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quarta-feira, outubro 20, 2010

As lições do Chile


As lições que nos chegam do Chile, da “Operação Resgate dos Mineiros de S. José”.

Este país vulgarmente dito da “América Latrina” deu várias lições ao mundo que convém não ignorar.
O Chile:
Saído do Pinochet, refez-se. Tem feito contas com a história.
Saído de um tremendo sismo e tsunami, refez-se. Sem choradinhos.
Agora a “Operação Resgate” onde se viu a braços com um salvamento nunca antes feito noutra parte do mundo. Sacar cá para fora 33 homens encurralados a 700 m de profundidade.

Vamos começar pela lição de amor aos seu mineiros, em contraste com os russos, por exemplo, no caso do submarino onde deixaram morrer mais de 100 marinheiros da forma mais vil.
Não esqueço uma mulher a ser injectada em plena demonstração de repulsa, pela forma como o governo desprezou os seus homens, pelo estúpido segredo militar.
Não esqueço os mineiros chineses que morrem como toupeiras encurraladas.
Não esqueço os mineiros portugueses que são esquecidos nas suas doenças.

A “Operação Resgate” teve um planeamento exemplar. Não anunciaram um salvamento para amanhã, para depois ser adiado para o próximo mês e para o próximo ano, como sucederia cá.
Não, foi anunciado para o Natal e antecipado dois meses. Brilhante!

Na “Operação Resgate” não enriqueceu nenhum político. Nem mesmo vai acontecer nenhuma derrapagem financeira. A empresa mineira viu as suas contas congeladas para não se furtar às responsabilidades como pretendia fazer.

A “Operação Resgate” foi de tal forma planeada que não se viu ninguém, atropelar ninguém. Todos sabiam perfeitamente bem… o que fazer. Engenharia perfeita como dizia a BBC. Todo o mundo irá beber na experiência e na lição Chilena. Todo o mundo está vergado.

Na “Operação Resgate” os jornalistas estiveram sempre arredados da zona de trabalhos, com a sua bancada construída para o efeito. Mais de 2000.

Na “Operação Resgate” não se viram molhadas de polícias ou militares para conter a turba de familiares, jornalistas, curiosos e alcoviteiros.

Na “Operação Resgate” nenhum chefe de bombeiros, médico, engenheiro, ou penetra… deu entrevistas idiotas para a televisão.

Na “Operação Resgate de S. José” falou-se pouco e trabalhou-se muito e bem.

Na “Operação Resgate” nada foi deixado ao acaso. Tudo foi previsto, tudo foi calculado.
O joelho só serviu para dobrar a perna e não como mesa de trabalho.

O mundo está rendido à eficácia dos Chilenos.
Deixem de dizer “América Latrina” e olhem para o lameiro que está à porta.

segunda-feira, abril 05, 2010

América Latina e Portugal - existe uma estratégia lusa de relações externas para a Ibero-américa?  (1/3) - A propósito do que aqui escrevemos sobre a política externa de Washington em relação aos seus vizinhos do sul, vamos ao longo dos dias que se seguem esmiuçar um pouco a questão que levantámos e começamos com os factos:
- Portugal dispõe exactamente de 9 embaixadas na Ibero-américa: Bogotá, Brasília, Buenos Aires, Caracas, Havana, Lima, México, Montevideu e Santiago do Chile.
- Estas missões cobrem 32 estados da América do Sul, Central e Caraíbas, em que os respectivos  Chefes de Missão são, via de regra, acreditados de uma forma bizarra a saber:

  • Caracas, o embaixador Caetano da Silva tem a seu cargo 10 países, a maioria caribenhos (Venezuela, Antigua e Barbuda, Barbados, Grenada, Guiana, São Cristóvão e Nevis, São Vicente e Grenadinas, Suriname, Trindade e Tobago e Jamaica
  • Buenos Aires - o embaixador Ferreira Marques tem sob a sua alçada apenas a Argentina e o Paraguai.
  • Cidade do México - o embaixador Falcão Machado, para além do México (o 2º país e a 2ª economia da América Latina)  partilha com o seu colega de Bogotá quase toda a América Central, cabendo-lhe em sorte: Belize, Salvador, Honduras, Guatemala e Nicarágua e ainda tem tempo para a República Dominicana.
  • Bogotá - Augusto Peixoto, residente na Colômbia, tem ainda 2 países da América central (Panamá e Costa Rica), mais o Equador e duas ilhas das Caraíbas Dominica e Santa Lucia.
  • Havana, onde pontifica Luis Barreiros, para além de Cuba é também acreditado no Haiti.
  • Lima, que tem como chefe de missão Bessa Lopes, encarrega-se do Peru e da Bolívia
  • Santiago do Chile - Paes Moreira  tem a seu cargo Chile. Ponto final.
  • Montevideu, o mesmo sucede com Luísa Bastos de Almeida que se fica pelo Uruguai
  • Brasília,também aqui, João Salgueiro, não tem mais cartas no baralho, para além do imenso Brasil.
Como vemos, a América Central é partilhada entre Bogotá e a Cidade do México e as Caraíbas servem um pouco para todos os estados ribeirinhos onde temos embaixadores residentes. Se a lógica, da cobertura em quadrícula na América Central e Caraíbas nos escapa, na América do Sul a confusão é maior não se atinando com o acerto ou desacerto das acreditações: a uns não lhes cabe nada na rifa (Uruguai, Chile e Brasil - aqui até se compreende por todas as razões e mais alguma) para os demais há apenas a acreditação num dos países limítrofes.
Noutros tempos - há mais de 3 décadas -  tivemos embaixadas em São José da Costa Rica e em La Paz (Bolívia). Em relação à América Central, o mínimo que se pode dizer é que estamos perante uma cobertura extremamente deficiente e mal articulada. Quanto aos demais países, a América do Sul mereceria mais uma embaixada, pelo menos em Asunción, tendo em conta os vastíssimos interesses e investimentos sobretudo no sector agro-pecuário do Banco Espírito Santo no Paraguai ou talvez no Equador, um país que começa a emergir. Nas Caraíbas, o nosso interesse é naturalmente reduzido.
De registar que o Brasil - a potência sub-regional por excelência tem embaixadas (entenda-se full-fledged embassies)  em todos - sublinhamos todos - os países das Américas e Caraíbas. 
A Espanha tem, muito naturalmente, em todos os países de língua espanhola, sem excepção e mais uns tantos, aqui e além
Voltaremos ao assunto em próximos capítulos.