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quinta-feira, maio 27, 2010

Cenários hipotéticos: a Polónia , mais uma vez, em sanduíche; a  Alemanha pós-U.E. e a opção russa   (4/4) -Tem de ponderar-se seriamente a opção russa.  Potencialmente existe uma sinergia de grande latitude entre as economias russa e alemã. Berlim importa enormes quantidades de energia e de outros recursos da Rússia e esta necessita, como dissemos, de tecnologia e capital para ultrapassar a sua actual posição de mero exportador de recursos naturais e de matéria-prima. A Alemanha, com uma população em constante declínio necessita de uma fonte de mão-de-obra que não quer deslocar-se para a Alemanha. A Rússia dispõe de recursos humanos abundantes  cuja economia não consegue absorver. A Alemanha não quer mais imigrantes, mas quer ter acesso à mão-de-obra. A Rússia quer fábricas no seu território para empregar mais trabalhadores. A lógica do relacionamento germano-russo, faz mais sentido que o das relações germano-gregas, germano-irlandesas ou germano-espanholas. Quanto à França, a opção permanece em aberto, poderá ou não participar  nos projectos comuns germano-russos – e presumivelmente será tentada a fazê-lo, em suma irá a reboque dos acontecimentos.
Por conseguinte, se nos concentramos simplesmente na economia e assumirmos que a U.E. não pode sobreviver como sistema integrado (o que, por ora, carece ainda  de demonstração) e se partirmos do princípio que a Alemanha é o motor politico-económico da Europa, mas incapaz de operar fora do contexto de uma coligação, pode-se logicamente argumentar que uma coligação germano-russa poderá ser o resultado do declínio ou, mesmo, da  implosão da U.E.
Este cenário deixa muita gente inquieta. Em primeiro lugar a Polónia, ensanduichada entre a Alemanha e a Rússia. Em segundo lugar, os EUA, uma vez que Washington veria um bloco germano-russo como um desafio significativo e muito mais relevante  que a União Europeia na sua formulação actual a 27. Seria, por um lado, um relacionamento muito mais coerente  e mais fácil na definição de politicas que o actual sistema em vigor na U.E. (ou seja, it takes only two to tango), por outro, enquanto que a U.E. não desenvolveu uma dimensão militar  devido a dissensões internas, a emergência de uma dimensão político-militar acoplada a um bloco económico germano-russo é mais factível.
Revertendo à questão dos mísseis “Patriot”, independentemente de outros considerandos, a possibilidade de um estreitamento de relações militares e de defesa entre a Polónia e os EUA, para contrariar a potencial aliança germano-russa, a que se poderiam juntar alguns dos estados bálticos, deve ser encarada, como uma hipótese de trabalho
A Polónia dispõe de uma Força Aérea bem apetrechada com os mais sofisticados F-16 a que se juntam , agora, os mísseis “Patriot”.
A crise económica e financeira pode desembocar em cenários como os descritos, muito embora não sejam inevitáveis.
O certo é que uma aliança entre a Alemanha e a Rússia, primeiro, económica e eventualmente militar, a que se contrapõe uma outra entre os EUA e a Polónia, irá criar novas divisões na Europa e  um novo quadro de relações.
Em conclusão, a  crise grega terá contribuído de algum modo para este estado de coisas. 


Cenários hipotéticos: a Polónia , mais uma vez, em sanduíche; a  Alemanha pós-U.E. e a opção russa (3/4) -  A nosso ver, o problema central gravita em torno do estatuto da Alemanha na Europa. A crise actual demonstrou, sem sombra para quaisquer dúvidas, que a Alemanha é o centro económico e gravitacional  da Europa e a crise demonstrou, igualmente, que as questões politicas e económicas são indissociáveis. Se Berlim não estiver de acordo, nada poderá ser feito. Se anuir tudo é possível. Nenhum outro país dispõe deste imenso poder, muito embora tenhamos tendência, quase sempre, a confiná-lo à esfera económica, o que não é inteiramente verdadeiro. A Alemanha é o motor e o decisor da Europa: por outras palavras, o problema central e sempiterno do nosso continente é a Alemanha.
Na sua qualidade de decisor, a Alemanha tem a capacidade para definir que politicas a Europa deve prosseguir como um todo.  Se a Europa se fragmentar,  então a Alemanha é o único pais com a capacidade para criar coligações alternativas com verdadeiro poder e coesão interna.
Vamos ser claros: se a U.E. se enfraquece, então a Alemanha terá a última palavra a dizer quanto ao destino da Europa. Neste preciso momento e na sequência da crise que  vivemos, a Alemanha está a tentar reformular a União Europeia e a eurozona, segundo o modelo que lhes é mais conveniente. Isto é absolutamente límpido. O resto é conversa fiada. Mas como um tal procedimento requer que muitos parceiros transfiram soberania para o controlo alemão – soberania que ciosamente conservaram através da implementação do processo europeu (i.e., o projecto transnacional coexistindo  com o estado-nação) – a Alemanha terá de procurar alternativas à União Europeia, quando se capacitar que o dito processo se esgotou.
Todavia, a Alemanha padece de limitações. O fulcro da questão reside no facto de Berlim, muito embora disponha de grandes poderes, não possuir o dom da omnipotência. Beneficia de amplos poderes na U.E. e presumivelmente será o único centro decisor no futuro, mas não pode fazer nada sozinha: a Alemanha necessita de uma coligação. A questão que se põe é a seguinte: numa  conjuntura previsível em que a União visivelmente se enfraquece ou implode (esta última hipótese  não pode ser ignorada) que alternativas poderão ser exploradas pela Alemanha?
A França constitui, via de regra, a resposta corriqueira e banal, à pergunta formulada. Todavia, historicamente, ambos os países viveram – e , de certo modo, ainda vivem - num ambiente de competição e de crispação. No seio da União Europeia estas tensões têm sido diluídas, uma vez que, quer Berlim, quer Paris possuem um interesse comum em gerir a Europa, de acordo com os seus interesses próprios, desde que não conflituem entre si ( o que é, por exemplo, visível, na actual crise) . A França e a Alemanha são mercados complementares, mas, por si só,  a França não constitui o fundamento para a estratégia económica alemã. Realce-se que a alternativa histórica para a Alemanha tem sido sempre a Rússia.

quarta-feira, maio 26, 2010

Cenários hipotéticos: a Polónia , mais uma vez, em sanduíche; a  Alemanha pós-U.E. e a opção russa (1/4) -  A questão “europeia” (permitam-me que a coloque entre aspas) parece ser hoje dominada pela omnipresente crise grega, pela  consequente crise dos “PIIGS” ou, pelos riscos de contágio  destas situações à boa saúde  das finanças europeias. Falar de questões militares ou de defesa não só se afigura, à primeira vista, deslocado, como algo de absurdo ou, mesmo, de anacrónico.  Todavia,  estes problemas , sem honras de “cacha” de primeira página ou de abertura dos telejornais, continuam a estar na primeira linha das preocupações de muito boa gente.
Sem embargo do que se refere, é  ocasião para se falar do anúncio dos EUA quanto à instalação de mísseis “Patriot” em território polaco. Quando Barack Obama, devido às intensas pressões russas, decidiu pôr termo ao famoso “escudo protector” (ou seja, a colocação de mísseis de longo alcance na Polónia e radares na República Checa), ideia do seu antecessor George W. Bush, os polacos mostraram-se profundamente decepcionados, daí a ulterior opção pela instalação dos “Patriot”, como compensação, tratando-se no caso em apreço de mísseis de curto e médio alcance.  Esta solução permitirá à Polónia defender-se de idênticos  mísseis balísticos de curto alcance  e de ataques aéreos convencionais. Ora quem é o país que se sente visado com esta manobra?  A Federação Russa. Muito embora, atento o estado actual das relações polaco-russas, consideremos que esta ameaça é meramente teórica e e apenas concebível em termos hipotéticos.
Por outras palavras, ao desistir do magno projecto de Bush, por pressão de Moscovo, os EUA instalaram um sistema tal que, ironicamente, pode afectar a Rússia, designadamente o enclave báltico de Kaliningrado.
Apesar de tudo, os russos vêem com a maior desconfiança estas questões tidas como meramente  hipotéticas, pois podem transformar-se de um momento para o outro em realidades tangíveis e a história está cheia de tais exemplos. A potencial superioridade aérea estratégica da Polónia, sozinha ou acompanhada pelos países da  NATO, é razão para a Rússia se sentir inquieta.
De momento, Moscovo pretende manter o melhor relacionamento possível com o Ocidente e beneficiar do know how e da tecnologia de ponta europeias. As preocupações da Europa e dos EUA são outras: a crise económico-financeira, para os primeiros, o Paquistão, o Irão e o Médio Oriente, para os  segundos. Os russos têm carta branca para actuar, quase sem estorvos dignos de nota, no cordon sanitaire composto pelos estados da antiga URSS.  Moscovo patenteia alguma satisfação com a crise europeia  e, sobretudo, não quer que a U.E. caminhe no sentido de maiores integração e  solidariedade dos respectivos membros, porque dilui o seu  poderio e potencialidades.
Por conseguinte, a questão dos “Patriot” constitui um “irritante” e um problema militar hipotético, mas incómodo, para os russos, o que não significa que Moscovo esteja na disposição de ir  terçar armas por esta causa.
Se a Polónia não é, de momento uma prioridade para os interesses de Washington, a instalação dos “Patriot” deve-se, apenas, à insistência polaca e não a qualquer desígnio estratégico norte-americano.
Todavia, não se pode minimizar este tema ou considerá-lo como um mero resquício da mentalidade da Guerra Fria.