers of money which, it is now patently obvious, was abominably badly managed. EU membership saw the cities receive a facelift and in a few years bridged the decades which had separated Portugal from the rest of Europe. Thirty years ago, the Portuguese would describe themselves as "fifty years behind". Today, Lisbon is a modern capital city with as many modern facilities, or more, than its peers.
But the same Governments sold Portuguese industry down the river, destroyed Portuguese agriculture and lost fishing rights. Portugal, with one of the largest Exclusive Economic Zones in the world, has not taken advantage of its resources, mainly because they have been sold off... or simply lost. It is therefore hardly surprising that the young people of today feel there are no jobs to go to.
They are right. They have been destroyed. The massive demonstration a couple of weeks ago across Portugal by the Young Generation (and older members of society) was a wave of revolt not necessarily against the Government of José Sócrates but a tsunami of frustration against abominable governance since 1974.
Where did Sócrates go wrong?
As Minister of the Environment (1999-2002), José Sócrates wrote his CV as a candidate for the office of future Prime Minister. He showed competence, determination, vision and intelligence. Yet this determination was soon to be taken as arrogance and lack of transparency as a growing cloud gathered over his head and people who levelled accusations against him (none of which have reached the Courts) felt threatened. Some were even driven from their jobs for daring to criticise him. True, his Government had to face the financial and economic crisis as the market oriented capitalist model lurched from disaster to catastrophe and true, there have been forces at work in the international community snapping at Portugal's heels for over a year now.
For some, the idea of a Portuguese bail-out is very attractive. Next stop, Spain and pop! goes the Euro.
In politics, it is not necessarily what you do but how you are perceived to do it, which writes your epitaph. The recent decision to reduce VAT on golf when the family budget to eat is pushing even the middle class to breaking point - and if the interest rates rise, there will be a public calamity in Portugal - was perhaps the symptom rather than the cause. The fact that the Government of José Sócrates had had to push through three special austerity budgets (Stability and Growth Programme, PEC in Portuguese) in recent months, each one more punishing than the last, before presenting PEC IV to Parliament on Wednesday, gave off signals that neither the Prime Minister, nor the Government, knew what it was doing, amid real contestation on the streets and a continuation of dismal socio-economic indicators which have seen Portugal slide down the development classification to near the foot of the EU table.
In each austerity package, the Government had claimed that the measures would be enough to reach the objectives - yet the measures themselves were also extremely unfair socially and reflected policies which could only prove negative to the development of the economy. If we compare the socially progressive policies put forward by real Socialist Governments in Latin America, which avoided the economic crisis with the reactionary and repressive policies adopted in Europe (including by the Government of José Sócrates) and the tremendous social impact they incurred, then we have the answer to the questions.
The future
Strange though it may appear, not many media outlets in Portugal are yet postulating a real possibility - namely that instead of calling another general election (the last was 2009), President Silva has the power to nominate a Government of National Unity. The first option would no doubt bring another hung Parliament, with José Sócrates again leading the Socialist Party claiming that the Opposition was irresponsible in failing his emergency package at such a delicate time and exploiting the inexperience of Pedro Coelho, the leader of the largest opposition party, PSD.
The smaller parties with seats in Parliament (CDS-PP, CDU - Communists and Greens and Left Block) and others without representation, might manage to captivate more votes but the outcome would be once more the Portuguese banging their heads against the same two walls hoping that finally something might happen. If it hasn't for 37 years...
The second would work better if President Silva had the emotional intelligence to appoint a Government and more importantly, a figure, around whom a national consensus could be formed. He would be more likely to choose a figure from the past and with firm connections with his party, PSD. Let us however follow the lead of the Portuguese media and place this option in the background.
As for what happens next, whatever the case, nothing is going to make any difference at all until Portugal faces up to its weak points and does something about them.
Unity, humility, responsibility, transparency - and end the lobbies
What the Portuguese need to do, and until now have been incapable of, is the capacity to sit together and draw up a national plan in the short- and medium-term at least, which goes above and beyond the cosmetic whims of petty party politics. What Portugal needs is to establish benchmarks after broad consultation with all players involved and then to follow up and make sure they are being followed.
What Portugal needs is to sweep aside those thousands of leeches who suck the country dry, gravitating around the positions of power and control - an army of invisible, opaque and grey barons who make a living at the expense of the rest of the country. These are the lobbies, these are the boys for whom the jobs are reserved.
What Portugal needs is to show more humility, and this comes with accepting responsibility. This in turn passes by the need for properly drawn up job descriptions so that not only do people know what they are supposed to do, but can be held accountable if they do not fulfil their obligations. This also means that if some poor kid presses a button and gets his brains fried in a public street, the system does not push the poor parents around from court to court, then file the case as void, because the time to act has elapsed - and would eliminate the "Portuguese ping-pong scenario" whereby one tries to legalise something and spends days, weeks or months being sent from department to department to department, each one saying "it isn't here where you should be".
Responsibility and job descriptions also mean a different work ethic, in which the innate productivity of the Portuguese (who prove themselves to be excellent workers abroad but unproductive at home) could flourish - greater responsibility, more freedom, as per fulfilling the job description within the timetable stipulated, leaving work at the proper time, like in other countries, and having something called "a life" away from the office. This implies having a family/home life and enjoying leisure time, in turn creating jobs, not hanging around at work until midnight because "it is expected" by some failure/control freak without a private life to go home to.
Transparency is the last quality lacking in Portugal. What is the real state of the public finances? Why does nobody explain them clearly to the people? Why does nobody adopt the stance of a teacher with a blackboard and piece of chalk and say clearly where they are and where they need to go? Transparency means knowing the curriculum of those in public office, those leading the institutions - who they are and what their competences are.
Traditionally, Portugal has proven incapable of facing up to these shortcomings - the reaction to criticism, especially from foreigners, is aggressive and protective and there is even a phrase in Portuguese, quem não está bem, que se  mude - if you don't like it, clear off; basically this is an excuse to carry on making the same old mistakes and making the minimum effort.
The time for sweeping the dirt under the carpet is over. Time to listen and to act. The cardboard house is rotten. And the storm is coming. Portugal - it's now or never.
Timothy Bancroft-Hinchey
Pravda.Ru"