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quarta-feira, julho 27, 2011


Paradoxo – a situação dos bancos em Portugal



Para a minha e vossa cultura geral, segue a transcrição de um artigo de Pedro Santos Guerreiro no “Negócios on-line”, com data de 26 de Julho,
e a que está ser dada ampla circulação em vários blogs da net:

“A guerra deixou de ser surda: bancos e Banco de Portugal estão em braço-de-ferro.
A polémica usa nomes técnicos mas a pergunta é simples: devem os bancos pedir capital ao Estado? A questão é vital mas ameaça tornar-se filosófica: será evitável, essa nacionalização temporária? Dificilmente.

Primeiro, os caldos de galinha: não há risco para os depositantes. E não há, precisamente, porque há dinheiro do Estado, da troika, 12 mil milhões para capitalização e 35 mil milhões para liquidez. O risco não é hoje dos depositantes. É dos accionistas. É de quem precisa de crédito.

Decifremos: o Banco de Portugal quer que os bancos vendam carteiras de crédito. Mas como o risco de Portugal é alto, os bancos têm de vender essas carteiras com desconto. Ou seja, com prejuízo. Isso reduz dividendos e aumenta as necessidades de capital. E como dificilmente se encontra quem queira investir num banco português, a alternativa é pedir ao Estado: recorrer aos 12 mil milhões de euros.

Os bancos não querem. Temem saída de capitais. Não querem prejuízos, não querem ficar mais pequenos, não querem perder o controlo do presente e do futuro - e não querem o que uma intervenção estatal obriga: a entrada dos políticos (embora esteja previsto que o Estado seja "accionista silencioso"), limites aos salários das administrações e suspensão de dividendos. As acções desvalorizariam. Para os accionistas de referência, ainda pior, pois sem dividendos não podem pagar as suas próprias dívidas nem amealhar para mais tarde recomprar a posição do Estado. E lá vão os bancos para o controlo estrangeiro.

Na conferência de banca ontem do "Económico", foi este confronto que se tornou visível. O que permanece invisível é que a escolha não existe. É uma questão de tempo. E tempo é dinheiro.

Os bancos nunca estiveram preocupados com as novas regras de malparado e não stressaram com os testes de resistência porque estes não simularam o valor de mercado nos seus balanços da dívida pública dos países aflitos. O medo dos bancos está noutro teste, que arranca depois do Verão: a reavaliação das carteiras de crédito. É disso que Salgado e Ulrich falam quando falam de critérios "fundamentalistas".

Em Setembro, dezenas de técnicos da troika vão entrar nos bancos com uma tarefa que já fizeram na Irlanda: "varrer" os créditos e verificar se os activos que estão dados como garantia são suficientes. Na Irlanda, foram esses critérios "fundamentalistas" que levaram às nacionalizações.

Exemplo: um crédito à habitação de 200 mil euros tem como garantia o imóvel avaliado em 250 mil euros. A troika aplica uma nova métrica e diz que o imóvel vale apenas 170 mil euros. Então, ou o cliente reforça as garantias ("dá" mais património), ou o banco tem de "cobrir" a diferença com provisões. Multiplique este exemplo por milhares de créditos, empresas de imobiliário e construção, PME aflitas: dá uma imparidade enorme. Um buraco. E portanto pede-se intervenção do Estado.

A questão é que o buraco já existe na economia e não vai ser possível apartar a banca: é uma economia que se endividou de mais em consumo, imobiliário e projectos de baixo retorno. O problema está implícito nos bancos, sob a forma de crédito malparado aprazado. Mesmo o pagamento das dívidas do Estado, que aqui defendemos, refresca os bancos mas, do ponto de vista da troika, não muda a "equação" da economia: mantém-se a dívida pública, cria-se mais dívida privada.

Os bancos juram que não. O Banco de Portugal parece convencido de que sim. E, portanto, quer antecipar. Não é para ganhar tempo, é para salvar a economia em vez de salvar os bancos. Se não houver aumentos de capital, a alternativa será tapar a desvalorização das carteiras de crédito, encarecendo ainda mais o crédito às empresas. E as empresas estão a morrer de asfixia financeira. A quebra do investimento a que se assiste é dramática. Sem investimento, a economia não descola, a única coisa que crescerá é o desemprego.

Chegados aqui, é essencial perceber o que é hoje o Banco de Portugal. Já não é o "sindicato" dos bancos, como no passado. É o membro do Banco Central Europeu que tem mais de 40 mil milhões emprestados aos nossos bancos e é o interlocutor do FMI, que passa um terço do cheque da troika. É por isso que o Banco de Portugal tomou o controlo do Ministério das Finanças e, agora, da Caixa. Não é o Banco de Portugal: é a troika. Quem paga é a troika. Quem manda é a troika. E ainda bem. Porque o Governo parece, afinal, enclausurado no passado, desperdiçando a oportunidade de mudança da economia e cismando nos mesmos vícios: falta de corte de despesa, partidarização da Caixa - e falta de comando.

Chegará a hora de vermos as vantagens e as desvantagens das nacionalizações parciais da banca. De repartir culpas. Mas uma trave continua mestra: a economia precisa de uma banca forte. E isso vai, muito provavelmente, exigir uma nacionalização temporária, que mudará para sempre a propriedade e a gestão da banca em Portugal, menos alinhada com o Estado e que lute pela poupança. E mais estrangeira.

Como Sócrates dizia, o mundo mudou. E a banca, que sempre foi visionária, é quem está agora em negação. Vai ter de perder dinheiro. Vai ter de tirar as pequenas e médias empresas do espremedor. Vai ter de deixar de achar que a troika é idiota.

Eis o grande paradoxo: os liberais é que defendem a entrada temporária do Estado nos bancos. Vai ser impossível explicar, mas a ajuda do Estado aos bancos não será a ajuda aos donos dos bancos. Ao contrário do que parece, isso é que vai trazer perdas para os seus accionistas. Por isso é que eles não querem. Por isso é que a economia precisa. Como veremos nos próximos meses.”

sábado, novembro 20, 2010

Quo vadis Portugal? (parte IV de muitas variadas, interessantes e conturbadas partes)



De/acerca da grande crise de globalização do capitalismo 1/2 

J. A. Saraiva não se refere ao meltdown (ou seja, à fusão) de 2008 provocada pela crise do subprime. Presumivelmente, subentende-a por ser tão evidente e notória. Mas convinha que a questão fosse minimamente explicada, quer em termos do que sucedeu imediatamente nos mercados – a “grande turbulência” - , quer, principalmente em termos de futuro, a médio e longo prazos.  Por outro lado, haveria que sopesar o respectivo impacto em Portugal. Um tema de grande relevância  que os analistas, especialmente os “caseiros”, nunca abordaram de uma forma séria e consequente.
Uma das  questões pertinentes que  se levantam é o de saber a duração da crise que, sem prejuízo das medidas tomadas acto contínuo pelos EUA, pela Europa e pelo resto do mundo, parece estar para ficar, ou antes que os seus efeitos são mais duradouros do que parecia à primeira vista. É preciso não  nos esquecermos que quando do “krach” de 1929, a recuperação total só se deu em 1954 (25 anos depois de ter eclodido e  9 anos após o termo da II Guerra Mundial).
No combate ao meltdown uns são salvos e outros não, sem se atinarem com as razões para uma tal discriminação. Não se podia acudir a todos os focos de incêndio? Com certeza que não. Mas porque deixaram afundar a Lehman Brothers? Por ser um banco de investimento? Porque vendia produtos  financeiros tóxicos? Então os outros não o faziam? Porque foram vendidos ao desbarato o Bear Stearns e o Merrill Lynch? Porque é que  bancos de investimento como o Goldman Sachs e o Morgan Stanley (friso bem de investimento) passaram a bancos comerciais? E Fannie Mae e Freddie Mac que não estouram com o rebentar da bolha imobiliária (bom, se estourassem, a América entraria em colapso) e são salvos in extremis pelo Governo Federal (até porque dependiam de Washington)?
Depois, bom, depois surge o magno problema da previsibilidade da crise ou sua imprevisibilidade, tanto faz. Esses sábios das agências de rating não previram nada, mesmo nada? Mas espantem-se, ó gentes,  continuavam, com ameaça de crise, com crise ou sem ela, a dar classificações de 3 AA a títulos de lixo, a produtos tóxicos e às instituições que os emitiam? Questionados diziam: “Bom, estávamos apenas a emitir uma opinião. Cada um é livre de a seguir ou não”. Por outras palavras, limpavam as mãos como Pôncio Pilatos. É bom ver o filme “Inside Job” de Charles Ferguson, soberbamente narrado por Matt Damon para nos darmos conta destas enormidades todas.
            Acresce que existem fortes indícios de que as agências de rating estavam conluiadas com algumas grandes instituições financeiras e que faziam as suas notações ao gosto do freguês para que este pudesse vender melhor o “lixo” acumulado (CDOs e CDSs). Fatos à medida do cliente, pois então.
O que se percebe no meio desta embrulhada monumental, virtualmente indecifrável é que, em suma, todos os esquemas mafiosos foram possíveis, todas as Donas Brancas emergiram do nada, a corrupção e o conluio promíscuo entre o grande capital, o governo e as universidades foi de tal forma escandaloso que ultrapassou em muito o conceito comum de obscenidade.
Mas, na ânsia de tudo, desregulamentar, de acabar com todas as barreiras legais, com toda e qualquer interferência estatal,  acabaram por deixar andar tudo á solta – a balda mais completa e desbragada - e o resultado viu-se. O Estado tinha e tem de intervir para pôr ordem na casa. Era e é essa a sua função: árbitro e polícia. Essa gente não é, nem nunca foi, de confiança e tem de ter a rédea curta. É público e notório   que muitos ganharam, individualmente (friso bem)  centenas de milhões com a crise, mas muitos mais ficaram na miséria. O Estado não pode nunca demitir-se das suas funções e assobiar para o lado como se nada fosse.
Podemos argumentar - e com razão - que o Estado não deve fazer voar aviões, andar os comboios ou administrar os hospitais, mas tem de deter sempre um poder interventório, através dos bancos centrais (para isso é que eles existem), na banca e actividades relacionadas. A legislação tem de se restringir ao indispensável, mas deve primar pela clareza, energia,  poder de decisão e  controlo efectivo das actividades bancárias.
O futebol, ou qualquer outro desporto de equipa, tem as suas regras, que até se podem alterar com o tempo e com a experiência adquirida,  os seus árbitros ou juízes da partida que as aplicam e as federações que tudo supervisionam. Que eu saiba, não se joga no tudo ao molhe e fé em Deus. Na banca, por maioria de razão – trata-se de uma actividade hiper-sensível e que afecta  toda a sociedade -, têm de se aplicar critérios em tudo semelhantes.
E o que é que o Estado tem de regulamentar?
(i)            o sistema bancário;
(ii)           os produtos de investimento propriamente ditos;
(iii)         as bonificações dos quadros dirigentes das instituições financeiras.
            É claro que a crise extravasou, disparou em todos os sentidos e tornou-se mundial. Por exemplo, quando a Lehman Brothers vai à falência, encerra os seus escritórios em todo o mundo (Londres, Madrid, Singapura, Hong Kong, etc.)  e arrasta a queda de n outras instituições, à escala planetária, porque vivemos numa economia globalizada. Logo, o meltdown de 2008 é justamente uma crise da economia capitalista globalizada e surge, essencialmente, pela ganância desmedida (que de tão evidente carece de demonstração) que aumentava em progressão geométrica e pela falta de regulamentação, já referenciada.
            Mas, sem embargo de todos os considerando que precedem,  a crise, principalmente para a Europa, tem duas consequências graves:
-       Em primeiro lugar, o nosso continente deixa definitivamente de  ser um centro decisório de poder financeiro, marginaliza-se, permitindo que outros (as economias emergentes, designadamente os BRICs) ocupem o seu lugar;
-       Em segundo lugar, põe, na prática, termo ao Estado Social que levou 30 e tal anos a construir e no qual baseou o “sonho (projecto) europeu”.
As coisas jamais voltarão a ser o que eram.
Voltaremos ao assunto.  

sexta-feira, maio 14, 2010

Banca e respectiva promiscuidade com as agências de "rating"

Com a devida vénia, transcreve-se do NYT
News Alert: New York Said to Be Investigating Banks' Influence on
Ratings Agencies

Breaking News Alert
The New York Times
Thu, May 13, 2010 -- 12:00 AM ET
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New York Said to Be Investigating Banks' Influence on Ratings Agencies

The New York attorney general has started an investigation of
eight banks to determine whether they provided misleading
information to rating agencies in order to inflate the grades
of certain mortgage securities, according to two people with
knowledge of the investigation.

The agencies themselves have been widely criticized for
overstating the quality of many mortgage securities that
ended up losing money once the housing market collapsed. The
inquiry by the attorney general of New York, Andrew M. Cuomo,
suggests that he thinks the agencies may have been duped by
one or more of the targets of his investigation.

Those targets are Goldman Sachs, Morgan Stanley, UBS,
Citigroup, Credit Suisse, Deutsche Bank, Crédit Agricole and
Merrill Lynch, which is now owned by Bank of America.

The companies that rated the mortgage deals are Standard &
Poor's, Fitch Ratings and Moody's Investors Service.
Investors used their ratings to decide whether to buy
mortgage securities.

Read More:
http://www.nytimes.com?emc=na